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Foi em Setembro que te conheci, Lisboa!

Hoje é dia de ir à Luz. À feira da Luz, é claro. Por todo o mês há animação em frente ao Colégio Militar, com música e farturas, pois claro, mas com algo mais também. Ou não estivéssemos na generosa Freguesia de Carnide, cuja Junta, em colaboração com a Boutique de Cultura, dinamizou o projecto «Cem Participações»

Cartaz do projecto «Cem Participações», desenvolvido na Freguesia de Carnide, em Lisboa
Cartaz do projecto «Cem Participações», desenvolvido na Freguesia de Carnide, em LisboaCréditoscolombo.pt

Hoje é dia de ir à Luz. À feira da Luz, é claro. Por todo o mês há animação em frente ao Colégio Militar, com música e farturas, pois claro, mas com algo mais também. Ou não estivéssemos na generosa Freguesia de Carnide, cuja Junta, em colaboração com a Boutique de Cultura, dinamizou o projecto «Cem Participações», que deu origem a uma exposição, patente este mês no espaço da Atmosfera M (Rua Castilho n.º 5), e a um livro que mostra à transparência que são as pessoas que fazem uma comunidade, com gestos tão decididos como pegar em baldes e picaretas para fazer um arruamento que fazia falta ou desviar um autocarro da Carris que se recusava a servir os habitantes de um bairro cuja existência não era então lá muito reconhecida por quem de direito. E viva o Horta Nova! A mim comove-me e impressiona-me, e ouvi dizer que até ao Papa também, tanto que quis receber e saudar no Vaticano cento e tal participantes deste belo projecto de empenhamento e construção colectiva. Este Livro vai contra todos os conformismos, embrutecimentos e resignações que nos impingem todos os dias e é mais uma prova de que sozinhos não somos nada, mas juntos temos o mundo na mão! A apresentação é na dita Atmosfera M, no dia 15. Dia 22 e 29 há tertúlias sobre participação cidadã. Sempre às 18 horas.

Quem já conhecer o projecto e tiver o livro tem autorização para faltar ao lançamento e ir no mesmo dia 15, às 18h30, ao Teatro Maria Matos, à conferência «Em defesa da Utopia», do Merijn Oudenampsen. Quem não conseguir ir, pode assistir em directo, em streaming, como dizem os turistas, no sítio da Internet do teatro. Tudo isto a pretexto dos quinhentos anos da publicação da Utopia do bom do Thomas More, que conta a viagem do português Rafael Hitlodeu pelos mares encantados da esperança na Cidade dos Homens.

E, como estamos em Setembro, não podemos deixar passar o nefasto undécimo dia. Dia em que a morte saiu à rua em Santiago do Chile, corria o ano de 1973. O Ary tem um poema sobre isto que me vem sempre à cabeça, e, por coincidência, ouvi-o há pouco tempo pela voz timbrada do Jogral U…tópico Manuel Diogo, Nas suas almas abertas traziam o sol da esperança e nas duas mãos desertas uma pátria ainda criança  Gritavam Neruda Allende… e por aí fora segue o vate, ecoando o Salvador e o Pablito, o grande mestre que editou os Vinte poemas de amor e uma canção desesperada no ano de 1924, na chancela Nascimento, do seu amigo e nosso compatriota corvino Carlos-George Nascimento, no Chile radicado, desaparecido em 1966: mais um tuga que andou a utopizar por aí! Felizmente que o micaelense Zeca Medeiros foi resgatar ao olvido este Livreiro de Santiago num humaníssimo documentário, que se pode ver no sítio da RTP. Mas as efemérides, se nos esmagam, também nos podem devolver à terra dos sonhos. Entre 12 e 14 de Setembro temos um rico congresso internacional dedicado aos 250 anos do poeta Bocage, irmão do citado Ary, como é sabido. É no Forum Luísa Todi, organizado pelo Centro de Estudos Bocageanos e promovido pela Câmara Municipal de Setúbal. Também este mês se assinala o cinquentenário do passamento de outro mestre. Dia 25 partiu o Delfim Santos, grande filósofo e pedagogo. A Biblioteca Nacional, a Biblioteca da Faculdade de Letras e a Hemeroteca de Lisboa vão acolher exposições evocativas até ao fim do ano. Entretanto pode ser que o Verão acabe. Venham as vindimas.

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