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Sugestões Culturais de José António Gomes

Abril, o mês da liberdade. E do livro e da música…

Entre nós, Abril é o mês do livro mas também o mês da liberdade. De ler – jornais, livros de todos os géneros –, de ver teatro, de assistir a concertos musicais, de participar em debates sem o filtro criminoso da Censura.

Zeca Afonso morreu aos 57 anos
Zeca Afonso morreu aos 57 anos Créditos / Glosas

Entre nós, Abril é o mês do livro. A 2 comemorou-se o Dia Internacional do Livro Infantil, a 23 o Dia Mundial do Livro, e em bibliotecas públicas e escolas são frequentes as actividades relacionadas com a leitura. Mas Abril é também o mês da liberdade. E este ano comemoramos os quarenta e cinco anos desse(s) dia(s) mágico(s) e exaltante(s), em que o povo português, em aliança com os seus soldados e capitães (cravos vermelhos nos canos das espingardas), fez ruir o fascismo e reconquistou a liberdade e a democracia roubadas, bem como o direito a lutar por uma vida melhor.

Que tal ouvir, a propósito, um dos mais belos temas, «Papuça», de José Afonso, esse poeta e cantor de Abril sempre vivo, e as palavras sábias que antecedem a canção, no célebre concerto ao vivo no Coliseu?

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Muita coisa foi o 25 de Abril, como se sabe, mas foi colossal o seu impacto internacional, se pensarmos que esteve na origem de seis novos estados, livres e independentes: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e, muito mais tarde, Timor-Leste. Isso mesmo no-lo recorda Zeca, noutra das suas canções inesquecíveis: «Um homem novo veio da mata».

Por tudo isto é que as minhas primeiras sugestões culturais são a (re)leitura do belo livro Textos e Canções, de José Afonso, editado pela Relógio D’Água, em 2000, e o regresso às gravações do cantor.

O livro livre

Pois claro, o livro. O livro livre. O livro e a comunicação social sem o filtro criminoso da Censura formal – essa que acabou no 25 de Abril de 1974, ainda que substituída, nos nossos dias, pela censura não formal das direcções, das editorias, quer nas televisões quer nos jornais sob controlo dos senhores do dinheiro, para não falar da autocensura do mau jornalismo, que infelizmente campeia por aí. Mas, na área do livro, como não referir essa outra censura oculta, não formal, que resulta da concentração editorial e da consequente falta de diversidade e pluralidade no campo da edição, e que resulta também do fecho das pequenas e médias livrarias e das dificuldades enfrentadas pelas pequenas e médias editoras?

«Vale a pena reflectir sobre a funda experiência de liberdade e cidadania que a leitura literária pode proporcionar. [...] A leitura oferece, àquele que lê, a oportunidade de se ir situando em relação ao mundo que o rodeia e de construir criticamente a sua própria identidade»

Mesmo assim, vale a pena reflectir sobre a funda experiência de liberdade e cidadania que a leitura literária pode proporcionar.

Quem não consegue renunciar a tal experiência sabe que ler, em primeira instância, é entrar numa conversa. E esse diálogo com a voz de um autor – que é depois, e também, um tête-à-tête com o herói de um conto, uma novela ou um romance – constitui, por si só, uma vivência do confronto de ideias e sentimentos, um lugar de aceitação activa da diversidade.

«Mas ler (lírica, narrativa, drama…) é igualmente uma forma de construir mundos imaginários a partir de um texto, permitindo àquele que lê criar objectos estéticos, e para entrar nesse jogo irrenunciável do literário»

A diversidade das culturas, dos olhares e dos modos de sentir e estar no mundo. Além de permitir esta aprendizagem da comunicação entre os homens (que é também aprendizagem da língua nos seus vários planos de funcionamento), a leitura oferece, àquele que lê, a oportunidade de se ir situando em relação ao mundo que o rodeia e de construir criticamente a sua própria identidade. E é por isso que nunca os regimes ditatoriais ou obscurantistas se empenharam em promover seriamente a leitura e, sem o confessarem, sempre preferiram o analfabetismo e a iliteracia, que mergulham o homem na ignorância das servidões a que está sujeito. Por isso – quase sempre em nome da economia – desinvestem na cultura, desinteressam-se da construção de bibliotecas, ou do investimento nelas, e propagandeiam uma noção redutora da cultura como espectáculo, como «património» ou como mera galeria de glórias passadas.

«Portugal é dos países da Europa onde menos se lê e onde mais horas são passadas diante do telemóvel e de uma televisão que nos envergonha. […] Saibamos reclamar para as nossas crianças e os nossos jovens a possibilidade de um dia se tornarem cidadãos mais cultos e livres, mais críticos e conscientes dos seus direitos»

Mas ler (lírica, narrativa, drama…) é igualmente uma forma de construir mundos imaginários a partir de um texto, permitindo àquele que lê desenvolver a consciência das suas próprias faculdades na utilização da linguagem verbal. Uma linguagem que – descobre-se então – não serve apenas para comunicar, mas também para criar objectos estéticos, e para entrar nesse ludismo infindável que é o jogo das palavras, o jogo irrenunciável do literário.

Pensemos então no livro e na literatura. Sem esquecer que Portugal é dos países da Europa onde menos se lê e onde mais horas são passadas diante do telemóvel e de uma televisão que nos envergonha. E, em conformidade, saibamos reclamar para as nossas crianças e os nossos jovens a possibilidade de um dia se tornarem cidadãos mais cultos e livres, mais críticos e conscientes dos seus direitos. Pois, como lembra algures a escritora grega Angeliki Varella, «a ‘luz’ dos livros nunca se apaga».

Novos livros de ficção

Foi há quarenta anos que António Mota publicou o seu primeiro livro. Era um conto ilustrado para crianças, A Aldeia das Flores (ASA, 1979). Oitenta e dois livros depois, e por ocasião da comemoração destas quatro décadas de escrita, vem a lume uma obra para adultos, No Meio do Nada (ASA, 2019), com uma sugestão paratextual de leitura logo na capa: «instantâneos da passagem do tempo na eterna busca da felicidade». Bem editado, capa sugestiva, o livro propõe uma sucessão de quarenta e nove monólogos de outras tantas personagens (na esmagadora maioria, mulheres) que discorrem sobre as suas humaníssimas existências.

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O tempo que passa, a solidão, os encontros e desencontros da vida, as dificuldades económicas, as migrações internas e a emigração, a desertificação do interior, os sonhos da juventude e os desencantos da meia-idade e da velhice, a tensa esfera dos afectos, o peso da memória – são estas algumas das linhas com que se cosem estes monólogos, de registos diversos, construídos com mão de escritor experimentado, capaz de imprimir a cada uma das curtas ficções um assinalável toque de autenticidade. De todos estes textos, marcados pela fluência e aparente simplicidade da escrita e organizados em cinco núcleos («Laços e nós», «Como a água dos rios», «Chãos», «Romeus e Julietas» e «Repousos»), destaco, por exemplo, «António» (pp. 111-116), vívido retrato de uma figura de homem sonhador e de um período (o ponto de partida são os anos 60) que foi um tempo bem português, rural, esmagado pela (de)pressão da ditadura e da pobreza duriense, pelo pesadelo da Guerra Colonial e dos seus mortos.

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É também prometedor o novo livro de contos de Francisco Duarte Mangas, Pavese no Café Ceuta (Teodolito, 2019), ao remeter para o Porto e para alguns dos seus lugares emblemáticos, para escritores e editores que os povoaram ou poderiam ter povoado, para tragédias conhecidas (como a de Gisberta), mas também para outros espaços de matriz rural, todos eles bem conhecidos do escritor: romancista, contista, poeta, autor de livros para a infância, senhor de um estilo singular, de uma prosa de recorte poetizante e de conhecido investimento no plano imagístico. Em pequeno formato, graficamente muito cuidada e sóbria, trata-se de uma bela edição, que acabo de adquirir, e da qual apenas fiz uma leitura parcial. A esta obra espero poder voltar, noutra ocasião.

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Leandro Ceia, em Eloína-Deusa (Edição de autor/Impressão: V. Alberto Santos, 2019), propõe-nos uma ficção que começa por ser dolorosa viagem à Guerra Colonial e passa, em seguida, pela evocação sempre muito emotiva de lutas e percursos individuais (sobretudo o da personagem de Eloína) e também colectivos, antes e depois da Revolução – de onde se destaca, logo nas pp. 5 a 11, a recriação da figura do artista plástico e heróico militante comunista José Dias Coelho, assassinado pela PIDE nas vésperas do Natal de 1961 (lembre-se, uma vez mais, José Afonso, em «A morte saiu à rua»).

Registe, também que acaba de sair mais um volume das obras do uruguaio Eduardo Galeano, na impecável edição da Antígona – a contrastar tanto com os muitos descuidos e facilitismos editoriais das grandes editoras. Desta feita, a proposta é Dias e Noites de Amor e de Guerra (2019), em muito boa tradução de Helena Pitta.

Novos livros de poesia e um estudo

Ex Po Ex – evocando os universos artísticos e críticos do «experimentalismo» poético português (Melo e Castro, Ana Hatherly, António Aragão, Salette Tavares…), o título remete, de imediato, o leitor mais familiarizado com estas coisas para a poética concretista. E aqui temos, em edição da Crescente Branco (colecção Quarto Crescente, 2019), de Braga, um novo volume, bem especial, de Vergílio Alberto Vieira1.

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O autor, é sabido, afirma-se como omnívoro cultor dos mais diversos modos e géneros: a ficção narrativa, o texto dramático, a escrita diarística, a literatura para os mais novos e a poesia mais do que tudo (da escrita antidiscursiva ao soneto e ao haiku, passando pelo tanka, pelo poema em prosa, pelas composições de feição tradicionalizante, em verso rimado isométrico, entre outras modalidades). Explorando a visualidade letrística e caligráfica, mas também a fotografia de objectos e de outros elementos semióticos, tirando partido quer do desenho manual quer das possibilidades da informática (o designer César Antunes terá ajudado), evocando figuras artísticas ou aflorando tópicos existenciais, Vergílio propõe mais um título a integrar aquilo que poderemos designar como a nunca esgotada antologia da poesia experimental em português. Uma boa surpresa esta, de formiga-no-carreiro-vindo-em-sentido-contrário, para citar uma vez mais Zeca Afonso.

Nem de propósito, acaba de sair Pensar a Imagem Olhar o Texto: Experimentos poéticos na Educação da Infância, livro que ainda não li, da investigadora e estudiosa Estela Rodrigues (Afrontamento, 2019), mas cujo tema promete, pois remete para a utilização educativa, expressiva e lúdica da «poesia experimental», em jardim de infância. Um trabalho pedagógico inovador a não perder, proposto por quem sabe que a educação literária começa na família e passa, naturalmente, pela pré-escolaridade.

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Os apreciadores das formas breves e das poéticas orientais têm um verdadeiro manjar em Os Animais [haikus] (2019), do poeta japonês Kobayashi Issa (1763-1828), conhecido, tal como Bashô, como um dos «quatro grandes da poesia haiku». Depois da colectânea O Eremita Viajante, de Matsuo Bashô, a Assírio & Alvim edita Issa (que criou perto de vinte mil haikus), mais uma vez em edição a cargo do poeta, tradutor e estudioso Joaquim M. Palma, responsável também pela apresentação da obra, um trabalho de rigor e visível devoção. Issa, afirma Palma, criou a sua poesia breve «com tanta maestria e encanto que hoje em dia não há, no Japão, adulto ou criança que não saiba de memória um punhado dos seus haikus»2. Um livro editado com sobriedade e bom gosto, começando pela capa.

Novos livros para a infância e a juventude

Na sequência do Dia Internacional do Livro Infantil, e neste roteiro muito dedicado, naturalmente, aos livros, não poderia deixar de salientar alguns títulos novos, como Lengalenga de Lena, a Hiena (Edições Zero a Oito, 2019, col. Na minha rua), da notável poeta e ensaísta que é Ana Luísa Amaral.

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Com dinâmicas ilustrações de Jaime Ferraz, cromaticamente vibrantes mas de bom gosto, Ana Luísa – autora de outras obras para o mesmo público – constrói uma história divertida e sensível, trilhando os caminhos da metaficção e da metalepse. Centra-se numa hiena, Lena, e noutros animais, como a girafa, mas também em dois bichos oriundos «dos livros», isto é, da esfera (meta)ficcional. No texto, a contadora conversa com outra personagem (presume-se que infantil) e, neste registo dialogal em verso, inevitavelmente fantasista e poético, vai tecendo/narrando a história da presença de Lena em sua casa e do regresso do animal à savana. A temática é cara à autora: a diferença, mas também a saudade das raízes e de um espaço, por assim dizer, materno e livre. Uma bela e divertida obra, em formato de álbum, para leitores iniciais.

Conseguido é também o reconto de uma velha história tradicional portuguesa que António Mota propõe em Clarinha (ASA, 2019, 2.ª ed. de título inicialmente saído em 2009), livro em formato de álbum, com belas ilustrações de Júlio Vanzeler. Um conto de tipo maravilhoso e de final feliz, com a habitual exploração do simbolismo dos números, que Mota adapta numa prosa simples mas dotada de elementos formulísticos e poéticos bebidos na oratura tradicional. Um trabalho que o faz emparelhar com António Torrado e Alice Vieira no conjunto dos bons recontadores (para crianças) de textos do nosso património narrativo tradicional.

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Quanto à imparável Luísa Ducla Soares (e como gostamos do seu ritmo de criação), oferece agora aos pré-leitores As Vozes dos Animais (Texto, 2019), com ilustrações bem-humoradas de Sandra Serra. Trata-se de um texto constituído por quadras em verso heptassilábico, com rima cruzada, ritmados e cantantes, explorando as «vozes» dos bichos, mas não à maneira do célebre oitocentista Pedro Dinis, antes tirando partido de diferentes onomatopeias para traduzir tais «vozes». Um livro em formato de álbum que fará, certamente, as delícias dos mais pequenos.

Para leitores entre os 8 e os 12 anos, apreciadores de mistérios e aventuras escritos numa prosa fluente, acaba de sair o n.º 62 da colecção Uma Aventura, desta feita com cenário algarvio: Uma aventura no fundo do mar (Caminho, 2019), da dupla Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Traz, como sempre, as inconfundíveis ilustrações de Arlindo Fagundes, realizador de cinema, ceramista, ilustrador e autor de banda desenhada.

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Um ensaio político e o novo número da revista Diagonal

Anote na agenda: a editora Página a Página e a Universidade Popular do Porto promovem uma sessão de apresentação da obra Os Caminhos da Social-democracia Europeia, de António Avelãs Nunes. É a 12 de Abril, sexta-feira, 17h45, na Universidade Popular do Porto (Rua da Boavista, 736, Porto (metro: Carolina Michaelis). A sessão conta com a presença do autor e apresentação de Sérgio Ribeiro.

Outra sessão de reflexão político-cultural a não perder: a da apresentação do novo número da revista Diagonal (n.º 2, III série) do Sector Intelectual do Porto do PCP. A sessão de apresentação contará com a participação de vários autores e a intervenção de João Ferreira e terá lugar a 13 de Abril, sábado, pelas 18h, no Palacete dos Viscondes de Balsemão (Praça Carlos Alberto, Porto). Temáticas deste número: 45.º aniversário da Revolução de Abril, 20 anos da moeda única, 80 anos da Guerra Civil de Espanha, precariedade nas novas profissões digitais, exposição de documentos do período da clandestinidade, o projecto Bando dos Gambozinos, reprodução do trabalho do pintor António Fernando e uma grande entrevista com o maestro José Luís Borges Coelho. Colaboram nesta edição: Ana Alves Silva, Adriano Miranda, António Fernando, Cátia Martins, Hugo Brito, Jaime Toga, João Ferreira, João Rodrigues, João Tiago Silva, José António Gomes, José Luís Borges Coelho, Manuel Loff, Paulo Pereira da Silva, Sérgio Dias Branco, Suzana Ralha. O pintor António Fernando estará disponível na apresentação para autografar a reprodução do seu belíssimo trabalho plástico.

Exposição do ciclo «Os trabalhos e os dias», de António Fernando. Créditos

Sessões político-culturais na Maia e no Porto, exposição em Famalicão

Também a 23 de Abril, no Fórum da Maia, pelas 21h, terá lugar uma sessão no quadro das comemorações do Dia Mundial do Livro. Tema: «Os intelectuais na oposição ao fascismo». Esta sessão é promovida pela Câmara e Biblioteca da Maia e pela DORP do PCP e Edições Avante!, surgindo ainda no âmbito das comemorações do centenário do nascimento do escritor Papiniano Carlos, em 2018. Intervêm José Leitão, director do Teatro ArtImagem, a artista plástica Júlia Pintão e José António Gomes.

No Museu Mineiro de S. Pedro da Cova (Gondomar), promovida pela Junta de Freguesia de Fânzeres/S. Pedro da Cova e pelo Movimento Democrático de Mulheres (MDM), estará patente uma exposição sobre Maria Lamas (1893-1983), escritora, militante feminista e militante da Paz. No dia 30 de Abril, às 21h, está prevista uma sessão evocativa com diversos intervenientes.

Atente também na exposição fotográfica «Voz do Silêncio – Prisões Políticas Portuguesas». Foi inaugurada a 4 de Abril, 12 horas, no Museu Bernardino Machado (Sala Júlio Machado Vaz), em Famalicão e estará patente até 28 de Abril de 2019. Cito a informação do Museu: «Esta exposição resulta de um projecto de reconstituição de 40 anos de Prisões Políticas do Estado Novo, uma missão fotográfica levada a cabo por Pedro Medeiros entre 1999 e 2005 no Tarrafal, “Colónia Penal do Tarrafal”, denominada “Campo da Morte Lenta”, na Prisão Forte de Peniche, na Cadeia do Aljube, na Prisão Forte de Caxias, na Sede da PVDE – PIDE/DGS de Lisboa (António Maria Cardoso), na Sede da PIDE-DGS de Coimbra e na Sede da PIDE-DGS do Porto. A intenção de realizar uma leitura actual destes locais é uma resposta à interrogação sobre a circunstância do tempo presente e um compromisso com a história como legado para o futuro. Esta é uma viagem pelas marcas da memória que persistem no espírito e voz interior destes lugares

Uma bela exposição em Lisboa: Maria Antónia Siza na Colecção Moderna da Gulbenkian

A Fundação Calouste Gulbenkian informa-nos que «trinta e seis obras de Maria Antónia Siza, artista que desapareceu prematuramente aos 32 anos de idade, estão actualmente expostas na Colecção Moderna da Fundação Gulbenkian. Estas são apenas algumas das mais de cem obras – desenhos a tinta-da-China, guaches, estudos e bordados – doadas pelo arquitecto Álvaro Siza Vieira à Fundação Calouste Gulbenkian e que fazem agora parte do acervo do Museu.» Maria Antónia Siza era uma excelente desenhadora. Não perca esta exposição.

Shakespeare tem mês cheio no CCB

Neste Abril Shakespeare está em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB). Confira a rica programação do CCB (música teatro, sessões para a infância) e faça a sua escolha.

Depois de o Teatro Praga ter apresentado, de 6 a 8 de Abril, o espectáculo Timão de Atenas, prossegue o curso sobre William Shakespeare «Not Wisely, But Too Well», pela professora de teatro e especialista em Shakespeare, Maria Sequeira Mendes. Depois de «Ciúme», «Sinceridade», «Lisonja» e «Ambição» (a 6 de Abril), o curso encerra sob o signo do tema «Amor». É no dia 13 de Abril, sábado, às 11h30, na Sala Maria Helena Vieira da Silva (e não na Sala Sophia de Mello Breyner Andresen, como inicialmente previsto).

No dia 25 de Abril, o CCB celebra o dia da Liberdade com vários espectáculos que marcam a abertura do festival «Dias da Música em Belém». Às 16h, o leitor terá de fazer escolhas. No Pequeno Auditório poderá optar por assistir à mini-ópera Vénus e Adónis, de John Blow (1649-1708), interpretada – na língua de Shakespeare – pelo Atelier de Ópera e pela Orquestra Jovem de Cordas. A peça, levada à cena pela primeira vez em em 1683 na corte de Carlos II de Inglaterra – casado com Catarina de Bragança, como lembra o texto de apresentação do CCB – relaciona-se com o dramaturgo elizabetiano através do seu tema. O mito de Vénus e Adónis inspirou Shakespeare a escrever o poema longo com o mesmo nome, publicado em 1593, naquela que é considerada a estreia literária do autorNa sala Luís de Freitas Branco, à mesma hora, será apresentada, além da Sinfonia n.º 40 em Sol menor, de Mozart, a abertura de Oberon, ópera romântica de Carl Maria von Weber (1786-1826), interpretada pela Orquestra da Escola de Música do Colégio Moderno e pela Escola da Banda de Música de Antas-Esposende, sob direcção musical de Diogo Costa. Oberon, rei dos elfos na literatura de gesta medieval, surge como personagem da conhecida peça Sonho de uma noite de Verão, de Shakespeare, como o rei consorte de Titânia, a rainha das fadas.

Às 18h, no Grande Auditório, a Orquestra do Festival (constituída por alunos seleccionados de três orquestras sinfónicas juvenis: a OJ.COM, a Orquestra Sinfónica Ensemble e a Orquestra Sinfónica APROARTE) ataca a abertura do Sonho de uma Noite de Verão, op. 61, de Felix Mendelssohn-Bartholdy, inspirada na peça homónima de Shakespeare. O director musical Cesário Costa explica que aquela «foi escrita em 1826, tinha Mendelssohn 17 anos, a idade de muitos dos jovens músicos que formam a Orquestra do Festival. Dezasseis anos mais tarde, em 1842, a convite de Frederico Guilherme VI, Rei da Prússia, escreveu a música de cena para a mesma peça, incluindo a abertura anteriormente escrita, reutilizando o mesmo material temático, acrescentando fragmentos corais e orquestrais para acompanhar e sublinhar a acção cénica do drama».

A 26 de Abril é a vez escutarmos Berlioz inspirado por Shakespeare. Hector Berlioz (1803-1869)3, escreve Rui Campos Leitão no programa do CCB, «nunca escondeu a sua devoção por Shakespeare, implicando-a com igual fervor em projectos artísticos e na própria vida pessoal»4. Às 21h, no Grande Auditório, a Orquestra Sinfónica Metropolitana interpreta Tristia, op. 18 e Lélio, ou O Regresso à Vida, monodrama lírico, op. 14Bis. Da primeira, refere o programa, poderá o leitor/a «ouvir A morte de Ofélia e uma Marcha fúnebre para a última cena de Hamlet; a segunda, cuja narrativa «tem início após o “Sonho de uma noite de Sabbath”, o final da Sinfonia Fantástica», recupera para o efeito «um conjunto de peças compostas anteriormente, entre as quais uma Fantasia para vozes e orquestra inspirada n’A Tempestade.

Oberon, Titânia e Puck dançando com as fadas. Personagens da peça de William Shakespeare, «Sonho de uma noite de Verão». Aguarela e grafite sobre papel. William Blake, c. 1776 CréditosTate Gallery, Reino Unido / Wikimedia Commons

Shakespeare para os mais jovens

Os mais jovens não foram esquecidos na programação do CCB. A 27 e a 28 de Abril, na sala Glicínia Quartim, respectivamente às 13h15, 15h30 e 17h30, no primeiro dia, e às 13h15, 15h00 e 16h30, no segundo, haverá um «Concerto para Bebés – O colinho da rainha», projecto da Escola Superior de Música de Lisboa e da Douda Correria Associação Cultural. Escreve-se no programa: «Uma cantora, inspirada na figura da rainha Isabel I – patrona de W. Shakespeare e de muitos compositores e poetas –, acompanhada dos seus músicos, faz um pequeno concerto de canções no tempo de Shakespeare (música de John Dowland e William Byrd)».

Nos mesmos dias mas a outras horas – 14h30 e 16h15, no primeiro dia, 14h00 e 15h45, no dia seguinte – e noutro espaço, a sala Fernando Pessoa, a Escola Superior de Música de Lisboa e a Douda Correria Associação Cultural apresentam outra proposta cultural: «E comparar-te a um dia de verão – Música no tempo de Shakespeare». Os mais pequenos e os seus acompanhantes ouvirão música de Thomas Morley, John Dowland, William Byrd, John Wilbye e Antony Holborne. Diz o programa que «oito músicos-instrumentistas/cantores e dois actores/leitores fazem um concerto de música composta no tempo de Shakespeare com leitura de textos partir dos sonetos de William Shakespeare e de algumas das suas peças intemporais sobre a poética e a música, a paixão e a criatividade».

No dia 27 de Abril, ainda, uma nota para a estreia mundial de uma peça musical encomendada pelo CCB para os «Dias da Música em Belém». Trata-de de Rei Lear - A partir da tragédia de William Shakespeare, uma adaptação para cena por Alexandre Delgado e Sara Barros Leitão a partir da bela tradução de Álvaro Cunhal da clássica obra de Shakespeare. A música é de Alexandre Delgado, a encenação de Sara Barros Leitão e a interpretação musical estará a cargo dos Toy Ensemble. No programa do CCB Sara Barros Leitão escreve: «um clássico é o que fica quando o tempo passa, a obra que resiste aos anos, aos séculos, e que continua eternamente a ser lida, feita, interpretada. É frequente dizermos que os clássicos são actuais. São-no porque, independentemente do tempo, a obra actua em nós. Em mim, no outro, na sociedade, no colectivo». E termina, linhas abaixo: «afinal, se tudo isto resistiu ao tempo, hoje fazemos Lear para nos lembrar de pensar primeiro no outro do que em nós. Para nos lembrar de ter tempo para a paciência e compaixão». É às 15h, no Pequeno Auditório, para pequenos e grandes – imperdível, diríamos.

Wagner: o Parsifal no Coliseu do Porto e no São Carlos; Ligeti e muito mais na Casa da Música

Cito informação útil do Coliseu do Porto: o Coliseu «em coprodução com o Teatro Nacional de São Carlos, apresenta Parsifal, a derradeira obra de Richard Wagner. A versão de concerto (excertos do I ato e III ato completo) acontece na próxima sexta-feira, 12 de abril, três dias antes de se apresentar em Lisboa, e será interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos.

Já sabe: depois, este espectáculo wagneriano segue para Lisboa, para o Teatro Nacional de São Carlos.A obra narra a demanda do Santo Graal por Parsifal, um dos cavaleiros do mítico Rei Artur. Richard Wagner concebeu-a em abril de 1857, completando-a apenas 20 anos mais tarde. Devido ao seu simbolismo declaradamente cristão, cujo epílogo decorre numa Sexta-Feira Santa, Wagner descreveu Parsifal não como uma ópera, mas como uma «Representação Teatral Sacro-Festiva» que remete para a época de Páscoa que se aproxima. O tenor Erin Cave encarnará Parsifal5Michael Kraus dará voz a Amfortas, Ante Jerkunica será Gurnemanz e Sónia Alcobaça interpretará Kundry. A conduzir Parsifal estará o maestro Graeme Jenkins, que já colaborou com a Royal Opera House.»

Schubert, György Ligeti… Mas também Bebel Gilberto e várias propostas na área do jazz – são muitas as ofertas do belo programa de Abril da Casa da Música, no Porto, com destaque para o ciclo «Música & Revolução», dedicado a Ligeti. Confira a programação deste mês em que se celebra a Revolução e em que a música também pode ser uma festa.

Festa do Cinema Italiano e retrospectiva de Nanni Moretti

Em matéria cinematográfica, o ponto alto é a belíssima Festa do Cinema Italiano, a decorrer em vários locais do país. Consulte a programação, sem esquecer que um dos destaques é a retrospectiva completa de Nanni Moretti, com a colaboração da Cinemateca Portuguesa.

Imagem de «La paranza dei bambini». O filme, baseado no primeiro romance do jornalista Roberto Saviano, venceu em Fevereiro de 2019 o prémio de melhor argumento do Festival de Cinema de Berlim.

Além de Lisboa, a Festa do Cinema Italiano decorre em mais dezoito localidades portuguesas: Coimbra (9 a 11 de Abril), Almada (10 a 13 de Abril), Porto (10 a 14 de Abril), Setúbal (11 a 14 de Abril), Alverca do Ribatejo (12 e 13 de Abril), Penafiel (13 e 14 de Abril), Moscavide (13 e 14 de Abril), Aveiro (15 e 16 de Abril).

As restantes sessões estão agendadas para Maio e delas daremos notícias mais detalhadas no roteiro do próximo mês: Viseu (1 a 3 de Maio), Abrantes (1, 8 e 15 de Maio), Beja (7 a 9 de Maio), Caldas da Rainha (8 a 10 de Maio), Évora (14 a 17 de Maio), Tomar (14 a 18 de Maio), Loulé (23 a 26 de Maio).

Aguarda-se a marcação de datas para as localidades de Funchal, Angra do Heroísmo e Santa Cruz da Graciosa.

Entretanto, leitor, deixo-o com o trailer de Santiago, Itália (2018), o mais recente filme de Moretti, estreado em Novembro de 2018 no Festival de Cinema de Turim, que marca o regresso do actor e realizador ao documentário político, desta vez para retratar a operação de salvamento de 250 chilenos refugiados na embaixada italiana em Santiago a seguir ao golpe de estado do fascista Pinochet.

Davide Turrini, que o entrevista para a revista do jornal Il Fatto Quotidiano, em 30 de Novembro de 2018, introduz brevemente o guião do filme: «Em frente à câmara está gente comum, falam pessoas que viveram o sonho da Unidade Popular (comunistas, socialistas, católicos) de Salvador Allende, o horror imediato da sanguinária ditadura de Pinochet e, mais tarde, o asílio político e a continuação da vida em Itália. Operários, empregados, vereadores municipais, empresários, jornalistas», então ainda jovens que, clandestinamente, saltaram os não muito altos muros da «embaixada italiana em Santiago [do Chile] nas semanas que se seguiram ao dia 11 de Setembro de 1973» .

E a 25 de Abril, lá nos encontramos, não é leitor/a? Sim, na rua, como sempre. Contra o regresso do fascismo e com vivas à liberdade.

  • 1. Uma bibliografia extensa, embora um pouco desactualizada, encontra-se na Wikipédia.
  • 2. A editora Assírio & Alvim proporciona a leitura de um extracto do livro.
  • 3. O leitor interessado na obra de Berlioz poderá ter interesse em conhecer um portal que lhe é inteiramente dedicado.
  • 4. Berlioz «tinha 24 anos de idade, quando, em 1827, uma companhia teatral britânica representou no Odéon de Paris A Tragédia de Hamlet, com Henrietta Smithson no papel de Ofélia». Ora o nosso compositor não só «se rendeu ao sublime poder dramático de Shakespeare» como «se apaixonou perdidamente pela actriz irlandesa», escreve Rui Campos Leitão. Segundo o biógrafo inglês de Henrietta (ou Harriett, no seu nome original), Peter Raby, Berlioz «persistiu em escrever-lhe, apesar de não a ter encontrado pessoalmente» e, «durante um breve período», terá vivido «num apartamento de onde podia espreitar o seu regresso a casa e olhá-la até ela se deitar». Façamos um breve intervalo para deixar o compositor deslocar-se a Itália, onde se sucessivamente se candidata ao Prémio Roma (deste «maldito concurso», como o descreveu à irmã, esperava o reconhecimento oficial: «um diploma, um título e cinco anos de independência»), até acabar por recebê-lo à terceira tentativa, em 1830, com a cantata Sardanapalo. Em 1832 regressa a Paris trazendo no bolso a Sinfonia Fantástica, episódio da vida de um artista, op. 14, um êxito imediato, e o monodrama lírico Lélio, ou O Regresso à Vida, op 14bis. Mas devolvamos a palavra a Rui Campos Leitão, que prossegue: «já em 1832, recém-regressado de Itália, programou um concerto com a Sinfonia Fantástica e o monodrama lírico O Regresso à Vida». Depois de ter conseguido que a actriz assistisse ao espectáculo, convidada por um amigo de Berlioz a pedido deste, Henrietta reconhece nas personagens e enredos de ambas as obras – «repletas de evocações autobiográficas explícitas», sobretudo «na narrativa da segunda» – «a afeição amorosa» deste «durante cinco anos». Henrietta decide aceitar o amor de Berlioz e esposa-o em Outubro de 1833. Em Agosto de 1834 nasce o filho de ambos, Louis Berlioz, e se, como se escreve no programa do CCB, «o casamento não foi feliz», a nova devoção amorosa de Hector, iniciada oito anos depois, não o impediu de continuar a cuidar de Henrietta até ao final da vida desta e mesmo para além da morte: sepultada em 1854 no cemitério de São Vicente, em Montmartre, os seus restos mortais são transferidos em 1864 para um túmulo no novo cemitério de Montmartre, onde se reunirão aos corpos da cantora Marie Recio, segunda esposa do compositor, falecida em 1862, e do próprio Berlioz, que virá a falecer em 1869.
  • 5. Erin Cave tem encarnado Parsifal também no formato operático da obra. Veja aqui e escute um trailer aqui.

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