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Urbano Tavares Rodrigues lembrado no seu centenário

Para os que conhecem a paixão juvenil com que «escreviveu» até ao último dos seus dias, é difícil vê-lo centenário. Mas assim é: a 6 de Dezembro de 1923, há 100 anos, nascia Urbano Tavares Rodrigues.

Urbano Tavares Rodrigues em entrevista à Lusa. Lisboa, 20 de Fevereiro de 2010 
Urbano Tavares Rodrigues em entrevista à Lusa. Lisboa, 20 de Fevereiro de 2010 CréditosTiago Petinga / LUSA

No âmbito das comemorações do Centenário de Urbano Tavares Rodrigues, uma sessão evocativa da sua vida e obra decorrerá esta quarta-feira, dia 6 de Dezembro, pelas 18h, em Lisboa, no Auditório Maestro Frederico de Freitas da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), na Av. Duque de Loulé n.º 31.

Além das intervenções de Domingos Lobo, escritor, de José Jorge Letria, escritor e presidente da SPA, de Vítor Viçoso, professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) e de Paulo Raimundo, secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), a sessão contará com um momento cultural protagonizado pela actriz Maria João Luís e pelo músico Rogério Charraz.

Outras iniciativas assinalam a passagem do centenário do autor. Ainda em Lisboa, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), na Cidade Universitária, entre as 9h30 e as 19h30, estará patente, pelo seu último dia, a exposição «Sonhar a Palavra Liberdade», do fotógrafo Sérgio Jacques, que reúne fotografias de Santiago de Compostela a frases e excertos do primeiro trabalho jornalístico de Urbano Tavares Rodrigues, que em 1948 foi enviado pelo Diário de Notícias (DN) àquela cidade para cobrir o Ano Jubilar Compostelano desse ano. A exposição inclui o DN de Agosto de 1948, onde as crónicas foram publicadas, 12 processos movidos a Urbano Tavares Rodrigues pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), a polícia política do regime fascista, e algumas fotografias de positivos do espólio do Diário de Lisboa à guarda do ANTT, que «não podem ser reproduzidas para o exterior».

Em Serpa, às 10h30, na Biblioteca Municipal Abade Correia da Serra, inaugura-se a exposição «Centenário do nascimento de Urbano Tavares Rodrigues» com uma sessão dinamizada por Elsa Ligeiro (da produtora de actividades culturais Alma Azul), que dará lugar a uma «conversa aberta sobre o escritor, jornalista e antifascista», com particular incidência sobre «a sua literatura de combate e de consciencialização social».

E na Biblioteca Municipal de Moura Urbano Tavares Rodrigues, pelas 21h, será apresentado “Santiago de Compostela”, da autoria do fotógrafo Sérgio Jacques e com posfácio do escritor e linguista galego Carlos Quiroga. As fotografias de Sérgio Jacques e as palavras de Urbano Tavares Rodrigues constituíram a base do acervo da exposição que ocorreu no ANTT, em Lisboa.


Escritor e cidadão: uma vida intensa

Ficcionista, cronista, ensaísta, crítico literário, poeta, jornalista e professor universitário, Urbano Tavares Rodrigues nasceu em Lisboa, a 6 de Dezembro de 1923, cidade onde veio a falecer a 9 de Agosto de 2013, aos 89 anos.

Nascido de grandes proprietários agrícolas da região alentejana de Moura, viveu na herdade da família, o Monte da Esperança, entre os três e os onze anos. Dessa infância ficou-lhe um amor quase panteísta à terra, à paisagem alentejana, e a percepção da violenta exploração dos trabalhadores rurais, que o despertou para a luta por uma sociedade mais justa, que sempre acompanhou a sua carreira académica e literária.

Concluído o ensino primário, regressou a Lisboa para prosseguir os estudos. Concluiu o secundário no Liceu Camões e cursou Filologia Românica na FLUL. Ainda na faculdade já lhe era conhecida actividade política – com David Mourão-Ferreira e Augusto Abelaira liderou uma greve académica em 1947 – e reconhecido talento – em 1948, como se descreve acima, o DN contratou-o para fazer uma reportagem em Santiago de Compostela que viria a ser a sua primeira obra publicada, “Santiago de Compostela - Quadros e sugestões da Galiza” (1949).

Licencia-se com uma tese intitulada “Manuel Teixeira Gomes: Introdução à sua obra” (1949), a que regressaria na sua dissertação de doutoramento, “Manuel Teixeira Gomes: o discurso do desejo, realizada muitos anos mais tarde (1983), após a sua reintegração na vida académica durante a Revolução de Abril.

Em 1949 deixa o país e parte para França, onde fica até 1955 como professor de Língua, Literatura e Cultura Portuguesas em Montpellier, Aix-en-Provence e Paris (Sorbonne). Foi um período de grande felicidade pessoal, vivido com a primeira mulher, a escritora Maria Judite de Carvalho, mas também de formação criativa: convive com grandes nomes das letras francesas, como Malraux, Aragon, Duras, Sartre e Camus, virá a reconhecer, dessa altura, influências do surrealismo e sobretudo, do existencialismo. É também o período em que, em Portugal, é publicada a sua primeira obra de ficção, A Porta dos Limites (1952), que recebe uma crítica muito favorável de João Gaspar Simões.

Regressado a Portugal, retomou o jornalismo, deu aulas em estabelecimentos do ensino secundário e, em 1957, Vitorino Nemésio convida-o a leccionar Literatura Francesa e Portuguesa na FLUL, mas o seu envolvimento na campanha de Humberto Delgado, em 1958, valeu-lhe a expulsão do ensino. Só voltaria à universidade após o 25 de Abril.

Até lá, além da actividade literária, trabalharia como jornalista (Diário de Lisboa, Artes e Letras, Jornal do Comércio, O Século, entre outros), publicista na agência Latina, e tradutor. E desenvolveria uma intensa actividade política antifascista: participa na Revolta da Sé (1959) e no assalto ao Quartel de Beja (1962), faz parte das Juntas de Acção Patriótica (JAP), enfrenta por duas vezes a polícia de choque fascista (numa delas fica com um braço fracturado), é candidato pela CEUD em 1969, participa nos Congressos da Oposição Democrática em 1969 e 1973. Em 1969 adere formalmente ao PCP, no qual se manterá até à sua morte, em 2013.

O envolvimento na resistência antifascista valeu-lhe a perseguição da PIDE, livros apreendidos e três encarceramentos (em 1961, 1963 e 1968). Usou o último período de detenção para escrever "Contos de Solidão", que passou clandestinamente para o exterior.

Com o 25 de Abril desenvolve, a par de uma prolífica actividade literária, uma intensa actividade política, tendo sido candidato eleito à Assembleia Constituinte (sem tomar posse), e associativa (foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores).

A sua extensa obra foi várias vezes distinguida, tendo recebido, entre outros, o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, em 1958, para "Uma Pedra no Charco"; o Prémio da Imprensa Cultural, em 1966, para "Imitação da Felicidade"; o Prémio Aquilino Ribeiro da Academia de Ciências de Lisboa, em 1983, para "Fuga Imóvel"; o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, em 1987, para "Vaga de Calor"; o Prémio Fernando Namora, em 1992, para "Violeta e a Noite"; e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo-Branco da Associação Portuguesa de Escritores, em 2004, para "A Estação Dourada". Foram-lhe ainda outorgados o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2000, e o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, em 2002.

A sua cidadania activa foi reconhecida pelo Estado português, que o agraciou com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1994) e com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (2008).

Como foi dito numa homenagem que os seus camaradas lhe prestaram na passagem do 91.º ano do seu nascimento, Urbano Tavares Rodrigues é «autor de uma vasta obra literária que abarcou todos os domínios da escrita» e «constitui uma das referências mais intensas da literatura portuguesa dos séculos XX e XXI», deixando «um legado inestimável para futuras gerações de escritores. Possuía um conjunto de qualidades humanas que raramente observamos concentradas numa mesma pessoa, cujos valores sempre nortearam a sua vida – a liberdade, a justiça social, a paz, a solidariedade, a fraternidade –, qualidades que estiveram sempre presentes na sua obra e na sua intervenção social e política, que fizeram dele um resistente e um combatente pela liberdade e por uma sociedade mais justa».

Dele escreveu-se que «Escrevia sempre. Inevitável e avidamente. Urbano Tavares Rodrigues tinha a “ânsia” de escrever e de viver. E nele dificilmente se poderia separar a vida e a obra.» Entregou o último original à sua editora a poucas semanas de falecer, devido a um ataque cardíaco. Tinha um grande coração, disseram os amigos.

”Nenhuma Vida – romance breve” tem um prefácio escrito pelo próprio que é já uma despedida. "Daqui me vou despedindo, pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo um maravilhado adeus à água fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres. Um cravo vermelho e a bandeira do meu Partido hão-de acompanhar-me e tudo será luz".

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