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Chile: conspiração dos EUA começou antes das eleições ganhas pela esquerda

Em 11 de Setembro de 1973 deu-se o golpe fascista, mas arquivos finalmente acessíveis mostram que a conspiração norte-americana estava no terreno ainda antes da vitória eleitoral da Unidade Popular.

Homenagem a Salvador Allende por parte do Partido Comunista do Chile, em Santiago do Chile, a 4 de Setembro de 2020, por ocasião da passagem do 50.º aniversário da vitória da coligação Unidade Popular, a qual, pela primeira vez, fez eleger um socialista como presidente do Chile
Homenagem a Salvador Allende por parte do Partido Comunista do Chile, em Santiago do Chile, a 4 de Setembro de 2020, por ocasião da passagem do 50.º aniversário da vitória da coligação Unidade Popular, a qual, pela primeira vez, fez eleger um socialista como presidente do Chile Créditos / Twitter/Partido Comunista do Chile

Um conjunto de documentos diplomáticos desclassificados pelo Arquivo de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América (EUA) revelam que a conspiração deste país no Chile, que desembocou no golpe de estado fascista de 11 de Setembro de 1973, estava em curso antes mesmo da vitória de Salvador Allende nas eleições presidenciais de 1970.

Os documentos em causa tinham sido oficialmente desclassificados nos anos 90 mas, como agora se percebe pela publicação de novas versões mais completas, tinham sido censurados na altura para esconder a perturbação em que caiu a administração norte-americana de Richard Nixon com a vitória do candidato da coligação de esquerda Unidade Popular, que viu como pondo em causa o seu poderio na América Latina.

O socialista Salvador Allende foi eleito Presidente da República de Chile a 4 de Setembro de 1970, à frente de uma coligação que reuniu o Partido Socialista do Chile (PS), o Partido Comunista do Chile (PCCh), o Partido Radical (PR), o Partido Social Democrata (PSD), o Movimento de Acção Popular Unitária (MAPU) e a Acção Popular Independente (API).

O socialista Salvador Allende foi eleito Presidente da República de Chile a 4 de Setembro de 1970, à frente de uma coligação que reuniu o Partido Socialista do Chile (PS), o Partido Comunista do Chile (PCCh), o Partido Radical (PR), o Partido Social Democrata (PSD), o Movimento de Acção Popular Unitária (MAPU) e a Acção Popular Independente (API).

«O Chile votou com calma para ter um estado marxista-leninista, a primeira nação do mundo a tomar esta decisão livre e conscientemente», assinala um dos documentos agora desclassificados. Noutro, o embaixador dos EUA no Chile, Edward Korry, telegrafa para Washington: «Sofremos uma grave derrota. As consequências serão nacionais e internacionais, as repercussões terão um impacto imediato em algumas terras [países] e um efeito retardado em outras».

Segundo o jornalista Stephen Kinzer, que no seu livro Overthrow: America’s Century of Regime Change from Hawaii to Iraq (2013) escreveu sobre a sistemática intervenção dos EUA noutros países, o embaixador Korry será lembrado por uma outra frase que se torna sinistramente moderna, à luz do comportamento da actual administração norte-americana: «Uma vez que Allende chegue ao poder, faremos tudo o que está ao nosso alcance para condenar o Chile e todos os chilenos à mais extrema privação e pobreza».

Sem surpresa

Em declarações prestadas à correspondente da agência turca Anadolu em Santiago de Chile, a neta de Salvador Allende, Maya Fernández, não se mostrou surpreendida pelas revelações conhecidas cinco décadas depois, que confirmam a permanente ingerência dos EUA para conter o alastramento das ideias socialistas no continente americano.

Para Maya Fernández, socialista como o seu avô e deputada pelo PS, «tínhamos consciência da intervenção dos Estados Unidos, que desde o início tentou bloquear a eleição de Salvador Allende e o governo da Unidade Popular. Isso já era sabido». No entanto, reconheceu, a novidade destes documentos é a exposição das tentativas da administração Nixon para evitar que o avô chegasse ao poder: «como boicotaram a eleição de Salvador Allende; fala-se de subornos, inclusive a parlamentares, para que Allende não pudesse assumir a Presidência da República».

Tudo a ser feito discretamente: um dos documentos agora desclassificados corresponde a uma chamada telefónica de 12 de Setembro de 1970 (uma semana depois da eleição de Allende) entre Henry Kissinger e William Rogers, à altura, respectivamente, conselheiro de Segurança Nacional e secretário de Estado dos EUA, em que o primeiro se preocupa com a possibilidade de os Estados Unidos serem apanhados a intervir no resultado das eleições chilenas: «a opinião do presidente (Nixon) é fazer todo o possível para evitar a tomada de poder por Allende, mas através de fontes chilenas [sic] e com uma postura low-profile».

A diplomacia norte-americana utilizou em seu proveito a direita chilena sem ter quaisquer ilusões quanto à sua qualidade: no dia da vitória eleitoral da Unidade Popular o embaixador Korry, em telegrama para Washington, confessa a sua desconfiança para com «uma direita que, cega e sofregamente, se agarra aos seus interesses» com «uma miopia de estupidez arrogante».

Três anos e muitos milhões de dólares depois, os EUA conseguiriam o objectivo que se tinham proposto e esmagaram o anseio dos trabalhadores e da maioria do povo chileno em prosseguirem um caminho em direcção ao socialismo – como exprimiram nas eleições autárquicas de 1971 e nas eleições parlamentares de 1973, em que os partidos da Unidade Popular foram sempre crescendo os seus votos, apesar da sabotagem económica a que o Chile foi submetido.

Passam esta sexta-feira, dia 11 de Setembro, 47 anos do golpe fascista dos militares encabeçados pelo traidor Augusto Pinochet. Sobre os chilenos caiu um regime de terror desenfreado que provocou um retrocesso político e social cujos efeitos permanecem até aos dias de hoje.

Salvador Allende não se rendeu nem aceitou o exílio que os golpistas lhe ofereciam. Morreu no palácio presidencial de La Moneda, fiel ao voto popular que o elegera. O seu exemplo, tal como a vitória da Unidade Popular e o entusiasmo por ela gerado, persiste na memória dos chilenos e expressa-se na corajosa luta que, desde Outubro de 2019, travam contra o governo Piñera.

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