É a terceira deslocação a Lisboa

Soares da Costa: trabalhadores no limite continuam a protestar

A situação dos trabalhadores é cada vez mais dramática: os salários e subsídios podem chegar aos dez meses de atraso. As acções de protesto continuam com persistência e a empresa não dá respostas.

Protesto dos trabalhadores da Soares da Costa, Lisboa, 4 de Agosto de 2016
Protesto dos trabalhadores da Soares da Costa, Lisboa, 4 de Agosto de 2016CréditosPatrícia Carrasco

Uma das diferenças relativamente à última acção de protesto dos trabalhadores da construtora Soares da Costa em Lisboa é que já existe mais um mês de salários em atraso, juntamente com o subsídio de férias. Continuam a não ser dadas respostas concretas para a resolução da situação.

Uma delegação de representantes dos trabalhadores reuniu com um adjunto do ministro da Economia e depois com a administração da empresa, ao mesmo tempo que se realizavam concentrações (no Largo Camões e posteriormente na sede da empresa) com mais de uma centena de trabalhadores que se deslocaram à capital.

A situação de atrasos nos salários e subsídios de trabalhadores que laboram em Portugal, Angola e Moçambique, que podem ir hoje dos quatro aos dez meses, continua a ser um problema presente, com consequências cada vez mais graves para as famílias. Está também em causa a defesa dos postos de trabalho, num contexto em que a empresa estará a averiguar a viabilidade para continuar.

Os representantes dos trabalhadores apelaram hoje ao Governo para que intervenha junto da administração da construtora, para agilizar o processo de pagamento dos salários em atraso.

«A situação de atrasos nos salários e subsídios de trabalhadores que laboram em Portugal, Angola e Moçambique, que podem ir hoje dos quatro aos dez meses, continua»

«Dissemos da nossa indignação e apelámos ao Governo para que intervenha junto da empresa. Há aqui boas intenções de contacto com outros ministérios que também estão envolvidos neste problema. Ficou aqui a premissa que vão entrar em contacto junto dos seus colegas ainda hoje para apurar a questão», declarou à Lusa José Martins, da Comissão de Trabalhadores.

A administração havia afirmado que a resposta às pretensões dos trabalhadores estava dependente do resultado da auditoria pedida pelos três maiores credores da construtora – todos eles instituições bancárias – que iria verificar se a empresa tem a viabilidade necessária. No entanto, segundo revelou José Martins aos trabalhadores no fim da reunião, a resposta «foi uma mão cheia de nada».

O representante dos trabalhadores informou que a empresa continua a utilizar o argumento de «dificuldades de transporte de dinheiro de Angola para cá» e o início de alguns problemas também em Moçambique. Foi informado que a auditoria continua, que amanhã haverá uma reunião importante da administração no que diz respeito à questão, e que posteriormente reunirá (ainda amanhã) com a Comissão de Trabalhadores para novas informações.

Uma situação que se torna cada vez mais insustentável

Luís Pinto, do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Actividades do Ambiente do Norte (SITE-Norte), afirma ao AbrilAbril que a situação dos trabalhadores é dramática, e que «já chegou mesmo a um limite», relatando casos de trabalhadores que já não têm condições de pagar a luz ou a renda de casa. No entanto, afirma que é «com grande determinação e sacrifício» que estão dispostos a continuar esta luta.

Vão fazer 43 anos que Abílio Bártolo trabalha na Soares da Costa, e hoje revela-nos que se encontra com quatro meses de salários em atraso. Denuncia que a empresa «dá o dito pelo não dito», prometendo respostas aos trabalhadores que depois não chegam. Estes «vão aguentando», e as acções são para continuar. «Se começámos, temos que acabar», afirmou.

Para Manuel Almeida, trabalhador da construtora à 42 anos, o objectivo da empresa é «cansar os trabalhadores» pelos salários em atraso, empurrando-os para a suspensão de contrato para não pagarem salários.

Durante a acção, ouviam-se os trabalhadores a entoar palavras de ordem como «assim não pode ser, trabalhar sem receber», «a luta continua, na empresa e na rua» ou «está na hora, está na hora, dos salários cá para fora».