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«Fidel, niño valiente», filme épico sobre um rapaz e o seu cavalo de corridas

A longa-metragem de Mario Verón centra-se em Fidel, um rapaz paraguaio na província argentina de Misiones. Com o seu cavalo, El Che, participa em corridas para conseguir dinheiro e ajudar a mãe, que vive no seu país.

Créditos / Télam

As difíceis condições de vida de um rapaz na selva de Misiones, no Nordeste da Argentina, e o seu papel como cavaleiro de um magnífico cavalo, com o qual compete nas precárias pistas de relva da província, são eixos de Fidel, niño valiente [Fidel, rapaz corajoso], a longa-metragem de Mario Verón que vai estrear dia 16 num cinema do Bairro Congreso, em Buenos Aires.

Ao saber desta particular dupla, Verón diz à agência Télam que viajou «para ver Fidel cavalgar com o Che nuns hipódromos improvisados que havia na província e vi-os transformados em cavalo e cavaleiro do povo».

Refere ainda que, além de se sentir atraído pela épica, viu na história real a possibilidade de «falar da feroz desigualdade entre as condições de vida dos camponeses e o poder das grandes empresas multinacionais na província».

«Verón viu na história real a possibilidade de "falar da feroz desigualdade entre as condições de vida dos camponeses e o poder das grandes empresas multinacionais na província"»

Sobre a forma como se interessou pela história, Verón diz que tem uma ligação profunda ao «Movimiento Sin Tierra Libertad» de Misiones, que é acossado pela Alto Paraná, uma multinacional dona de uma superfície que representa dez vezes a extensão da Cidade de Buenos Aires.

Realizou ali duas produções e as pessoas de lá contaram-lhe sobre um rapaz que veio do Paraguai e que, com o seu irmão, se meteu pelos montes dentro de Misiones, onde encontrou um cavalo que se chamava El Che e que ambos trabalhavam a participar em corridas rurais.

«Fidel vestido com a camisola de Maradona e o cavalo chamado El Che são símbolo da luta dos humildes face à opressão»

Quando a Télam pergunta se o Fidel vestido com a camisola de Maradona e o cavalo chamado El Che são símbolo da luta dos humildes face à opressão, Verón defende que ambos representam a «luta face ao injusto», «o que sabemos de Guevara, juntamente com o sentido de classe de Maradona, de não esquecer a sua origem e o estar sempre do lado dos fracos».

No que respeita ao trabalho com os actores, sem experiência anterior, o realizador diz que se tratou de «um trabalho assente na sinceridade». Por isso foi viver quatro meses para o monte, passando o Natal e o Ano Novo com os protagonistas, sendo «o outro», mas «procurando aproximar-se da sua dor para poder filmar». «Algo que não tem nada a ver com o heroísmo cinematográfico, mas que foi indispensável para contar esta história».

Numa narrativa que «combina beleza do lugar com momentos deveras tensos», o princípio seguido «foi fazer das dificuldades oportunidades narrativas», disse Verón, que destacou os desafios colocados por trabalhar a luz natural sem a ajuda de artefactos eléctricos.

«Num filme que fala da pobreza e do desamparo, tomaram-se decisões para impedir que se transformassem num "show da miséria"»

O realizador destacou ainda o modo como «capitalizou» a luz dos candeeiros usados por Fidel e os camponeses à noite, ou os contrastes, sob a intensidade do sol, «entre o celeste do céu, o verde intenso da selva e o vermelho da terra» de Misiones.

Num filme que «dá conta da pobreza e do desamparo», a Télam questionou o artista sobre as decisões que tomou para impedir que «essas terríveis condições» se transformassem num «show da miséria».

«Penso que se tomam decisões antes de iniciar a rodagem, mas é na sala de montagem onde se decide o que vem à luz», frisou Mario Verón. «Se se trata de uma filmagem sincera, fica implícito que muitas coisas não foram filmadas porque há momentos em que se decide desligar a câmara e cuidar do outro», disse.

«Escapamos sem dúvida da espectacularização da miséria e da pena, aos estereótipos. Tenho como referências Raymundo Gleyzer e a sua geração»

«Escapamos sem dúvida da espectacularização da miséria e da pena, aos estereótipos. Tenho como referências Raymundo Gleyzer e a sua geração, entre eles, Jorge Prelorán, que trabalhava com instrumentos como a antropologia Emic, que significa ter em conta o olhar e aquilo que deseja quem é retratado», prosseguiu.

Sobre o tema central do filme, se se trata da «épica de Fidel e da sua vontade de superar as adversidades», Verón disse crer que sim. «O rapaz possui essa vontade épica de David contra Golias e ali também recebe essa rebeldia silenciosa que parece mantê-lo vivo», disse.

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