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Os mecanismos de representação e a problemática ambiental

Exposições «Amanhã de Manhã», com fotografias de Mauro Restiffe; «Até ao ar livre», pintura de Mariana Teixeira; coletiva «Natureza x Ser Humano» e «A Relevância do Subúrbio», com obras de Manuel Caeiro.

Exposição «Amanhã de Manhã», de Mauro Restiffe, na Galeria A Zé Dos Bois, em Lisboa, até 31 de julho 
Exposição «Amanhã de Manhã», de Mauro Restiffe, na Galeria A Zé Dos Bois, em Lisboa, até 31 de julho Créditos / Mauro Restiffe

A Zé Dos Bois1 tem atualmente no seu espaço a exposição de fotografia «Amanhã de Manhã», de Mauro Restiffe2, que pode ser visitada até 31 de julho.  A exposição monográfica fotográfica de Mauro Restiffe é comissariada por João Maria Gusmão e Natxo Checa e é composta por uma selecção de 80 imagens inéditas dentre as 40 mil imagens do arquivo do artista, que apresenta agora a sua primeira grande exposição em Portugal. «Encenando uma série de elucubrações acerca da especificidade dos mecanismos de representação e captação fotográfica, a mostra pretende ser, de forma crua e analítica, uma interpretação do poscénio da obra do artista. Um mergulho num poço de imagens dentro de imagens, sequências cinematográficas, espelhos e reflexos, pintura a óleo e reproduções d'arte – modelo câmara acção suspensão. A fotografia de Mauro Restiffe conjura a realidade ao sublime da irrealidade da imagem, liga a consciência da memória ao seu tempo futuro, opera a sutura do fantasma da imagem ao espectro das vidas comuns, ao banal, ao vulgar e partilhado, pertencendo a todos e a ninguém ao mesmo tempo», referem os curadores.

«[…] As fotografias de objetos artísticos parecem dispor-se como um ato duplo, por um lado uma continuação do quotidiano do artista, vivido através de imagens diarísticas, por outro uma consciência irónica do que seria esperado numa exposição, como se o artista estivesse ciente da nossa experiência, presença enquanto visitantes, agentes isolados da ação das obras e, consciente disso, quer agora alcançar o inalcançável, a interação através da afasia do objeto físico (como diria Variações, "quer estar onde não está"), quebrar a inultrapassável inércia das imagens, como o trompe l’oeil que nos convence, falsamente, da sua tridimensionalidade. […] A curadoria de João Maria Gusmão e Natxo Checa não parece deixar nada ao acaso. Não só a construção narrativa da exposição se vai concretizando compassadamente, revelando-se a cada nova secção expositiva, como presta atenção ao mais ínfimo detalhe, percetível apenas a um quase habitar da exposição» propõe-nos Miguel Pinto3, num texto que percorre a exposição.

Exposição «Até ao ar livre», de Mariana Teixeira ,na Galeria n.º1, Praça do Giraldo, em Évora, até 31 de julho / DRCAlentejo

A exposição de pintura «Até ao ar livre», da artista plástica Mariana Teixeira, vai estar na Galeria n.º 14 (Praça do Giraldo), em Évora, até 31 de julho. As pinturas de acrílico sobre tela de grandes formatos de Mariana Teixeira, enquadradas numa linguagem gestualista, segundo Raquel Henriques da Silva, Professora Jubilada de História da Arte, obrigam-nos a parar e ficar a contemplá-las, «a sua energia advém do que é próprio da pintura: são cores com grande variedade de tons e de timbres que, na superfície plana da tela, inventam movimentos, sugerem formas, criam ritmos, propondo uma espécie de labirintos felizes».

Esta exposição é promovida pela Direção Regional de Cultura do Alentejo (DRCAlentejo), pela Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados de Cascais (CERCICA) e pela Câmara de Évora. Segundo os promotores, a exposição resultou de uma proposta apresentada por CERCICA à DRCAlentejo, que foi acolhida pela «qualidade dos trabalhos» e «natureza e missão da cooperativa».

Obra «Ural-4320», de Catarina Lira Pereira. Exposição coletiva «Natureza x Ser Humano» no Centro Cultural de Paredes de Coura, até 7 de agosto / Catarina Lira Pereira

O Centro Cultural de Paredes de Coura5 apresenta a exposição coletiva «Natureza x Ser Humano», com Catarina Lira Pereira, Frederico Lira e Gabriel e Gilberto Colaço, até 7 de agosto. Visando vários sentidos como a visão, o tato e a audição, este projeto consiste em apresentar um conjunto de obras, entre desenhos, sons e objetos tridimensionais, que exploram «o conceito de território natural e humano, aqui abordado como um sistema dinâmico que está em constante mutação».

Em resumo, Catarina Lira Pereira cria imagens ficcionais na procura de uma hibridação entre natural e artificial, com referências ao conflito da Ucrânia; Frederico Lira apresenta obras sonoras, alterando a sua composição original a partir de diversas operações acústicas, e Gabriel e Gilberto Colaço exploram a escultura e o desenho tridimensional representando, de um modo ficcional, em que o fenómeno natural e estruturas e mecanismos antropológicos se confrontam.

A exposição «Natureza x Ser Humano» pretende também incrementar uma «reflexão crítica sobre a problemática ambiental e corresponsabilidade no combate às alterações climáticas, na formação de cidadãos pró-ativos no exercício de cidadania plena, visando a proteção dos valores naturais», estando previstas diversas ações pedagógicas como visitas à mostra, dirigidas ao público geral, segundo o texto da exposição.

A Sociedade Martins Sarmento é uma instituição cultural sem fins lucrativos, em Guimarães, fundada em 1881 em homenagem ao arqueólogo vimaranense Francisco Martins Sarmento. A sua sede é um imponente edifício, em estilo neoclássico, projetado pelo arquiteto Marques da Silva, onde estão instalados o mais antigo museu arqueológico português e uma magnífica biblioteca pública, dotada de uma notável secção de livros acerca de Guimarães. O Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento foi fundado em 1885, e do seu acervo destacam-se materiais castrejos e romanos, fruto de escavações realizadas na região, especialmente das que tiveram lugar na Citânia de Briteiros. Desde 1888 que está instalado no claustro do antigo Convento de S. Domingos. O Museu reúne importantes coleções de arqueologia, numismática, etnografia e arte contemporânea.

Exposição «A Relevância do Subúrbio», de Manuel Caeiro, no Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, até 14 de agosto / Manuel Caeiro

No Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento6 apresenta-se neste momento a exposição de Manuel Caeiro7 «A Relevância do Subúrbio», até 14 de agosto. O trabalho de Manuel Caeiro tem como base o construtivismo e relaciona desenho, arquitetura e pintura. A representação do espaço neste artista efetua-se a partir de formas que desdobram ritmos e modulações espaciais através das repetições e sobreposições de camadas que evidenciam um carácter escultórico. A compreensão da noção de planimetria assinala uma obsessão pela ordenação do espaço e uma indagação sobre o espaço visível, mostrada através de jogos de sombras, profundidades e densidades de cor.

«Manuel Caeiro não é diferente de muitos artistas que constroem os seus discursos à maneira derridiana, como tecidos de pegadas capazes de transbordar a linearidade da escrita ou, neste caso, da arquitectura. Cada obra-texto-arquitectura remete para outra, entrecruzam-se, enxertam-se subvertendo hierarquias. Valoriza-se assim o contexto, e também o marginal. Daí que faça sentido o seu flirt com a fotografia nesse tipo de arquitectura demolida que representam uns marcos de correio que nos chamam a atenção para o trajecto que percorreremos numa exposição-loft onde tudo é pintura. Tudo obedece a uma lógica desdobrada, dessas que não rejeitam o contaminado, mas que o acolhem para culminar um interesse expansivo. A chave estará na descodificação dessas senhas de identidade pessoal, esses signos de pertença. Então entenderemos por que intui a identidade como uma questão de estratégias e não tanto de essência, e porque razão a sua casa – que é a nossa casa – não é mais do que um sonho, talvez abstracto, e que, em último caso, resulta numa memória do vivido, uma história partida. Falamos da casa como tempo experimentado, como sintonia […]», segundo David Barro.

  • 1. Galeria Zé Dos Bois – Rua da Barroca n.º 59, 1200-047 Lisboa. Horário: segunda a sábado, 18h-22h.
  • 2. Mauro Restiffe (São José do Rio Pardo, Brasil, 1970). Fotógrafo. Estuda cinema na Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado – Faap, em São Paulo, formando-se em 1993. Estuda fotografia no International Center of Photography, em Nova Iorque, entre 1994 e 1995. Representante da nova geração de fotógrafos-autores que opera na fronteira entre o universo da fotografia e o das artes plásticas, realiza trabalhos estruturados em torno de duas vertentes básicas: uma autobiográfica e a outra metalinguística.
  • 3. Em Magazine ARTECAPITAL.
  • 4. Galeria n.º 1 – Praça do Giraldo, Évora. Horário: segunda a sexta-feira, 14h-19h; sábado, 10h-13h.
  • 5. Centro Cultural de Paredes de Coura – Avenida Cónego Bernardo Chousal. Horário: quarta a domingo, 14h-18h.
  • 6. Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento – Rua Paio Galvão 4814-509 Guimarães. Horário: terça a domingo, 10h-12h30 e 14h30h-17h30.
  • 7. Manuel Caeiro (Évora, 1975), formado na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Das suas exposições individuais, destacam-se as realizadas no Palácio Vila Flor, Guimarães, e na galeria Carlos Carvalho («Backstage of Light», 2013; «Welcome to my Loft», 2007). Em relação às suas exposições colectivas, poderemos referir «A Casa Ocupada» (Casa da Cerca, 2014), «La Colección» (Fundación Barrié, A Corunha, 2010; 2011), «Terceira Metade», com curadoria de Marta Mestre e Luiz Camillo Osório (MAM, Rio de Janeiro, 2011), «Fiat Lux – Iluminación y Creación», com curadoria de Paulo Reis (MACUF, A Corunha, 2010), «Parangolé: Frag. desde los 90 en Brasil, Portugal y España» (Patio Herreriano, Valhadolide, 2008) e «Surrounding Matta-Clark», 2006; «Building Rooms» (Carlos Carvalho, 2008). Está representado nas colecções da Culturgest, Fundação PLMJ, colecção Manuel de Brito, entre outras.

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