|literatura

A orientação é beber café

O corpo desmanchou-se como se boneco de engonços fosse e ali morresse de alívio, porque ao fim do terceiro dia por fim, deus, arrependido do uso dado pela PIDE à primeira criação, tivesse desfeito a luz.

«Interrogatório», em <em>Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar</em>, de João Abel Manta, edição O Jornal (1978)
«Interrogatório», em Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar, de João Abel Manta, edição O Jornal (1978)CréditosJoão Abel Manta

Já uma estrela se levanta: a gota primeira, que no chão desenhou uma circunferência e, reflectindo o embalo da lâmpada, cintilou solitária no cimento. “Isso um comunista já sabe”, pensou, “agora é boca fechada”. Uma silhueta que ali não estava cruzou a gota no chão. Ela tinha ficado deitada na areia — não sabia porque se lembrava desse Verão agora — e ele nadou para longe, para além da rebentação, para além de perder o pé, para além da Eduarda ser só um pontinho na praia levantado, a tentar

— Ó chefe, este gajo é mudo. É melhor soltá-lo já com um pedido de desculpas.

— Outro? Veja lá primeiro se não é só mouco. Repare que ele nem olha para nós! Se calhar o homem nem sonha que estão três senhores aqui a falar com ele, interessados nele, preocupados com

Recitou mentalmente, prodígios de memorização a que a clandestinidade obriga, o Se Fores Preso Camarada, as regras dos comunistas detidos: “«a polícia tudo faz para reduzir os presos a farrapos humanos e a delatores». Por muito pior passaram camaradas meus e não racharam. O Jorge, pá, o estado em que ele dali saiu... e não falou. E eu? Venho com o quê? Como é que a gente cantava? Padroeira dos mineiros, vê lá, vê lá como venho eu. Duas bofetadas e duas noites sem dormir. O Jorge, pá, que durante o interrogatório recitava poesia para dentro. Tira o chapéu milionário, vai o enterro a passar. Os gajos a fazerem-lhe perguntas e ele mudo, a tentar recitar o Ary na cabeça, e os PIDES a olhar para ele como quem diz «onde é que este gajo está?». Está bem que eu não sei Ary, mas sei as nossas canções… Foi a filha de um operário que morreu a trabalhar. Ou seja, não mostrar medo.”

Nesse instante, uma enorme pancada atingiu-o no ouvido e o corpo desmanchou-se como se boneco de engonços fosse e ali morresse de alívio, porque ao fim do terceiro dia por fim, deus, arrependido do uso dado pela PIDE à primeira criação, tivesse desfeito a luz. Quase adormecia, não fossem as algemas a mantê-lo sentado enquanto um silvo grave como o rumorejo do mar no búzio desligava generosamente todos os sons: uma estranha sensação de paz, sair dali e estar sozinho a ouvir o mar e a sentir a água quente a acariciar-lhe o ouvido e a descer pelas maçãs do rosto. Quando a escuridão começou a desvanecer-se e a visão começou a voltar, percebeu que afinal deus não se tinha arrependido de nada, mas tinha crescido a circunferência no chão. Era uma estrela que já se levantava.

Apercebeu-se que nesse espelho negro, para além da sua imagem e da dos seus torturadores, moviam-se outros reflexos difusos, nebulosos, inexplicáveis. Levantaram-lhe a cabeça pelos cabelos: era o inspector-adjunto, o Esser, já nesta altura lhe sabia o nome. A vertigem do movimento deixou-o tão confuso que pareceu-lhe ouvir o grito preocupado da Eduarda, “Volta para trás!”, a chamá-lo da praia. Sorriu. Lá atrás, o Saraiva ria-se muito ufano, e cortava o ar com o varapau, reencenando o golpe para o dactilógrafo, que ainda sem nada para dactilografar, assistia em silêncio.

— Pronto, pronto — rouquejou o Esser — Não leve a mal: o Tavares descontrola-se com estas coisas, tem sangue quente. Consegue ouvir-me?

Recordou-se de que estava na António Maria Cardoso quando, atrás de si, ouviu o outro a entusiasmar-se com uma nova actuação:

— Viste, Saraiva? Parecia uma pinha!

— Então vamos lá ter uma conversa de homem para homem. Isto aqui é assim: toda a gente fala, amigo. Uns, passadas duas horas; outros, passado um dia; também há uns que só falam passados 30, mas esses já vão tarde. Você vai com três dias. Por fraco já não passa e no meio é que está a virtude, costuma dizer-se. Por isso sugiro que atalhemos caminho: só preciso que me explique porque estava há quatro horas sentado num café. Que você é do Partido já sabemos. Sabemos tudo sobre si. A questão é

— A minha tarefa é beber café — declarou tão ríspido que se surpreendeu a si próprio e ao Saraiva mais ainda, não tanto por ser este o seu primeiro interrogatório mas porque, por desorientação do detido, calhou ser nos seus olhos que poisaram os dele a resplandecer de sangue como um tição que soprando a cinza volta a incandescer.

 “Acho que tenho o crânio partido, acho que morro aqui”, pensou, “Eduarda, desculpa, meu amor. Eu sei que… Calma… tem calma… Isto está a terminar. Vamos pensar noutra coisa…”

— Vês, Tavares? Afinal não só não é mudo como ainda tem sentido de humor! Então a sua tarefa é beber café. Está certo. Então diga-me lá com quem? Se me disser que

Mentalmente, continuou a recordar as palavras do panfleto: “«Cada membro do Partido sabe que, se falar ao ser preso, transforma-se imediatamente em auxiliar da polícia: um traidor da sua classe que como tal será julgado pelo povo». Como é que a gente cantava? Dá-me uma gotinha” 

— Olha para o senhor inspector quando ele fala contigo, caralho! — uivou agudo o Tavares, e forçou-lhe brutalmente a ponta do bastão dentro da boca. Pingaram no chão muitas gotas de sangue.

dessa que eu oiço correr”, continuou a pensar, “entre pedras e pedrinhas, alguma gota

— Ó Tavares tenha calma — sugeriu o Esser, bonacheirão, tirando da lapela o crachá esmaltado que avisava ser Internacional esta Polícia — traga-me uma cadeira — e cantarolava — Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados, sim — e sentou-se atrás dele — pela voz do som tremendo das tubas, clamor sem fim — e agarrou numa mão algemada — Lá vamos, que o sonho é lindo — e prendeu-lhe o indicador — Lá vamos, cantando e rindo — e espetou o alfinete do crachá muito fundo sob a unha.

Foi a primeira vez que gritou, um grito enlouquecido de dentes partidos e medo, que fez estremecer cada átomo e empurrou contra a parede a cadeira do dactilógrafo e até o Tavares calou. Só o Esser não parecia perturbado: continuava a revolver-lhe a carne como um mecânico que aperta porcas num corpo, aproveitando-se de sermos assim tão frágeis que basta pressionar, não mais que um milímetro, qualquer coisa mais dura que as nossas carnes macias e logo elas sangram e cedem. Mas ele não.

“Vais aguentar”, pensou, “vais aguentar. Não os deixes ver-te chorar. Vá, como é que era? Vê lá como venho eu, vê lá companheiro, vê lá, vê lá como venho, eu. Eu não quero que vejam como eu venho”

Um sorriso perverso insinuou-se nos lábios do Tavares quando reparou no dactilógrafo. Tinha as palmas da mão simetricamente poisadas na mesa de cada lado da máquina de escrever. Estava pálido.

— Tem calma, puto: isto só custa a primeira. Eles gritam sempre assim. Queres um cigarro? — O Saraiva recusou. — O Esser tem de pô-lo a cantar ainda hoje senão a coisa fica feia para o nosso lado. Está aí um gajo de Lourenço Marques que se queixou ao director-geral que as técnicas do Esser para pôr

— Obriga-me a envolver outras pessoas nisto — ameaçou o Esser — Que culpa é que a sua mulher… Eduarda não é? Que culpa é que ela tem disto? Olhe que depois o que acontecer entre ela e aqui o Tavares é na sua consciência que fica, não é na do Partido. O que dizes, Tavares?

“Eduarda, meu grande amor”, pensou, “escrevo-te agora a carta de amor possível. Memorizo-a no coração para entregar-ta em mão. E começo-a assim: peço desculpa por tudo. Pelo que já aconteceu e o que poderá ainda acontecer. A única coisa verdadeira que a PIDE me disse é que tu não tens culpa.”

— Com quem é que você ia beber café?! — berrou o Esser — Saiba que prendemos uma

“Desta vez vamos abalar daqui: para muito longe, para viver um amor de novo tipo nos anos que nos resta, porque não é só em tempo se mede a força de trabalho, mas também o amor. Se Portugal não quer o sonho porque lutámos, faremos nós com ele uma vida em que a tua liberdade seja a minha condição e em que cada um de nós um receba o amor de que precisa dando o amor de que é capaz”

— Ó Saraiva, ligue-me lá à mulher dele.

“Amor da minha vida, minha camarada, meu colectivo, minha vanguarda e retaguarda, minha companheira: não consigo escrever-te agora a carta de amor que tu mereces, mas quando voltar escrever-te-ei muitas mais, longas e bonitas, porque carta que é carta de amor nunca é carta final”

— Estou sim? Olá menina… Não está a reconhecer a voz?

“«A polícia não emprega somente a violência e o terror”», recordou, “«não se limita às torturas físicas que, por piores que sejam». Trago a camisa rubra, de sangue de um companheiro, vê lá. «A polícia explora todas as fraquezas humanas, excita os sentimentos mais vis e recorre a todas as mentiras»”.

— Diga-me lá: acha que isto tudo vale a pena? Dá cabo da sua carreira, estraga a vida à sua mulher… e para quê? Você acha mesmo que vem aí uma revolução? Desde 1928 que dizem isso! Estamos em 74. Conhece algum partido comunista que tenha feito uma revolução 53 anos depois de ter nascido? Na Rússia o partido bolchevique tinha 14 anos. Em Cuba o 26 de Julho tinha 4. O partido mais velho foi o chinês, que fez a revolução com 28 anos e até

Podem calar o meu grito enrouquecido, podem cortar o meu corpo à chicotada

— Olhe à sua volta — e com a palma da mão circundou a sala — você vê muitas revoluções a estalarem por aí? Proletários a tomarem palácios? Operários a ocuparem fábricas? — riu-se — Vocês perderam o comboio da história. Acabou. O Estado Novo venceu e você perdeu, senão não estava aqui.

Oiço ruírem os muros quebrarem as grades de ferro da nossa prisão

— Pronto, Tavares, Saraiva, cheguem lá aqui que já só temos uma hora. Vamos fazer uma sessão espírita, a ver se o espectro do comunismo nos diz alguma coisa.

Rindo-se, o Tavares puxou o braço do Saraiva, mas o dactilógrafo recuou:

— Agora não consigo. — Cada vez mais pálido, tinha a fronte empapada de cabelo e suor.

— Não consegues ou não queres? — rugiu o Tavares — Vais desobedecer a uma ordem?!

O dactilógrafo, petrificado, olhou para o Tavares e depois para o Esser, que o fitava inexpressivo. A tensão acumulou-se e estufou o ar com uma irrespirável calma tensa até que o Saraiva, agoniado, obedeceu.

Os três homens rodearam o detido e foi o Esser quem falou:

— Espectro do comunismo, comunica connosco! — E começaram os três homens a bater-lhe. Os golpes vinham de todas as direcções e acertavam-lhe na nuca, no nariz, na boca, nos olhos e na testa, onde já afloravam remendos brancos de osso. Quando pararam e, a custo, abriu os olhos pisados, a circunferência de sangue no chão era já uma estrela levantada, um gargalo negro de poço onde via o próprio reflexo e em que não se reconheceu.

“«Qualquer homem digno sabe que é preferível a morte física à morte moral. É melhor morrer como revolucionário sob os golpes da reacção do que degradar-se e descer ao papel repugnante do delator»”

E no entanto, sentiu-se quebrar. Teria falado, mas a pancada deixara-o tão confuso que já não sabia nada: nem onde estava, nem que orientação era a sua. Quando tentou falar só lhe saiu um soluço.

“E como é que venho eu?”, pensou, “não venho como Edgar André, a gritar aos carrascos «Eu não quero misericórdia! Vivi como lutador e como lutador morrerei», nem como Lepa Radic, com o nó ao pescoço a ameaçar «Os meus camaradas dar-vos-ão os seus nomes quando me vierem vingar», nem com o grito de Stjepan Filipović ao pelotão de fuzilamento «Morte ao fascismo! Liberdade para o povo!», nem com a serenidade do Che «Acalma-te e aponta bem: vais matar um homem». Vê lá como venho eu.

O Saraiva teve de sair da sala, não sem antes o Tavares lhe deitar um olhar de desprezo, e foi chorar e vomitar numa sanita. O que fez neste dia não contará a ninguém até ao dia em que morrer.

— Espectro do comunismo, qual era a tua orientação? — insistiu o Esser.

“Não importa”, pensou, “Um comunista está na vida como um morto de licença”

— A minha orientação é beber café — repetiu, mais alto, desafiante, quase morto.

O Tavares ia bater-lhe novamente, mas o Esser travou-o.

— Que cheiro… ó chefe, o gajo tá todo mijado. Porcos do caralho. Agora limpavas com a língua.

— Não podemos matá-lo — decretou o Esser — Vamos antes dar-lhe aqui uma poçãozinha.

Retirou uma seringa do estojo. Da agulha saltaram gotas de um líquido amarelado.

— Onde estou? — olhava as paredes com espanto e tentava em vão soltar-se — Eduarda?

O Saraiva tinha voltado. Notava-se que tinha lavado a cara. Sentou-se à máquina de escrever e o Tavares, divertido, segredou-lhe:

— Vais querer ver este baile. Chamam-lhe o soro da verdade: é uma merda que a CIA nos arranjou. Os gajos do Ultramar dizem que isto é placebo… querem correr com o Esser por causa disto, que os tipos alucinam e depois já não dizem coisa com coisa. Mas a verdade é que lá cantar, eles cantam

A agulha não encontrou resistência e o soro foi empurrado por veias e artérias até ao coração para logo ser bombeado até ao cérebro, mas deus continuava sem arrependimentos.

— Vamos voltar ao momento da sua detenção. Diga-me onde está e o que está a fazer.

O suspeito abriu os olhos. Respirava já só com dificuldade. Olhou para a gotinha, não de água doce nem mar salgado, que no chão se fizera grande e, como se fitasse bola de cristal, ou entranhas de coelho, ou folhas do chá na chávena, ou só uma grande, grande estrela que já se levantara do chão, respondeu:

— Já vos disse: estou a beber café — Afirmou-se-lhe a voz sólida e nítida como tronco de carvalho.

— Muito bem. Então vamos recuar quatro horas. O que é que está a fazer?

— Ainda estou a beber a café.

O dactilógrafo transido lançava contra as teclas uma violenta trovoada.

— Não brinque comigo! Você quer morrer aqui? Vá mais para atrás. Volte atrás no tempo! Ou ande com a fita para a frente tanto quanto precisar, mas diga-me o onde está e o que está a fazer!

— Estou… — perscrutava movimentos e sombras na poça de sangue — estou a fazer um jornal.

— Muito bem — Notava-se-lhe a satisfação na voz — Agora olhe à volta e diga-me onde está.

 — Não… Não… Não estou. Estou a rebentar o portão de uma prisão com um carro blindado.

— Este já não volta. Está a alucinar — comentou o Tavares.

— Estou… estou a fugir do forte de Peniche por um lençol. Estou a escrever uma carta com o meu próprio sangue. Estou numa manifestação de um milhão de pessoas nos Aliados. Estou a apregoar o Avante no Cais do Sodré. Estou sentado na relva a assistir ao comício do Partido. Estou a discursar do palanque na Assembleia. Estou num piquete de greve e numa greve da fome. Estou a comer papel bíblia e a morrer na frigideira. Estou a fazer cem anos e a nascer outra vez. Estou na Caparica, onde a polícia bateu num miúdo, e estou no Pinheiro Torres, onde a pobreza dos pais condena à nascença as crianças. Estou a morrer muitas mortes. Estou a celebrar a independência das colónias. Estou a descer a Rua do Arsenal com cravos e soldados e estou a defender uma sede do Partido cercada de fogo e estou nas mesas de voto a contar boletins com muito cuidado e estou a ser eleito delegado sindical e estou a prender-vos a todos em celas onde nunca serão torturados e estou a nadar de volta em direcção à praia. Estou a dizer-vos que isto não há-de durar para sempre. Eu estou a cumprir a minha orientação. E a minha orientação é beber café.

Tópico