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Morreu Nikias Skapinakis, pintor e resistente

Marcou seis décadas da arte portuguesa contemporânea. Desde jovem que se juntou à resistência ao fascismo, que definiu como «um tempo de negrume português». Morreu em Lisboa, aos 89 anos.

Nikias Skapinakis (1931-2020). Foto de arquivo
Nikias Skapinakis (1931-2020). Foto de arquivoCréditos / jornal O Tornado

O pintor Nikias Skapinakis, que marcou mais de seis décadas da arte portuguesa contemporânea, morreu ontem, em Lisboa, aos 89 anos, anunciou a Galeria Fernando Santos, que representa o artista.

De ascendência grega, Skapinakis nasceu em Lisboa, em 1931, frequentou o curso de Arquitectura, que abandonaria para se dedicar totalmente à pintura, que assumiu, até ao presente, como «vocação, ofício e reflexão», como escreveu a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva.

Além da pintura a óleo, como actividade dominante, dedicou-se à litografia, serigrafia e ilustração de livros.

Frequentou o curso de Arquitectura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (ESBAL), de onde viria a ser expulso três anos depois, «na sequência de um processo académico de natureza política». A expulsão, segundo biografia publicada no sítio «Antifascistas na resistência», reforçou «uma decisão que já tinha tomado»: deixar o estudo da Arquitectura, para o qual se sentia «sem vocação», e o ensino académico praticado em Lisboa, que considerava «obsoleto e conservador», tornando-se «voluntariamente, autodidacta» da pintura.

Começou por expor em 1948, na III Exposição Geral de Artes Plásticas, ao lado de figuras como Júlio Pomar e Fernando Lanhas. «A obra de Nikias», afirma Ana Maria Candeias, «apresenta-se logo na sua matriz de independência, quer no tratamento das formas humanas ou das paisagens».

Desde então, realizou exposições individuais e participou em diversas colectivas, em Portugal e no estrangeiro.

Em anos mais recentes destacam-se a série de pinturas «Quartos Imaginários» (2006), e «Paisagens Ocultas – Apologia da Pintura Pura» (2017), ambas na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa; a série de guaches «Lago de Cobre» e a série de desenhos «Estudos de Intenção Transcendente», ambas de 2014, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

O pintor trabalhou até ao fim: no passado mês de Julho expôs um conjunto de obras inéditas na Galeria Fernando Santos, no Porto. Na ocasião foi lançado o livro Nikias Skapinakis - paisagens [landscapes] (2018-2020), de Bernardo Pinto de Almeida.

«Os críticos» (1971), de Nikias Skapinakis (1931-2020), está exposto no café A Brasileira, ao Chiado, em Lisboa Créditos

O reconhecimento e interesse crítico pela sua obra, nas suas diversas fases, levou a que, desde os anos 80, fosse apresentado em sucessivas exposições antológicas, entre as quais: uma exposição antológica da sua pintura, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) completada com uma retrospectiva da obra gráfica e guaches na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), ambas em 1985; uma antologia de desenhos de 1985 a 1993, no Palácio Galveias, em Lisboa (1993); a exposição «Para o Estudo da Melancolia em Portugal. Retrospectiva de Retratos, 1955-1974», no Museu do Chiado, em Lisboa (1996); a exposição «Prospectiva 1966-2000», no Museu de Arte Moderna da Fundação de Serralves, no Porto (2000); a exposição «Desenho a Preto e Branco e a Cores», no Centro Cultural de Cascais (2009); a exposição antológica «Presente e Passado, 2012-1950», organizada em seis núcleos que mostram a diversidade da sua obra, comissariada por Raquel Henriques da Silva, no Museu Colecção Berardo, em Lisboa (2012); e a exposição «Nikias Skapinakis – Antologia de Guaches 1950-2018», na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa (2018), que originou uma edição em livro, Antologia de Guaches 1950-2018, com apresentação de João Pinharanda.

O pintor tem obra espalhada em espaços públicos: o quadro Os Críticos (1971), representando a nova vaga de críticos de arte que ia despontando no panorama nacional, foi escolhido para, nesse mesmo ano, substituir, no café A Brasileira, ao Chiado, o icónico Auto-retrato com grupo da Brasileira, de José de Almada-Negreiros, que nesse espaço se mantinha desde 1925.

Num outro espaço de tertúlia artística da Baixa lisboeta, o restaurante Gambrinus, tem exposto o quadro Geometria Variável. Em 2005 concebeu, para a estação de Arroios do Metropolitano de Lisboa, o painel Cortina Mirabolante, que se junta aos originais de Maria Keil no mesmo espaço.

Recebeu várias bolsas e prémios, entre os quais: a Bolsa Malhoa da SNBA (1963); um subsídio para investigação da FCG (1976); o prémio AICA/SEC, instituído pela Associação Internacional de Críticos de Arte e a Secretaria de Estado da Cultura (1990); o Grande Prémio Amadeo de Souza Cardoso, instituído pela Câmara Municipal de Amarante (2005); o primeiro prémio do Casino da Póvoa de Varzim (2006); e o Prémio de Artes Plásticas (2013), atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores, pela exposição realizada no ano anterior no Museu Berardo (ver acima).

«Delacroix no 25 de Abril em Atenas» (1975), de Nikias Skapinakis (1931-2020) Créditos

Um cidadão e artista interveniente

Antifascista desde a juventude, Nikias Skapinakis militou no MUD Juvenil e na organização que lhe sucedeu após a ilegalização deste pela ditadura, em 1957. Em 1958, fazendo parte da comissão distrital de Lisboa da oposição democrática, fez parte da da comissão de candidatura de Arlindo Vicente e, após a desistência deste, a favor da candidatura de Humberto Delgado, apoiou a candidatura do «general sem medo».

Foi candidato da Oposição Democrática nas eleições para a Assembleia Nacional em 1957 e em 1961. Nesse ano, em representação da Seara Nova, participou na elaboração do «Programa para a Democratização da República», elaborado sob a inspiração de Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes.

Pela sua actividade política esteve preso em 1962, na cadeia do Aljube. O seu nome foi incluído no painel do Metropolitano de Lisboa que refere os presos políticos durante o salazarismo, inaugurado em 2019.

Como afirmou em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, «a minha actividade política, legal e subversiva, na época, emprestava-me uma motivação que influenciou a minha capacidade de resistência ao ambiente que defrontava. De resto, não creio que de outra maneira pudesse ter pintado os retratos colectivos dos "Caminhos da Liberdade" e da "Melancolia em Portugal”».

E, referindo-se ao documentário realizado por Jorge Silva Melo para a televisão sobre a sua obra – Nikias Skapinakis. O Teatro dos Outros (2007) – lembra que ele «documenta com fotografias, quadros, filmes, de diversos autores meus contemporâneos, esse tempo do negrume português», um tempo em que «a cidade era triste, os entretenimentos parcos e vigiados», tempo de «uma apagada tristeza».

Após o 25 de Abril integrou o Movimento Democrático dos Artistas Plásticos e participou em acções deste movimento, durante o período revolucionário.

Foi um dos 48 artistas que participaram na execução do painel comemorativo do 10 de Junho de 1974, com o qual os artistas plásticos saudaram a acção revolucionária do Movimento das Forças Armadas e expressaram a aspiração popular de prosseguimento da revolução, em direcção a uma sociedade democrática e socialista.

«Inactualidade da arte moderna», de Nikias Skapinakis (1931-2020), Seara Nova, 1958 Créditos

O painel, uma das maiores pinturas colectivas realizadas em Portugal, foi realizado na Galeria de Arte Moderna de Belém, no Mercado da Primavera (ou Mercado do Povo, como era popularmente conhecido), na presença de centenas de assistentes e a meio de intervenções teatrais, musicais e declamativas. O marcante evento foi registado pela RTP e num documentário de Manuel Costa e Silva para o Instituto de Tecnologia Educativa, disponível no Vimeo.

Em 2009, realizou, para as Comemorações do Centenário da República, a pintura Paisagem – Bandeira Portuguesa, alusiva à Bandeira Nacional.

Nikias Skapinakis publicou textos de intervenção crítica em diversos jornais e revistas, entre as quais a Seara Nova e a Arquitectura, bem como em livro.

Em 1958 defendeu o figurativo na pintura, em Inactualidade da arte moderna (Seara Nova; Lisboa), tema a que voltou em 2010, num texto em que, segundo a tese de doutoramento de Ana Catarina Rosendo de Sousa, Escritos de artista em Portugal: história de um esquecimento, «cruza a evocação memorialista do seu próprio percurso de pintor com o questionar da “inactualidade ou perenidade” do ofício da pintura», em Pintura: Inactualidade ou perenidade. Episódios do trabalho de um pintor, (Artistas Unidos/Instituto de História da Arte FCSH-UNL; Lisboa)

Em 2006, no dia de Portugal, foi-lhe atribuída a Ordem de Santiago de Espada (Grande Oficial).

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