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«Os estafetas são tão invisíveis como o vírus»

Dos vários sectores que não param, apesar do surto epidémico, o das entregas ao domicílio será dos poucos a dele beneficiar realmente. Os estafetas, esses, vivem na incerteza.

Créditos / AbrilAbril

O AbrilAbril falou com três estafetas da Glovo para conhecer a realidade daqueles que têm levado a casa de milhares de pessoas produtos alimentares e outros bens, num ritmo de deslocações em crescendo desde que recomendado o isolamento social.

Compram a mochila, compram a moto, compram a máscara

«Os clientes pedem para deixar na porta, no chão, estão receosos de pegar nas mochilas, evitam tocar em dinheiro, tanto que muitos separam dinheiro certo para nos dar», disse Leo, que apesar disso admite não ter chegado qualquer equipamento de protecção através da empresa.

Assim, as máscaras, luvas e desinfectantes que, de modo geral, todos passaram a usar ficam a cargo de cada um. A empresa, por sua vez, tem enviado e-mails com «dicas» e «conselhos» para prevenir os trabalhadores.

O aumento da procura é exponencial, mas as características dos pedidos têm mudado. «Tenho reparado que quem tem pedido mais refeições através da aplicação são pessoas com maior poder aquisitivo. Já as que têm menos recursos pedem as compras de supermercado», referiu o estafeta.

Também Cleosmar corrobora esta alteração de perfil: «O valor e a frequência das gorjetas aumentou muito, porque houve uma mudança de estatuto e a maior parte das encomendas são feitas por clientes com uma condição social um pouco mais alta.»

Para este trabalhador, é evidente que, «sem saber quanto tempo esta situação vai durar», os que têm menor poder económico não podem gastar somas desta importância com frequência. «É simples: se a tua condição económica te permitir e se consideras que é o melhor para ti, esta é uma solução para te manteres isolado. Se não tens capacidade, tens que ir para as filas dos supermercados, como as outras pessoas», afirmou.

Trabalhar mais a antecipar a crise e a doença

Laura confessa que tem trabalhado mais do que o habitual, por volta das 11 horas diárias – o máximo permitido. «Eu tenho avaliação máxima, por isso posso escolher quantas horas quero trabalhar por dia e em que horário», explicou, acrescentando que, como não é certo que as pessoas continuem a comprar, tem que aproveitar agora o aumento da procura.

«Têm falado muito da crise económica que virá depois e, em períodos de crise, as pessoas cortam nestas coisas. Para além do mais, muitos trabalhadores já estão a ser despedidos, outros a ficar em casa com os filhos sem poder trabalhar, por isso esta situação pode não durar muito mais tempo», disse a estafeta.

Leo concorda que é tempo de «fazer uma reserva». O estafeta, que mora com outros dois trabalhadores da Glovo, diz que estão todos a trabalhar mais do que o normal. «O movimento está muito bom, a empresa deve estar a lucrar muito, mas se deixarmos de trabalhar deixamos de ganhar», lembrou.

É o que pode acontecer se ficarem também eles doentes. «Não temos qualquer protecção na doença», sublinhou Cleosmar, que admitiu a preocupação em relação à situação de pandemia. «As pessoas estão em isolamento e nós somos o elo que pode transmitir o vírus por aí, temos que ter essa consciência e ter precauções», sublinhou, «mas a pessoa recebe os produtos em casa, e nunca mais nos vai ver, nunca saberá se depois ficámos infectados, se tivemos que deixar de trabalhar e ficar sem rendimentos. Somos um pouco invisíveis, como o vírus», disse.

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