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A colaboração na rede: expetativas e promessas para a produção cinemática (III)

As ideias de colaboração passam a ser exploradas por um número crescente de empresas, com objetivos comerciais, «são domesticadas por processos que mercadorizam as relações livres entre os indivíduos»

Imagem ilustrativa da série interactiva Downtown Browns.
Imagem ilustrativa da série interactiva Downtown Browns. CréditosFonte: Henry Jenkins

Na perspetiva defendida pelos discursos apresentados nos artigos anteriores, as estratégias de trabalho colaborativo permitem que qualquer indivíduo tenha a possibilidade de aceder a novos contextos e canais, não apenas para apresentar o seu trabalho, mas para o desenvolver e potenciar em parceria com outros agentes criativos à margem das barreiras, filtros ou imposições, colocadas pela estrutura industrial capitalista.

No campo da produção de imagens em movimento que aqui nos interessa analisar, as mesmas têm originado grande entusiasmo junto dos utilizadores das redes, sejam estes fãs dos produtos das indústrias culturais ou outros que têm a expectativa de, individualmente ou integrados numa comunidade online, dar a conhecer as suas experiências audiovisuais e, eventualmente, obter reconhecimento. As mesmas têm também obtido boa receção junto de profissionais a trabalhar em regime independente que identificam aqui formas de debelar a ausência ou o insuficiente financiamento proveniente das instâncias que tradicionalmente assumem essa missão, bem como outros constrangimentos que inibem o seu acesso aos circuitos habituais de produção, difusão e exibição cinematográfica. Para muitos destes agentes, as estratégias de trabalho colaborativo criam a expectativa da emergência de novas modalidades estéticas e criativas.

Múltiplos trabalhos cinematográficos têm surgido integrados na categoria de cinema colaborativo. Face às novas possibilidades anunciadas, importa analisar qual a postura das indústrias de conteúdos. Estará efetivamente o modelo de produção e difusão industrial a ser superado por um novo caracterizado por uma soberania do indivíduo participador e por uma economia contributiva? Ou procurará o primeiro adaptar-se às transformações económicas, sociais ou culturais em curso e identificar formas complementares de lucrar com estas?

Se parece ser evidente que a web 2.0 propiciou um novo quadro de possibilidades e que os utilizadores da rede podem agora produzir, distribuir e exibir conteúdos a uma vasta escala e a custo mínimos, importa notar que as indústrias não ficam indiferentes a este cenário e procuram agir de forma a não perder o seu espaço de atuação. Assim, em paralelo com as propostas efetuadas pelos utilizadores da rede, que procuram tirar partido deste anunciado novo poder, surgem estratégias empresariais baseadas nos modelos de negócio tradicionais. As clássicas indústrias de conteúdos aproveitam a produção dos utilizadores em rede de diferentes formas: como fonte (gratuita ou de baixo custo) para a construção das suas mercadorias, como forma de as promover ou assumindo o controlo sobre as plataformas disponíveis para a sua construção e/ou difusão.

Criou-se a noção de que qualquer indivíduo tem a possibilidade de participar como um membro de uma comunidade e de, por esta via, criar valor, com os seus pares. Esta possibilidade tem sido entendida dominantemente como definidora de um novo modelo cultural que se convencionou designar, a partir da proposta de Jenkins, como uma cultura participativa. A esta, que reclama a possibilidade da intervenção de todos e de uma construção partilhada dos seus referentes e manifestações, corresponde a expectativa de reformulação do modelo convencional de produção cultural dominado pela indústria, pelas lógicas comerciais e pela massificação.

Estas novas condições originam efetivas transformações nos modos convencionais de elaboração e difusão cinematográfica. As mesmas resultam, particularmente, da dilatação do número de participantes neste contexto e do significativo aumento dos canais de circulação e exibição da obra fílmica. No entanto, embora se possa admitir que, perante este novo cenário, o modelo industrial dominante passa a ser alvo de alguns condicionamentos e que necessita de se adaptar às alterações que aparentam estar em conflito com os seus modos de operar habituais, é também notória a sua capacidade de se integrar no novo contexto.

Propõe-se assim que o modelo industrial não é alvo de uma substituição, mas antes que, de modo cada vez mais sistemático, a indústria encontra forma de utilizar essas novas práticas, construindo negócios sustentados naquele que é considerado o ethos do trabalho em rede e apropriando e mobilizando o discurso que lhe é associado. As ideias de colaboração e de coautoria/coprodução passam a ser exploradas por um número crescente de empresas, com objetivos comerciais. Na sequência disso, as várias iniciativas que são muitas vezes identificadas como motivadoras de uma alteração das relações de poder significam antes uma migração das convencionais estruturas de produção e difusão de conteúdos para um novo contexto, onde continuam a exercer o seu papel habitual.

Assim, o novo cenário de colaboração em rede, em vez permitir a redistribuição do poder entre os vários indivíduos, gera o restabelecimento dos modelos convencionais de negócio, servindo como estratégia para a criação de empresas e para o aproveitamento, por parte das mesmas, de mão de obra barata ou mesmo gratuita. Isto significa, como sugere Toby Miller, que as possibilidades apontadas pelo novo cenário «são domesticadas por processos que mercadorizam as relações livres entre os indivíduos» (2009, 435).

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