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De Mar-a-Lago ao estreito de Ormuz, a nossa esquerda perante Cuba

O que está em curso em Cuba, e que as votações de PS/Livre/BE caucionam, é o prego no caixão de qualquer movimento de resistência à «democracia» trumpista e à política de Miami-para-o-mundo

Créditos Aude Guerrucci/POOL/EPA / Agência Lusa

A abstenção do BE e o voto a favor do PS e do Livre na vergonhosa proposta da Iniciativa Liberal sobre Cuba, no passado 8 de Maio – uma proposta onde nem por uma vez se usa a palavra «bloqueio», «Estados Unidos» e se isenta a tremenda situação económica cubana das «sanções económicas», atribuindo-a ao «regime» – empurra a nossa esquerda para um beco completamente refém da ala trumpista das relações internacionais. 

Tenho repetido que, hoje, a política internacional dos EUA é fruto do um alastramento da política Republicana da Florida-anti-Cuba a toda a Administração Trump. Isto é, se antes o anti-cubanismo – um misto de reaccionarismo rançoso e ressentimento de extrema-direita, que exala desde a Calle 8 até aos corredores do Congresso – estava aparentemente localizado à escala «gusana» de Miami, agora ele está generalizado à escala Washington-global. É Miami, e de Miami, que Trump et al fazem a gestão de tudo, desde Mar-a-Lago até ao estreito de Ormuz. A mesma retórica, o mesmo comportamento, a mesma política, a mesma visão do mundo «resortificada», o imperialismo no seu estado mais grotesco. Da Florida para o mundo – ou não tivesse sido por lá primeiramente implementada grande parte da agenda ideológica do Project 2025, em políticas de educação, direitos laborais ou reprodutivos.

Cair no alçapão da «democracia», dos «direitos humanos», «das eleições livres», é ficar refém da «democracia» à la Trump que eles (a nossa esquerda) dizem não ser efectivamente a de Trump, mas a que eles (a nossa esquerda), porque são mais democratas do que Trump (claro, e moralmente superiores), defendem a partir da bancada da Assembleia da República. 

Neste momento, essa «democracia» é precisamente a mesma. A mesmíssima «democracia» que se atirou para um regime change no Irão. A mesmíssima que está há quase três anos a apoiar (com toda a sua máquina económica e militar) o genocídio na Palestina. A mesma «democracia» que se gaba da subserviência de Portugal na utilização da Base das Lajes para atacar o Irão.

Não dá para defender «soberania» e exigir que Rangel se explique perante as palavras de Marco Rubio (que eles condenam), para depois anuir perante a política de Marco Rubio em relação a Cuba partindo, precisamente, das mesmas premissas que Rubio usa para justificar o ataque norte-americano a Cuba. Porque o que defendem para Cuba é uma intervenção «moderada» que, embrulhada em «democracia» e «eleições livres», transformará Cuba num banho de sangue.

Foi assim com os elogios rasgados do nosso actual Presidente da República, de gente do Livre e do PS à atribuição do Nobel à fascista venezuelana Maria Corina Machado. Claro, foi antes do ataque dos EUA à Venezuela, que depois todos vieram veementemente condenar, «apesar de». Quando Maria Corina ofereceu depois o seu Nobel a Trump, ninguém se dignou a perguntar a António José Seguro, a Rui Tavares ou à malta do PS o que pensavam de tudo aquilo, ou em que buraco se iam enfiar então. Foram «apanhados de surpresa»? Não fizeram «o trabalho de casa»? É que não era só com Trump que Maria Corina (e o seu «corajoso compromisso com a liberdade, a democracia e os direitos humanos», disse Seguro) andava, há décadas, no beija-mão: com Abascal do Vox, com Milei, com Bolsonaro, com Le Pen também.

O que aconteceu na Venezuela é, na prática, a política Mar-a-Lago em curso, a que está em disputa acesa no seio da União Europeia e da NATO, que está em curso na Palestina, no Irão, na ingerência nas eleições do Peru, da Colômbia e do Brasil este ano, que está em curso com os fantoches no poder na Argentina, no Chile e na Bolívia, nas intervenções dos EUA no México, no Equador com a paramilitarização do exército do «narco» Noboa «vendido» ao armamento dos EUA, ou na recente eleição de um outro «narco» absolvido, nas Honduras. E é a que está em curso em Cuba, com dinâmicas e consequências muito mais extraordinárias do que qualquer outro país da América Latina, através de um processo de total «palestinização» da resistência cubana.

O PS e o Livre já perceberam que, perante os planos genocidas de Israel-EUA, não podem criminalizar a resistência palestiniana e fazer condicionar (permanentemente, porque o fazem por vezes) a sua/nossa solidariedade com o povo palestiniano às decisões políticas que a Autoridade Palestiniana ou o Hamas terão tomado ao longo de décadas, independentemente da sua natureza. 

«Porque o fazem com Cuba? Um país sitiado há mais de 60 anos? Um país que nunca conseguiu implementar o seu processo revolucionário em paz porque esteve sempre na iminência da guerra? Que não consegue comprar absolutamente nada no mercado mundial que envolva uma simples transação bancária?»

Percebem, por oportunismo ou uma fugaz tomada de consciência, que a situação política da Palestina é absolutamente irrelevante para as decisões genocidas de Israel-EUA, e portanto a solidariedade deve ser incondicional, independentemente das posições do Hamas, da AP, dos partidos palestinianos. Na verdade, hoje, são poucos os que se atrevem a tocar no(s) modelo(s) de gestão do(s) governo(s) em Gaza ou na Cisjordânia, de antes ou de agora. Sobre a Palestina, Bloco, PS e Livre já não se atrevem, como fazem tantas vezes com tantos movimentos políticos e sociais no mundo que não venham do seu «bolso» político, a sugerir como um povo se deve defender, como deve resistir, que processos são mais legítimos que outros, fazendo tábua rasa de todos os que não lhes convêm, segundo a sua bitola eurocêntrica embrulhada de «descolonizadora».

Porque o fazem com Cuba? Um país sitiado há mais de 60 anos? Um país que nunca conseguiu implementar o seu processo revolucionário em paz porque esteve sempre na iminência da guerra? Que não consegue comprar absolutamente nada no mercado mundial que envolva uma simples transação bancária? Um país que sofreu desde sempre a política de Miami – terrorismo, sanções, bloqueio, ingerência, desestabilização permanente, perseguições económicas, judiciais, extraterritoriais –, esta mesma política de Miami a que assistimos hoje por todo o planeta?

Temos sido testemunhas da escalada de perseguição e criminalização das esquerdas e dos movimentos sociais por toda a América Latina. Não é uma coisa nova, sabemos, mas é hoje muito mais apurada, porque o vigiar e punir, desde o clássico assassinato sumário ao lawfare e judicialização, há muito ultrapassou os limites de uma simples fronteira. Por cá também, com os movimentos de apoio à Palestina no Reino Unido, na Alemanha e em França. Apesar de as retóricas violentas anti-esquerda, que pululam pelas televisões e redes sociais, ainda não terem atingido de forma sistemática e demolidora o Livre, o PS e o BE (i.e., ainda não foram totalmente silenciados, nem estas se traduziram em perseguições ideológicas, como se vê ao PCP desde, no fundo, a pandemia), o que está em curso em Cuba, e que as votações de PS/Livre/BE caucionam, é o prego no caixão de qualquer espaço de resistência à «democracia» trumpista e à política de Miami-para-o-mundo.

Que partidos e movimentos de esquerda não percebam isso é ditar a sua própria sentença de morte. Hoje eles vêm por Cuba, cujo radicalismo é ainda «a» excepção, em todos os aspectos (mesmo naqueles com os quais não concordamos, e que cabem apenas aos cubanos decidir). Amanhã, Cuba tomada pela «democracia» de Trump, virão por toda a social-democracia – eles/vocês, agora já sem qualquer capacidade de resistência, de honra, até. E será demasiado tarde. Porque uma espinha dorsal tão dobrada sob a bota de Miami muito dificilmente se levantará.

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