|Bolívia

Jeanine Áñez: «de facto» derrotada

A presidente nomeada pelos militares e milícias golpistas abandona a corrida eleitoral por falta de apoio e para unir a direita contra Luis Arce, o ex-ministro de Evo Morales que lidera as sondagens.

Luis Arce é levado aos ombros por apoiantes, em La Paz, Bolívia, a 2 de Fevereiro de 2020, para registar-se como candidato do Movimento para o Socialismo (MAS) às eleições gerais. O ex-ministro de Evo Morales regressou do estrangeiro, onde se encontrava exilado depois do golpe fascista, descartando as ameaças que lhe foram feitas pelo governo «de facto»
Luis Arce recebe grande apoio popular e é o favorito às eleições de 18 de Outubro, cuja vitória Jeanine Áñez procura a todo o custo evitarCréditos / AFP

A presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, anunciou que se retira da corrida eleitoral, a um mês das eleições gerais no país, que se realizam no próximo dia 18 de Outubro.

O anúncio, segundo a Lusa, foi feito um dia depois de ter sido conhecida uma sondagem que dão uma clara liderança (29,2%) ao Movimento para o Socialismo (MAS), cujo candidato à presidência é Luis Arce, antigo ministro da Economia de Evo Morales. Áñez apenas ocupa o quarto lugar (7,7%) atrás de Carlos Mesa (19%) e Luis Fernando Camacho (10,4%).

A sua desistência foi apresentada como uma tentativa de unir a direita em torno de uma destas candidaturas, para impedir a vitória do candidato do MAS: «se não nos unirmos, Morales regressa», avisou.

Na verdade, trata-se de uma estrondosa derrota para alguém que recorreu a todos os meios para se eternizar no poder, apesar de todas as promessas em contrário, e marca o isolamento a que chegou, mesmo entre os seus parceiros no golpe de Estado.

Os dez meses de Áñez à frente de um governo composto por «empresários proeminentes» foram marcados por políticas neoliberais marcadamente antipopulares e de favorecimento da oligarquia local, tendo como objectivo principal fazer retroceder as conquistas sociais alcançadas durante as presidências de Evo Morales, internacionalmente reconhecidas.

A aplicação destas políticas, largamente contestada pelos bolivianos, foi acompanhada de uma feroz repressão dos que se lhe opunham e perseguição sistemática dos opositores, em particular dos representantes e apoiantes do MAS e de organizações populares, camponesas e indígenas.

O governo Áñez fica também marcado por casos de corrupção e nepotismo entre os cargos por si nomeados, que fizeram cair nove dos vinte ministérios que o compunham.

Comentando a renúncia de da presidente «de facto», Evo Morales, segundo a Telesur, considerou-a uma tentativa de sair impune dos «escandalosos casos de corrupção» da sua gestão e «do genocídio» de Senkata e Sacaba, e que «a reedição de uma tristemente famosa megacoligação», na «situação crítica» que o país atravessa, é uma tentativa para que «aqueles que protagonizaram a crise neoliberal» continuem «o saque da Bolívia».

Carmen Pareja Rondón, em entrevista citada pela Hispan TV, afirma que Áñez, cujo papel foi o de evitar que o MAS regressasse ao poder, procura «algum tipo de acordo de impunidade» para os actos por si praticados, e está a apostar em Carlos Mesa por este ser o candidato mais bem colocado para isso.

Segundo a analista, a autoproclamada presidenta chegou ao poder de uma forma no mínimo «anómala» e a pergunta a fazer não é porque sai da corrida eleitoral agora, mas sim porque não o fez antes.

De facto, não eleita

A actual ex-candidata assumiu a presidência da Bolívia durante o golpe de Estado do ano passado e no meio de um clima de terror, na sequência da renúncia e partida para o exílio, a 10 de Novembro, do presidente constitucional Evo Morales e do seu vice-presidente Álvaro García Linera, para evitar um banho de sangue no país andino.

Áñez, à altura vice-presidente do Senado, autoproclamou-se presidente na sessão de 12 de Novembro, com a ausência dos deputados do partido maioritário, o MAS, impedidos de entrar pelos golpistas. Alegou a renúncia de todas as figuras de Estado que a precediam, como previsto na Constituição, mas tal foi contestado pela presidente do Senado, Adriana Salvaterra, que retirou a sua renúncia antes da mesma ser apreciada pelo plenário e mantém ter-se tratado de uma nomeação ilegal.

Na véspera Áñez prometera realizar eleições em Janeiro seguinte, mas vinte dias depois dava a data da sua realização como indefinida. Em Dezembro o seu ministro da Presidência afirmava que ela nunca seria candidata nem apoiaria um candidato, mas a 24 de Janeiro Áñez formalizou a sua candidatura.

A presidente de facto nomeou para presidente do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) um jurista da sua confiança, Salvador Romero, visita frequente da embaixada dos EUA em Bolívia, conforme revelou a Wikileaks.

Romero, que inabilitou o popular Evo Morales de concorrer ao Senado, adiou sucessivamente a data das eleições, tendo chegado a afirmar, em Março de 2020, que as mesmas ficavam adiadas indefinidamente devido à pandemia, e apenas acabou por marcá-las para o próximo 18 de Outubro depois de fortes manifestações populares e de pressão nesse sentido pela maioria das forças políticas.

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