Cerca de 3000 militantes de todo o país sul-americano juntaram-se na capital baiana para discutir a estratégia política do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ao longo desta semana, centrando-se em questões como as normas gerais do movimento, a sua estrutura organizativa, táctica e planeamento para o próximo período.
«Há 17 anos não realizávamos uma reunião desta instância», destacou Evanildo Costa, da direcção nacional do MST na Bahia no início do conclave. Em seu entender, o encontro ganha ainda maior relevância na actual conjuntura política e internacional.
«Reunir toda essa militância demonstra a força acumulada ao longo da nossa história, mas também evidencia os desafios que temos pela frente», afirmou, citado pelo portal do MST.
Geopolítica e crise do imperialismo
A mesa de abertura, na segunda-feira, foi dedicada ao debate sobre a geopolítica mundial e a conjuntura internacional, que contou com a participação do jornalista Breno Altman e da militante da Articulação Internacional dos Povos Stephanie Weatherbee.
Ambos destacaram o cenário de crise de hegemonia do imperialismo norte-americano. «O mundo vive uma contradição que marcará os próximos anos: entre uma ordem unipolar moribunda, liderada pelos Estados Unidos, e a ascensão de uma ordem multipolar ainda em formação, impulsionada principalmente pelo crescimento econômico da China e pelo fortalecimento do Estado nacional russo», analisou Breno Altman.
De acordo com o jornalista, a crise dos Estados Unidos não significa um enfraquecimento automático. «O imperialismo em crise não se torna mais afável, mas mais violento, como uma fera ferida. O renascimento de movimentos fascistas nos países imperialistas é produto dessa crise», declarou.
Esse processo expressa-se de forma intensa na América Latina, defendeu Altman, sublinhando que «os Estados Unidos decidiram retomar o controle da região na ponta do fuzil».
Sem projectos revolucionários, não há força para enfrentar o imperialismo
Na mesma linha, Stephanie Weatherbee analisou os instrumentos utilizados pelos EUA para reforçar a sua influência no continente. «Como os Estados Unidos são um parceiro econômico central para muitos países latino-americanos, conseguem manipular essa relação», explicou.
Em seu entender, esses mecanismos dependem da actuação de operadores locais. «Os EUA alimentam na América Latina uma extrema direita e uma burguesia que colocam seus interesses acima de qualquer projeto de desenvolvimento nacional», disse.
Weatherbee também alertou para o papel de sectores progressistas que, ao adoptarem posturas moderadas ou críticas a processos revolucionários a partir de uma óptica liberal, acabam por legitimar narrativas imperialistas.
Para a militante da Articulação Internacional dos Povos, a luta contra a unipolaridade passa pela construção de uma nova ordem multipolar, mas esse processo não pode ser um fim em si mesmo. «Sem projetos revolucionários no Sul Global, a multipolaridade não terá força para enfrentar o imperialismo. Não podemos terceirizar nossa libertação: precisamos ser protagonistas na queda do imperialismo», frisou.
No debate, Breno Altman destacou ainda a importância da luta popular no contexto de avanço da ofensiva imperialista sobre o Sul Global. «Nosso inimigo é forte, mas não é invencível. Ele pode muito, mas não pode tudo. Vive o momento histórico de sua decadência. Não é hora de recuo nem de intimidação», afirmou.
Um dos encontros mais importantes do MST
Em termos de representatividade, o Encontro Nacional é a segunda instância mais ampla do MST, ficando apenas atrás do Congresso Nacional do movimento.
A última vez que o MST realizou um encontro nacional foi em 2009, na cidade de Sarandi (estado do Rio Grande do Sul). Agora, com mais de 3000 militantes congregados em Salvador, o movimento procura fortalecer o seu plano estratégico de luta pela terra, a construção da Reforma Agrária Popular e o acúmulo de forças rumo ao socialismo.
Nos cinco dias de actividades do encontro, refere o MST no seu portal, estavam previstos múltiplos debates, nomeadamente sobre a actuação do capital na agricultura, a conjuntura económica e política brasileira, e o papel do MST como força política.
Da mesma forma, foi programada a realização de um balanço das acções do movimento na formação política, na agroecologia, na cooperação e na agro-industrialização.
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