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Dia de festa e de luta

No Dia Mundial do Teatro há espectáculos, exposições, visitas guiadas. Há também artistas nas ruas, vozes de protesto e cartas abertas aos governantes. E tudo isto é, também, a Arte.

Os trabalhadores do Opart - Organismo de Produção Artística, reunem-se à porta do Ministério da Cultura com o objetivo de demonstrar o seu apoio à delegação sindical e afirmar a sua vontade de contribuir para que o cenário atual na instituição seja alterado, Lisboa, 27 de março de 2018.
Os trabalhadores do Opart - Organismo de Produção Artística, reunem-se à porta do Ministério da Cultura com o objetivo de demonstrar o seu apoio à delegação sindical e afirmar a sua vontade de contribuir para que o cenário atual na instituição seja alterado, Lisboa, 27 de março de 2018. CréditosAntónioCotrim / LUSA

Foram cerca de 70 – cantores, músicos, bailarinos e administrativos – que estiveram concentrados durante quase duas horas em frente ao Palácio Nacional da Ajuda, demonstrando o seu apoio à delegação sindical e afirmando a sua vontade de contribuir para que o cenário actual no Organismo de Produção Artística E.P.E (Opart) seja alterado.

Ao mesmo tempo, no interior do palácio, decorria uma reunião entre representantes do Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE/CGTP-IN) e o secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, para dar a conhecer à tutela diversas reivindicações do Opart –  suscitadas no plenário de trabalhadores do Opart, no passado dia 5 de Março: «Trabalhadores do São Carlos e da Companhia Nacional de Bailado em protesto».

À saída, André Albuquerque, do CENA-STE, declarou aos jornalistas que, a não serem feitas alterações «drásticas» na proposta de regulamento interno apresentada pela administração da empresa pública que tutela a Companhia Nacional de Bailado (CNB), a Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP) e o Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), os trabalhadores vão recorrer a várias formas de luta.

«quarenta e quatro anos volvidos após a revolução de Abril, assistimos a uma classe submetida ao vazio legal onde a falta de certificação e regulamentação colectiva a expõe a uma deriva de quem navega sem rumo e onde nenhum vento será favorável»

Manuel Coelho, actor do teatro nacional D. maria II

«Se não houver uma resposta efectiva, rápida e imediata sobre a proposta da administração, se ela se mantiver como está, vamos avaliar com os trabalhadores várias formas de luta», disse o dirigente sindical, acrescentando que, entre essas formas de luta, está a possibilidade de protestos durante o Festival ao Largo – possibilidade que já tinha sido aventada no plenário de 5 de Março.

O Festival ao Largo, que este ano cumprirá a sua 10.ª edição, realiza-se durante o Verão, no Largo de São Carlos, integra canto, música e dança e é, segundo a agenda cultural da Câmara Municipal de Lisboa, um dos mais aguardados eventos ao ar livre em Lisboa. Conta com actuações do Coro do TNSC, da OSP e da CNB, mas acolhe, também, companhias convidadas.

«Teatro para que te quero?»

O CENA-STE pediu a Manuel Coelho, actor e membro da Comissão de Trabalhadores do Teatro Nacional D. Maria II, para escrever uma mensagem a propósito deste 27 de Março, Dia Mundial do Teatro. Esse lúcido e apaixonado texto, em defesa do teatro e da carreira  artística, pode ser lido integralmente na página do CENA-STE.

Performart escreve ao primeiro-ministro

A Associação para as Artes performativas em Portugal (Performart) foi constituída em Outubro de 2016. Reúne 47 estruturas de «todas as áreas da criação, produção e programação das artes do espectáculo em Portugal», incluindo os teatros nacionais de São Carlos, D. Maria II e São João, as fundações Casa da Música, Serralves e Centro Cultural de Belém, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Companhia Nacional de Bailado, EGEAC – estruturas de Lisboa ou do Porto – mas também outras descentralizadas pelo país, como, entre outros, a Companhia de Teatro de Almada, a Companhia de Teatro de Braga, o Teatro Académico de Gil Vicente (Coimbra), a Associação Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, o Teatro da Terra (Ponte do Sor), Teatro do Noroeste/Centro Dramático de Viana (Viana do Castelo), o teatro A Oficina/Centro Cultural de Vila Flor (Vila Flor), o Centro de Artes de Espetáculos de Viseu (CEAV).

16 500 000€

dotação do apoio às artes em 2018

Em Fevereiro a Performart escrevera ao primeiro-ministro António Costa após conhecer a «dotação insuficiente do Programa de Apoio Sustentado às Artes, da Direcção-Geral das Artes», a qual considerou conduzir a um «atrofiamento irremediável» do sector. Tinham sido anunciados 15 milhões de euros para as modalidades bienal e quadrienal do referido programa – muito inferiores aos 19,8 milhões orçamentados para 2009, há quase dez anos atrás.

-16,7%

variação da dotação de 2018 relativamente à de 2009, há nove anos atrás

Em 20 de Março o primeiro-ministro anunciou o reforço em 1,5 milhões de euros da dotação do  Programa de Apoio Sustentado, mas a Performart aponta que esta medida «está longe de responder à urgência da situação» e lembra ao governo o compromisso «afirmado durante a campanha eleitoral, perante uma plateia de artistas e outros agentes do sector: “mais do que um Ministério da Cultura, precisamos de um Governo de Cultura”».

Em carta aberta ao primeiro-ministro por ocasião da celebração do Dia Mundial do Teatro, a qual pretende alertar para a necessidade de «valorização das artes performativas e pelo reconhecimento do seu papel central na identidade, cultura e qualificação da vida pública em Portugal», a Performart insta o governo à «reposição imediata dos montantes de 2009 para o apoio às artes». Vale a pena ler a carta na íntegra, no sítio da Performart.

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