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Massacre à liberdade (artística e não só)

Noutra época, a tragédia dos massacres na indonésia foi silenciada, a história deturpada, as vítimas esquecidas, com aval e colaboração do ocidente (E.U.A. sempre na linha da frente).

Detalhe do painel <em>Justiça Popular</em>, do colectivo artístico indonésio Taring Padi, apresentado à 15.ª Documenta e retirado da exposição a pretexto de um alegado antisemitismo. A obra é uma crítica dos massacres na Indonésia em 1965-66, que causaram cerca de um milhão de mortos, e do sionismo israelita, colaborador da ditadura militar indonésia. A Documenta é um dos mais reconhecidos eventos expositivos de arte contemporânea. Realiza-se em Kassel, no estado de Hesse, Alemanha. A edição de 2022 foi inaugurada a 18 de Junho e prolonga-se até 25 de Setembro.
Detalhe do painel Justiça Popular, do colectivo artístico indonésio Taring Padi, apresentado à 15.ª Documenta e retirado da exposição a pretexto de um alegado antisemitismo. A obra é uma crítica dos massacres na Indonésia em 1965-66, que causaram cerca de um milhão de mortos, e do sionismo israelita, colaborador da ditadura militar indonésia. A Documenta é um dos mais reconhecidos eventos expositivos de arte contemporânea. Realiza-se em Kassel, no estado de Hesse, Alemanha. A edição de 2022 foi inaugurada a 18 de Junho e prolonga-se até 25 de Setembro.CréditosUwe Zucchi / dpa

Nos últimos tempos, várias vezes tem sido referida a caricatura que Marx faz da História, em O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, a partir duma observação de Hegel que reza que «os grandes factos e personagens da história universal aparecem como que duas vezes», acrescenta Marx a determinação qualitativa: «uma vez como tragédia e a outra como farsa».1 A anedota quase se tornou uma verdade matemática, embora os grandes factos não tenham vindo a ser acompanhados de grandes personagens. Diria até que, nos tempos que correm, a dimensão dos acontecimentos, que chega à beira da catástrofe total e irreversível, é definida pelas acções de gente bastante medíocre. O imperialismo ficou perito em fabricar farsas que são remakes das suas próprias tragédias.

A toada da «arte pela arte» é cantoria que pouco convence, apesar das insistências conceptualistas e anacrónicas, e prova disso é o que se passou na famosa e mui nobre Documenta, em Kassel, Alemanha. Em Junho deste ano de 2022, o mundo ficou chocado quando o colectivo artístico indonésio Taring Padi apresentou um painel de 2002 (sim, de há 20 anos) intitulado People’s Justice (Justiça do Povo) que «contém imagens odiosas e estereotipadas, incluindo um porco rotulado como membro dos serviços secretos israelitas [Mossad], e uma representação de um Judeu Ortodoxo com presas e vestido com um chapéu preto com a insígnia Nazi das SS». O suposto anti-semitismo levou ao desmantelamento do mural e aos inúmeros pedidos de desculpas, dos artistas, dos curadores e da directora da 15.ª Documenta, que acabou por se demitir, passado um mês, no seguimento das repercussões mediáticas.

Façamos uma breve e superficial análise da representação imagética da obra dos Taring Padi – colectivo que se assume como político. O mural representa os massacres que ocorreram na Indonésia, na década de sessenta do séc. XX, com o objectivo de eliminar o Partido Comunista da Indonésia (PKI, de Partei Komunis Indonesia), e restantes forças de esquerda por arrasto, tendo resultado em mais de meio milhão de mortos. Segundo os artistas, a sua obra parte desta experiência enquanto povo, em jeitos de aprendizagem com a tragédia do passado e denúncia das calamidades do presente, para evitar as farsas do futuro. A farsa também é uma tragédia, porém, sem o benefício da dúvida, pois o aviso já lá estava em letras garrafais.

«A instalação estandarte “Justiça do Povo” (2002) é uma campanha contra o militarismo e violência que nós experienciámos durante a ditadura militar de Suharto por 32 anos na Indonésia, e o seu legado como ele ainda existe actualmente». Justificam os artistas. «Então, a representação de figuras militares no painel expressa as nossas experiências. Como tal, todas as figuras representadas referem-se a símbolos comummente conhecidos no seio do contexto político, como por exemplo a corrupção burocrática, generais e seus soldados, que são simbolizados como porcos, cães e ratos, para criticar um sistema capitalista explorador, e a violência militar».

A crítica ao militarismo, em a Justiça do Povo, vai para além das fronteiras indonésias, é o que nos diz a simbologia apresentada. E como é já hábito, o mundo ocidental exige que se feche os olhos às atrocidades praticadas por Israel, estes têm carta-branca para matar, e não podem ser relacionados com qualquer violência – sob pena de ricochete na direcção do denunciador. A censura não permite sequer que se discuta. Entenda-se que ser contra as práticas genocidas de Israel e das suas instituições, como a Mossad, não é equivalente a anti-semitismo. No entanto, empaticamente (essa empatia que é tão reclamada às massas diariamente), é de esperar que as vítimas de genocídio – mesmo as que não o sentiram na pele o são2 – não fechem os olhos ao genocídio praticado por outrem (mesmo que seja parceiro de negócios). Num artigo de Eitay Mack, baseado na abertura de documentos israelitas anteriormente secretos, fala-se da contribuição de Israel para o branqueamento dos massacres de 1965-66 na Indonésia, e de vários acordos comerciais de armamento e outro material militar, já em 1967, contribuindo para o reforço do regime tirânico de Suharto.

«A Mossad contactou com o regime militar da Indonésia para iniciar projectos comerciais conjuntos de petróleo, algodão, fosfatos, carne, aviação doméstica, árvores, soja, papel, milho, barris de metal e transporte de petróleo. Alguma desta actividade comercial foi gerida via empresas proxy [por procuração, ocultando a proveniência]. À semelhança, o exército indonésio e Israel criaram em conjunto uma empresa de comércio de diamantes da Indonésia. A 28 de Maio de 1967 a Mossad fechou um acordo com uma empresa indonésia chamada Berdikari, que era controlada por generais do exército. O acordo especifica que os Indonésios estavam interessados em adquirir material militar e uniformes a Israel».3

Noutro excerto, podemos notar a importância de, «racialmente», se ser europeu, coisa que muitas vezes se tem ouvido em relação à guerra na Ucrânia, para justificar que o povo ucraniano merece mais a nossa empatia que outros povos sob bombas.

«O documento preparado pela Mossad a 6 de Abril de 1967, antes de outra visita de uma delegação indonésia, especifica, “Nós sabemos pouco acerca do seu carácter, modo de pensar, ou da real relação connosco. No entanto, não os tratem como Africanos, mas sim como se eles fossem Europeus”.»4

Alguns documentos indicam, e outros tantos que poderiam indicar estão velados à consulta, que o apoio de Israel à ditadura de Suharto – que também invadiu e chacinou o povo de Timor-Leste sob pretextos de combate ao comunismo – não esteve tão distante como o alvoroço em torno de um mural, que associa simbologia israelita a genocídios, possa querer dar a entender.

Estão então reunidas as condições necessárias para que se abra o debate e se peça esclarecimentos em torno destas colaborações criminosas, e esse é um dos papéis da Arte, maiúscula e interventiva. Mas as instituições querem os artistas bem-comportados e sem chatear muito, porque uma actividade que vive da «aparência» (não se esgotando, nem pouco mais ou menos, na forma) pode influenciar o modo como os donos da ideologia dominante são vistos.

Não despiciendo os vários massacres aqui abordados e aqui latentes, que exigem uma análise muito mais cuidadosa e instruída, no que toca à questão da liberdade artística aqui posta em causa, os ataques à idoneidade da curadoria da 15.ª Documenta, por parte do colectivo artístico indonésio Ruangrupa (que convidou os Tarang Padi), já estavam a ser perpetrados desde o início do ano. Uma organização que toma o nome de Alliance Against Anti-Semitism Kassel (Aliança Contra o Anti-Semitismo Kassel) acusou os membros desse colectivo responsável pela curadoria de «promoverem o ódio contra Israel» e de suportarem o movimento palestiniano BDS – Boycott Divestment Sanctions (Boicote Desinvestimento Sanções, movimento transnacional, fundado em 2005, que, segundo o seu site, reivindica para os palestinianos os mesmos direitos que o resto da humanidade, o que inclui a desocupação do território palestiniano). Numa carta-aberta, o colectivo Ruangrupa nega qualquer planeamento para apresentar eventos protagonizando o movimento BDS, e que o apoio ao movimento se resumiu à subscrição do argumento de que a resolução que passou no parlamento alemão, Bundestag, em 2019, que qualifica o BDS como anti-semita, é «uma ameaça à liberdade artística e à liberdade de expressão».

Diz o colectivo, na carta aberta contra o rumor lançado no blog da Aliança Contra o Anti-Semitismo Kassel:

«Quando qualquer crítica à acção do estado de Israel é rotineiramente demonizada e equiparada com anti-semitismo, só se pode esperar que essa demonização seja desafiada. Este desafio vem primeiro daqueles que são afectados pelas violações dos direitos humanos por parte do estado de Israel. A cultura alemã de equiparar anti-Sionismo e até não-Sionismo com anti-semitismo exclui, mancha, e silencia Palestinianos e Judeus não-Sionistas na luta contra o anti-semitismo, ao declará-los a eles próprios como anti-semitas».5

Aquando da escrita deste texto, o seu autor não possui informação acerca de todos os contornos e degradés do desenho que aqui esboçámos, e desconhece alguns possíveis sombreados mais obscuros. Todavia, e esse é o objectivo principal desta reflexão, é necessário chamar a atenção para o perigo do facilitismo com que se branqueiam as tragédias, e se escapa ao debate e reflexões aprofundadas, recorrendo à susceptibilidade de determinadas coortes, que afectam toda uma cultura numa escala mais alargada. Silencia-se com o apelo à sensibilidade. Estas consequências devastadoras para o progresso cultural são baseadas em farsas e falácias, dando azo a outras tragédias. Abordar as questões na sua complexidade, procurando esclarecimentos, não equivale a desrespeitar o sofrimento de um povo.

A História repete-se uma e outra vez, ora como tragédia, ora como farsa, ora como tragédia-farsa e farsa que dá em tragédia. Lidas umas linhas para além das que este texto oferece, mas que artigos em rodapé sugere, alguns sininhos da semelhança devem tocar na mente. Noutra época, a tragédia dos massacres na indonésia foi silenciada, a história deturpada, as vítimas esquecidas, com aval e colaboração do ocidente (E.U.A. sempre na linha da frente). Ainda hoje, o anticomunismo é usado como estandarte político para a direita ganhar eleições. Aos olhos de Israel, que europeísmo! Daqui a sessenta anos, provavelmente, estaremos a falar da farsa montada em torno da guerra na Ucrânia, das vítimas russófonas esquecidas, do partido comunista e restante oposição de esquerda ilegalizada, das chacinas de inocentes. No meio de tudo isto, a Arte pode parecer algo de irrisório, porém, é através dela que se gravam as tragédias na memória dos povos, para evitar as farsas, e é ela que também tem o poder de abrir debates, mais ou menos acesos. Por isso, o silenciamento nunca pode ser solução.

E se o leitor achar que estas coisas são assuntos de terras distantes, abra os olhos para as constantes tentativas de silenciar o PCP e denegrir a Festa do Avante!, à força da mentira e da deturpação.


Júlio F. R. Costa é licenciado em Filosofia e mestre em Mercados da Arte.

  • 1. Cf. Karl Marx (2008), «O 18 de Brumário de Louis Bonaparte» em Obras Escolhidas de Marx e Engels, Tomo I, Trad. vários, Lisboa, Edições Avante!, p. 434.
  • 2. Segundo a «Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio»,«(...) genocídio significa a prática de qualquer dos seguintes actos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como: (a) Matar membros do grupo; (b) Causar danos sérios à integridade física ou mental do grupo; (c) Infligir deliberadamente condições de vida num grupo calculadas para causar a sua destruição física, total ou parcialmente; (d) Impor medidas com a intenção de prevenir nascimentos no seio do grupo; (e) Transferir pela força crianças de um grupo para outro grupo». Tradução própria. O texto na totalidade é mais esclarecedor.
  • 3. Ver aqui.
  • 4. Idem.
  • 5. Ruangrup, «Antisemitism Accusations against documenta: A Scandal about a Rumor», E-flux, 7 de Maio de 2022.

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