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Para toda a gente, tudo #3

Pego por onde terminei no mês passado. Não sou imparcial, sou absolutamente suspeita, porque o Teatro Praga é uma das minhas famílias e não é de afectos (nome genérico) que se trata quando falo deles (de nós): é de Amor mesmo, assim com letra maiúscula, como os meses do ano e como alguns gostam de escrever a palavra «arte».

«Zululuzu», Teatro Praga
«Zululuzu», Teatro PragaCréditosCarlos Pinto

Então e o espectáculozinho sobre o Pessoa, hein?

Zululuzu começou, antes de ter nome próprio, como «Projecto Pessoa». É sobre o tempo que Pessoa passou em Durban, na África do Sul, entre 1896 e 1905, entre os oito e os dezassete anos. Ou não. É um espectáculo sobre uma ideia de África. Ou não. É um manifesto em confronto com as convenções teatrais e a caixa preta, em confronto com as ideias feitas sobre o teatro, sobre Pessoa, sobre África, sobre o género, sobre o racismo e a exclusão, sobre a Praga. Ou não. Num espectáculo do Teatro Praga nada está seguro (e a única certeza, manas, é que daqui não saímos vivos). Num espectáculo da Praga nada está seguro, nem a Praga. E essa é para mim a premissa-base para arriscar a escrever «arte» com letra maiúscula. Ou não.
A não perder por nada, nem por um postal com um pôr-do-sol e gnus a contra-luz. Porque Deus queer, a bicha sonha, o show nasce até 25 de Setembro, no São Luiz Teatro Municipal.

Para este mês e todos.

Sem data marcada, mas não menos merecedor de lugar na agenda, este mês atiro-vos um livro. É grande, mas não se desviem. Em 2008 a Dom Quixote reeditou Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer, com tradução de Maria João Freire de Andrade e prefácio de José Cardoso Pires. Um romance da Segunda Guerra, que trata especificamente da luta entre os exércitos norte-americano e japonês pela posse da ilha filipina de Anopopei. Um romance de guerra, é verdade, um fresco de violência, como se pode ler no prefácio, «um fresco de carne violentada, mas onde domina sobretudo o tormento da alma, a razão de consciência.»

Um daqueles livros em que as palavras, secas, sem rodriguinhos, se materializam subtilmente até que de repente damos por isso e ao virar de uma página é subitamente preciso parar para respirar e tomar o peso ao que nos cai em cima. Um livro em que as palavras são tão no osso que projectam o filme com uma nitidez rara. Onde se pode encontrar, entre conversas de campanha, uma das melhores definições de fascismo alguma vez escritas, ou ditas, neste caso pela voz do general Cummings: «A aspiração mais urgente do homem é a omnipotência (...). É óbvio que não é a religião, não é o amor, não é a espiritualidade. Isso são tudo dádivas ao longo do caminho, benefícios que inventamos para nós mesmos quando as limitações da nossa existência nos desviam do outro sonho. Alcançar Deus. Quando pela primeira vez entramos no Mundo, nós somos Deus, o Universo é o limite dos nossos sentidos. E, quando envelhecemos, quando descobrimos que o Universo não somos nós, é o traumatismo mais violento da nossa existência. (...) A única moralidade do futuro é uma moralidade do poder.»

No entanto, podemos respirar um pouco. Porque o fascista, completo ou em potência, é uma criança traumatizada... para sempre; mas a resposta a esta análise categórica é que «ainda não chegámos ao futuro». Um quadro impiedoso e material dos estragos da guerra na carne e no espírito. Do papel da guerra no solidificar do controlo social e humano e da ilusão da transformação que algumas pátrias e alguns livros de História tentam convencer-nos que pode nascer da morte industrializada.

No fim de tudo, das ordens, da disciplina, da morte, ecoava-me na cabeça em loop o escrivão de Melville: «preferia não o fazer».

No próximo mês continuamos. Mas ainda não chegámos ao próximo mês.

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