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A transgressão das teias do medo e da volúpia nas infinitas asas da liberdade

«A Procura da Liberdade» no MAEDS em Setúbal, «Transversalidades» na Casa Municipal da Cultura de Seia, exposições na Galeria Municipal do Porto e «Deturpado» de Joana Margarida Calha em Évora.

António Perez, <em>O mar move-nos</em>. Exposição «Transversalidades – Fotografia Sem Fronteiras 2020», Casa Municipal da Cultura de Seia, até 25 de fevereiro 2022
António Perez, O mar move-nos. Exposição «Transversalidades – Fotografia Sem Fronteiras 2020», Casa Municipal da Cultura de Seia, até 25 de fevereiro 2022Créditos / António Pérez

No Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS)1 decorre a exposição «Bocage e Eu. A Procura da Liberdade», até 12 de fevereiro de 2022. Esta exposição coletiva de artes visuais, onde participam os artistas Ana Férias, Ana Lima Netto, Catarina Castel Branco, Cristina Troufa, Eduardo Carqueijeiro, Irene Buarque, Jaime Silva, Nuno Lemos, Pedro Almeida e Rosa Nunes, parte de um convite realizado aos artistas para «pensar Bocage na contemporaneidade e nas dimensões que a sua sensibilidade escolhesse», confidencia Joaquina Soares, diretora do MAEDS, no texto do catálogo com o titulo Alteridade.

Quanto às obras apresentadas podemos encontrar «trabalhos figurativos, dinâmicos ou contemplativos, trabalhos do olhar pousados na distância libertadora do mar, para onde o poeta também viajou, para o espaço cósmico, onde habitam Lucrécio e outros poetas ancestrais da nossa e dele herança greco-latina, ou para o vazio mais abstrato, onde se desenha em perfeito geometrismo o ato revolucionário de recusa do status quo. Quebrada a superfície das aparências, emerge uma personagem agitada pelo inconformismo, animada por uma coragem que chega aos limites do heroísmo e desafia a dor e a morte precocemente chegada, nos seus quarenta anos», refere também a diretora do museu. Acrescentando ainda que «a cerca de dois séculos e meio de distância, o grito bocageano atravessa, na sua pureza seminal, a espessura do tempo, convocando-nos para a grande festa da transgressão das teias do medo e da volúpia nas infinitas asas da liberdade».

Jaime Silva, Elmano, tinta acrílica sobre tela, 120x100cm, 2021. Exposição coletiva «Bocage e Eu. A Procura da Liberdade», Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, até 12 fevereiro 2022 CréditosFrancisco Palma /

Referimos que a presente exposição se realiza no âmbito do programa cultural «Bocage, Poeta da Liberdade. A Construção da Memória nos 150 anos do Monumento a Bocage» e é organizada pela Câmara Municipal de Setúbal e já divulgado pelo AbrilAbril. Podemos ainda consultar as fotografias da inauguração da Exposição.

O Centro de Estudos Ibéricos, que «se assume como plataforma de saber estratégica no diálogo entre diferentes espaços ibéricos», está sediado na Guarda e organiza desde 2011, o projeto «Transversalidades - Fotografia sem fronteiras» com o objetivo de, através da imagem, sublinhar o valor estético, documental e pedagógico da fotografia e promover a cooperação entre pessoas e instituições, bem como a inclusão de territórios, sobretudo os mais excluídos ou com menor visibilidade.

A Casa Municipal da Cultura de Seia2 acolhe neste momento a exposição «Transversalidades – Fotografia Sem Fronteiras 2020», que pode ser visitada até 25 de fevereiro de 2022. A nona edição do Concurso Transversalidades reuniu os portfólios vencedores de uma seleção de fotografias num universo de 1000 concorrentes, provenientes de 78 países, organizada em torno de quatro núcleos temáticos: Património natural, paisagens e biodiversidade; Espaços rurais, agricultura e povoamento; Cidade e processos de urbanização; Cultura e sociedade: diversidade cultural e inclusão social. O texto da organização refere ainda que esta exposição permite «uzma viagem por amplas e diversas geografias e permite ler e interpretar as paisagens naturais, económicas, sociais e culturais representativas de distintos contextos dos cinco continentes».

De entre os trabalhos expostos foi ​selecionado o grande vencedor com o portfólio intitulado «O mar move-nos», do fotógrafo espanhol António Pérez, um conjunto de fotografias recolhidas no Gana, do qual divulgamos a imagem. Foram ainda premiados mais três artistas, Alireza Memariani (Irão), Luís Ramos (Portugal), Diego Herrera Carcedo (Espanha) nos temas do concurso, sendo ainda entregues diversas menções honrosas. Poderão ser consultadas as imagens expostas e as que foram premiadas, assim como os catálogos anteriores aqui.

Exposição «Erro 417: Expectativa Falhada», Galeria Municipal do Porto, até 13 de fevereiro 2022 Créditos / Dinis Santos

«Erro 417: Expectativa Falhada», é uma das exposições que ocupa neste momento a Galeria Municipal do Porto3, podendo ser visitada até 13 de fevereiro. Nesta exposição participam os artistas Alice dos Reis, Aliza Shvarts, Ana Hipólito, Carlota Bóia Neto, Catarina Real, Daniela Ângelo, Elisa Azevedo, Gisela Casimiro, Hilda de Paulo, Jota Mombaça, Odete e Xavier Paes com a curadoria de Marta Espiridião.

As noções de falhanço e sucesso são o tema central desta exposição, as quais, potenciadas pelo sistema económico capitalista, interferem em todos os outros sistemas sociais e culturais e «nunca estão livres de prerrogativas, uma vez que se encontram intrinsecamente ligadas a diversas condicionantes estruturais cumulativas – a cor da pele, o género, a sexualidade, entre outras – e, acima de tudo, ao cumprimento dos expectáveis papéis dentro destas categorias», como refere a curadora da exposição. Acrescentando ainda que «neste contexto, o receio de errar ou ficar aquém das expectativas torna-se não só um dos maiores impulsos humanos como também o valor de juízo pelo qual nos avaliamos coletivamente, assim servindo como medida para a formulação e manutenção de hierarquias sociais».

«Erro 417: Expectativa Falhada» resulta do projeto concursal Expo’98 no Porto, que atribui duas bolsas para a realização de duas exposições na Galeria Municipal do Porto.

Na Galeria Municipal do Porto podemos ainda visitar na mesma data a exposição «A Hora Antes Do Pôr Do Sol…» da artista Milena Bonilla, com curadoria de Juan Luis Toboso, que partindo da correspondência de Rosa Luxemburgo com seu amigo Hans Diefenbach, numa carta enviada da prisão de Wronke, no verão de 1917, «convida-nos a pensar nas possibilidades de construção de um imaginário que navega pela literatura, botânica, pontuais referências históricas e mitologias coletivas».

Exposição de Fotografia «Deturpado» de Joana Margarida Calhau vai estar exposta na Igreja de São Vicente em Évora entre 12 de janeiro a 13 de fevereiro de 2022 CréditosFrancisco Palma /

A exposição «Deturpado» de Joana Margarida Calhau4 vai estar exposta na Igreja de São Vicente5 em Évora entre 12 de janeiro a 13 de fevereiro de 2022. «Nesta exposição é desenvolvida uma relação entre a Fotografia, a Performance e o Vídeo…», esclarece o texto da exposição. A foto performance, que publicamos, revela «pequenos pormenores do quotidiano como lavar os dentes, tomar banho, cortar o cabelo, entre outros».

A cada performance é atribuída uma palavra-tema diferente: Apático, Decadente, Deformado, Enfermo, Etílico, Infausto, Insípido, Metamórfico, Mórbido e Psicótico. «Estas palavras são usadas como adjetivos, não para caracterizar a pessoa em específico, mas sim a ação realizada na fotografia/vídeo. Estas palavras caracterizam o dia-a-dia e uma realidade exagerada, que na verdade se torna muito comum a pessoas que sofrem, por exemplo, com ansiedade e depressão, acabando por influenciar outros problemas, tanto de saúde como psicológicos».

Além de podermos usufruir da bela arquitetura gótica e maneirista da igreja do século XVI, somos confrontados à entrada com um enorme écran de projeção, que cobre o altar da igreja, onde podemos assistir ao vídeo que nos apresenta os dez atos performativos das diferentes palavras-temas e que são depois desenvolvidos nas fotografias que ocupam o espaço expositivo. Este projeto fotográfico e performático começou a ser desenvolvido em 2017, com o conjunto «Metamórfico», como forma experimental da técnica stop motion, tendo sido já apresentado no Festival Guimarães «Noc Noc» e Festival «Artes À Rua» em Évora.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

  • 1. MAEDS - Avenida Luísa Todi, nº 162, 2900-451 Setúbal. Horário: das 9h às 12.30h e das 14h às 17.30h, de terça a sábado.
  • 2. Casa Municipal da Cultura de Seia - Av. Luís Vaz de Camões 484, Seia. Horário: de segunda a sexta-feira das 10h às 18 horas.
  • 3. Galeria Municipal do Porto - Rua D. Manuel II (Jardins do Palácio de Cristal) 4050-346 Porto. Horário: terça a domingo, das 10h às 18h.
  • 4. Joana Margarida Calhau, natural de Évora, Portugal. Licenciada em Teatro, pela Universidade de Évora, e Mestre em Estudos Artísticos, pela Universidade de Coimbra. O seu trabalho tenta responder a necessidades pessoais de experimentar, conhecer novos métodos e formas de se envolver com a arte de modo transdisciplinar/multidisciplinar nos diversos ramos artísticos: Artes Plásticas, Teatro/Performance, Escrita e Fotografia. Tem como principal foco de trabalho a Performance, a Fotografia e o Trabalho Educativo/com a Comunidade. Trabalha atualmente como professora de Expressões Artísticas no Ensino Básico e como fotógrafa e performer/atriz freelancer. Expõe desde 2019.
  • 5. Igreja de São Vicente, Alcárcova de Baixo 59, 7000-645 Évora. Horário: das 9h às 13h e das 14h às 17h, de terça-feira a domingo.

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