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Olha o sol que vai nascendo

Saíamos alegres pela rua, pela manhã, por essa magia única, esse momento de fascínio da partilha do espaço público e da vida em conjunto – o único motivo que temos para pensar no futuro.

Lisboa, à beira-Tejo 
Lisboa, à beira-Tejo CréditosRui Mendes / Facebook

Nas manhãs de um verão que seguia imparável, na alegria deslumbrada da adolescência, precipitávamo-nos para a rua, ao encontro uns dos outros, na hora marcada (uns mais do que outros). Mochilas às costas e a carteira bem à mão: sacar o bilhete do 61 e verificar se o dinheirinho não desaparecera. Não é muito, mas dá para o ingresso e talvez para o lanche, depende do sítio. «Ao almoço é sandes», dizia sempre um quando outro se começava a esticar na megalomania, mimetizando essa voz parental assertiva que a certa altura todos ouvimos, achando que o fascínio do verão também era reduzir o volume da alimentação. Há uma idade em que ainda não conseguimos perceber bem as diferenças que nos dividem, para lá dessa ilusão da música que ouvimos juntos, dos filmes que vemos juntos, da bola que quando rola é para todos ou da escola (que é nossa).

Cedo coletivizamos o verão. Enchemos os autocarros, corremos pelas ruas rindo e falando uns por cima dos outros, até se ouvir a nossa voz do outro lado do mundo. A nossa juventude apropria-se do espaço público, as feromonas invadem as narinas cínicas dos que deixaram de «se espantar de existir» e cedo, também, percebemos que não há uma juventude, que são várias, que o espaço público se disputa e que muitas vezes somos definidos pelos nossos territórios. Era por isso que saíamos a correr de manhã bem cedo: para chegar a esse destino onde todos queriam chegar primeiro.

No dia em que combinamos a ida à piscina lembramo-nos das sombras dos ciprestes, dos plátanos, dos pinheiros ou dos eucaliptos que servem a fantasia de uma entrada num lugar distante da rotina. Depois, então, pensamos naquele azul fresco e artificial que contrasta com a pedra ardente e os corpos bronzeados, pensamos nos outros como nós, de outras escolas e outros territórios, no platonismo de um amor perfeito e efémero ou simplesmente no direito ao ócio. Só depois nos lembramos do preço. Isso é muito caro, mas é o dia todo, mas é longe, mas somos roubados, mas aí é só betos, para essa temos de apanhar dois autocarros, epá, mas essa é nojenta. Claro que há um lugar ideal, mas sabemos que não dá para todos. Sim, é muito caro e é caro não só porque desestabilizamos o verão dos clientes da Estalagem Via Norte, mas sobretudo para afastar aqueles que não são dignos de ali estar.

«Cedo coletivizamos o verão. Enchemos os autocarros, corremos pelas ruas rindo e falando uns por cima dos outros, até se ouvir a nossa voz do outro lado do mundo. A nossa juventude apropria-se do espaço público, as feromonas invadem as narinas cínicas dos que deixaram de «se espantar de existir» e cedo, também, percebemos que não há uma juventude, que são várias, que o espaço público se disputa e que muitas vezes somos definidos pelos nossos territórios»

É claro que as outras, as mais baratas, estão mais sujas, têm mais gente. É por isso que quando, ainda hoje, ouvimos falar em piscina pública, aberta, é dos proscritos que nos lembramos, daqueles que parecem não seguir o mesmo código de regras que a classe dominante exige para permitir o acesso. E então repetimos o discurso que fomos ouvindo e que justificou o encerramento definitivo do equipamento público: não havia condições, vinha malta dos bairros para aqui, era música alta, era roubos, era as casas de banho num estado lastimável. A malta dos bairros é o motivo oficioso, que conquista os corações das populações, para nos dizer que aquilo não é uma prioridade para a autarquia, que dá trabalho, que implica manutenção séria, vigilância, apoio, que implica contratar gente. Mas é muito mais fácil dizer «a malta dos bairros», estimulando o medo e a divisão, perpetuando o estigma de não se ter direito ao ócio, ao verão, à pedra ardente e à água que o cloro transforma em sonho.

A minha carteira? já foste!, deixa lá, a gente divide, fica com a minha senha que eu tenho outra, dás-me depois, dividimos a torrada, é só uma carteira. A primeira linguagem dos miúdos é a solidariedade. Não é a sua natureza que os faz observar o mundo com desconfiança, mas sim as ideias que lhes são incutidas para disfarçar que existem muitas diferenças entre nós e que, em vez de as dirimirmos ou de as destruirmos, cavamos um fosso ainda maior e dizemos a uns quantos de nós «vocês daí não podem passar» e se eles passarem preferimos acreditar que aquele conflito está na sua natureza em vez de estar na natureza da condição a que foram votados.

Ao longo das últimas três décadas, as piscinas municipais a céu aberto foram sendo encerradas – umas definitivamente, outras transformadas em piscinas fechadas e de competição, outras para obras de Santa Engrácia. Do lado de cá do muro, milhares e milhares de miúdos ficaram sem alternativa para ocupar o seu tempo de lazer refrescante com os amigos num dia de calor. As piscinas públicas, apesar de todo o ruído classista que com elas acabou, são o único espaço democrático para o verão desses miúdos, miúdos que como eu que não tinham setecentos paus para ir para a Estalagem Via Norte ou para Espinho (para mim porque havia outras prioridades e podia muito bem ir para a praia, para muitos dos meus amigos porque não tinham mesmo esses setecentos paus).

Nas periferias das grandes cidades este fenómeno faz-se sentir de uma forma muito mais agressiva. A uma política de transportes manifestamente insuficiente, junta-se a segregação social que se reflete na habitação e na sua localização. Torna-se muito mais simples identificar o inimigo da sociedade assim: a malta dos bairros. Desconheço maldade maior do que esta, do que este estigma maldoso que pretende sabotar o direito à luz do dia e que se repetirá na noite da adolescência, quando forem barrados à porta do Lux ou do Plano B.

Mas se queremos ser realistas (ou pragmáticos, para dar aquele tom de autoridade realista), o roubo é a exceção da nossa vida coletiva. Nem a virar as estatísticas todas ao contrário surgirá outro resultado. A regra na nossa vida coletiva é a amizade, por muito que a queiram destruir. Os espaços públicos são espaços de encontro e o que assusta as classes dominantes é esse encontro, a possibilidade da amizade e da convivência, a possibilidade da consciência e da solidariedade – o berço da organização.

E era por isso que saíamos alegres pela rua, pela manhã, por essa magia única, esse momento de fascínio da partilha do espaço público e da vida em conjunto – o único motivo que temos para pensar no futuro.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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