|Rui Pereira

O burro e a morte

O problema desloca-se da militância e da dissidência partidária de Carlos Brito, para a palinódia em que a trajectória de qualquer defecção pode tornar-se, excepto se for noutras forças políticas onde será tomada como «sã divergência democrática».

CréditosPedro Alpendre

A mais recente operação política anti-PCP – ainda em curso – tem como pretexto a posição do partido em relação à morte aos 93 anos de Carlos Brito, um seu antigo destacado dirigente e dissidente. Uma nota lacónica, ao que parece a pedido da «comunicação social», incendiou a pradaria anti-comunista em geral e anti-PCP em particular.

Carlos Brito foi um entre muitas e muitas dezenas de grandes quadros dirigentes do PCP que enfrentaram a clandestinidade, que sofreram a prisão e a tortura às mãos da polícia política da ditadura. Foi, como todos esses seus camaradas, um grande lutador pela liberdade e pela democracia. Então e durante décadas após Abril, ao serviço do mesmo PCP cujas regras e concepções  próprias de liberdade e democracia ajudou a formular e fixar. Depois de se incompatibilizar com essas regras e concepções fez o que melhor entendeu, como sempre até aí, com coragem, determinação, sem quebras éticas que se lhe apontem (pelo menos tanto quanto eu saiba).

Enquanto dirigente do PCP, Carlos Brito foi objecto de todas as maledicências reservadas pelos adversários políticos a tudo quanto mexesse – e a tudo quanto permaneça – na área política do seu partido, quer em nome da «direita», quer em nome da «esquerda». Uma vez afastado do PCP, Carlos Brito foi transformado num mártir do «comunismo» e num estimável democrata e lutador pela liberdade, condição que os seus antigos camaradas que permaneceram no partido não mereceram e não merecem, nem que morram.

Assim, o problema desloca-se da militância e da dissidência partidária de Carlos Brito, para a palinódia em que a trajectória de qualquer defecção pode tornar-se, excepto se for noutras forças políticas onde será tomada como «sã divergência democrática». Este é um assunto sensível, que qualquer membro ou ex-membro do PCP não ignora: «Comunista bom é comunista morto», é um universal conhecido desde o século XIX. E em Portugal, comunista «bom» é aquele que sai do PCP de uma forma pública e notória. Seja pela notoriedade que tinha enquanto membro, seja pela notoriedade que procurou enquanto ex-membro.

Carlos Brito, que respeito muito e conheci pouco, tendo embora lido com atenção a sua obra política, foi um notório dirigente comunista. O seu afastamento dificilmente poderia ser discreto. Mais que não fosse pela transformação oportunista desse afastamento no pretexto trivial para atacar os que não se afastaram e o próprio partido.

«Todos os que enfrentaram a ditadura como o fez Carlos Brito, e de que o PCP esteve repleto, e de que restam ainda muitos, não se vêem homenageados, mas vilipendiados. O que se homenageia hipocritamente em Carlos Brito não é, pois, o seu longo combate pela liberdade e pela democracia, dentro ou fora do PCP, mas a sua saída do PCP.»

 

Todos os «profanados» pelo laconismo do PCP sobre a morte de Carlos Brito – sobretudo os adversários do PCP – sabem perfeitamente que não estão a honrar os méritos da figura de Carlos Brito, mas a atacar os deméritos que apontam ao seu antigo partido e a todas as figuras suas homólogas que nele permaneceram e permanecem. Todos os que enfrentaram a ditadura como o fez Carlos Brito, e de que o PCP esteve repleto, e de que restam ainda muitos, não se vêem homenageados, mas vilipendiados. O que se homenageia hipocritamente em Carlos Brito não é, pois, o seu longo combate pela liberdade e pela democracia, dentro ou fora do PCP, mas a sua saída do PCP. Não para honrar Brito, mas para atacar o seu antigo partido. E isto é mesquinhez da pior. À direita e à esquerda. Do pouco que conheci de Carlos Brito, não creio que ele apreciasse a coisa. Mas, como político experiente que era, também não creio que não a adivinhasse.

Talvez por isso, valha a pena invocar nesta ocasião de festim, o poema «Fim», de Mário de Sá Carneiro, pensando na gente que há dentro do PCP, gente ao lado da qual Carlos Brito esteve nas prisões, nas calúnias públicas, nas ruas, na chacota parlamentar ou na dureza da clandestinidade. Gente certamente que um dia morrerá sem que, porque se manteve no PCP, soem as trombetas das almas mais sensíveis do reino.

 

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!...

Mário de Sá-Carneiro

Texto publicado originalmente na página do Facebook do autor

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