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O acervo pessoal de Herberto Helder vai incorporar as bibliotecas lisboetas

Composta por cerca de oito mil volumes, a biblioteca do poeta fará parte da Rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa, e estará disponível para consulta dos utentes.

Herberto Helder é considerado o maior poeta português da segunda metade do século XX
Herberto Helder é considerado o maior poeta português da segunda metade do século XXCréditos / Jornal Rascunho

Com o acordo da família de Herberto Helder, o seu acervo pessoal, que inclui traduções do próprio, ficará localizada na Biblioteca Palácio Galveias, numa sala que terá o nome do autor.

Herberto Helder nasceu no Funchal, em 1930, e morreu em Cascais, aos 84 anos, em Março de 2015, e a investigação literária e os seus pares têm-no considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa da segunda metade do século XX.

Frequentou a licenciatura de Direito na Universidade de Coimbra, curso que trocou por Filologia Românica, que deixou ao fim de três anos. Colaborou em periódicos como A Briosa, Renhau-nhau, Búzio, Folhas de Poesia, Graal, Cadernos do Meio-dia, Pirâmide, Távola Redonda e Jornal de Letras e Artes & Ideias

No final dos anos de 1960 foi director literário da editorial Estampa e em 1971 partiu para África onde realizou uma série de reportagens para a revista Notícias.

Recorde-se que o poeta recusou, em 1994, o Prémio Pessoa e editou o livro A Morte sem Mestre, em 2014.

Autor de uma vasta actividade literária nas décadas de 50 e 60 do século passado, desde a publicação dos primeiros poemas (1953/1954) e do seu primeiro livro, O Amor em Visita (1958), assim como de A Colher na Boca (1961), Os Passos em Volta (1963), Húmus, Retrato em Movimento (ambos de 1967), O Bebedor Nocturno (1968), e ainda a primeira recolha, Ofício Cantante 1953-1963.

Posteriormente editou livros como o Poemacto, A Cabeça Entre as Mãos, As Magias, Última Ciência, A Faca Não Corta o Fogo – Súmula & Inédita, Servidões e Poemas Canhotos.

Traduziu – ou mudou para português, como preferia dizer – poemas de autores como Antonín Artaud, Edgar Allan Poe, Herman Hesse, Henri Michaux, Malcolm Lowry, Marina Tsvetaieva, Stéphane Mallarmé, Zbigniew Herbert, assim como dos índios Caxinauás, do Amazonas, e dos povos Maias, Quíchuas e Astecas.

Organizou a antologia das «vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa», em Edoi Lélia Doura, congregando, num só volume, obras de autores como Gomes Leal, Ângelo Lima e Fernando Pessoa, António José Forte, Luiza Neto Jorge e António Gancho, sem esquecer Vitorino Nemésio, Natália Correia, Mário Cesariny, António Maria Lisboa e Ernesto Sampaio.

Em 2016, foi publicado Letra Aberta, livro de inéditos recolhidos nos cadernos do escritor. Neles, elogia a «beleza sem gramática» e o «ferocíssimo esplendor» do poema.

Em Maio do ano passado, a Porto Editora reeditou Apresentação do Rosto, um «auto-retrato romanceado» de Herberto Helder, publicado em 1968, que esteve fora das livrarias durante 52 anos. A obra foi então publicada pela Ulisseia e a edição original foi rapidamente apreendida pela PIDE, que destruiu os quase 1500 exemplares impressos.

O despacho de proibição, datado de 22 de Julho de 1968, descreve-a como «autobiografia do autor, que é de índole esquerdista, escrita em linguagem surreal e hermética, que como obra literária não mereceria qualquer reparo, se não apresentasse passagens de grande obscenidade».


Com agência Lusa

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