A disputa da memória é parte integrante da batalha que os democratas têm que travar. A questão é que não são só os democratas que a travam, os sectores anti-democráticos, sedentos por um ajuste de contas com a história, também levam a cabo essa luta, não no sentido de a preservar, mas sim de a apagar, desfigurar ou transformar.
Apagar ou alterar a memória colectiva é condição determinante para a direita levar a cabo o seu projecto de classe. Ao controlar o aparelho de poder, sectores reaccionários procuram impor uma visão alternativa da história de forma a disseminar as suas ideias. Além da falsificação e do branqueamento, o ataque à simbologia dos espaços é pedra angular desse objectivo.
Veja-se o caso do Forte de Peniche. Um e-governo quis concessionar edifícios históricos ao sector privado, entre eles a antiga prisão do fascismo. Por essa prisão passaram vários resistentes antifascistas, que além de enclausurados foram barbaramente torturados por lutarem pela liberdade e pela democracia. Por que razão quis o ex-governo transformá-lo num hotel?
Veja-se também o caso da antiga sede da PIDE localizada na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Escusado será dizer o que representava o edifício e que tipo de tratamento seria necessário dar ao espaço de forma a explicar o que lá se passou. O que fez o PSD e Carmona Rodrigues, o seu presidente da Câmara Municipal? Vendeu-o ao sector privado para que este o pudesse transformar num condomínio de luxo.
Estes são dois casos com fins diferentes, mas cujos objectivos foram semelhantes. No caso do Forte de Peniche, através da luta, foi possível travar a venda, após a queda do Governo PSD/CDS-PP/Troika, e transformá-lo no Museu Nacional Resistência e Liberdade.
Também no ano passado foi possível dar mais um passo no tratamento da memória colectiva. O PCP aprovou na Assembleia da República, com os votos favoráveis do PS, Libre, BE, PAN e JPP; a abstenção do PSD e IL; e votos contra do Chega e do CDS-PP, um Projecto de Resolução para a criação do Museu da Resistência Antifascista no Porto, no edifício da Rua do Heroísmo, onde funcionou a delegação da PIDE na cidade.
Esta votação foi bastante reveladora e podemos transpor para actualidade. É que são precisamente os partidos que se abstiveram e votaram contra a criação de um Museu da Resistência Antifascista no Porto que, em Lisboa, levaram a cabo uma purga na direcção do Museu do Aljube - Resistência e Liberdade.
E a questão é: porquê? Rita Rato iniciou funções em 2020 e foi reconduzida ao cargo em 2023. À data, a EGEAC afirmou que a recondução devia-se ao facto de os números de visitantes em 2022 terem sido «os melhores de sempre no Museu do Aljube». Veja-se que até pessoas críticas aquando a ex-deputada do PCP venceu o concurso para a direcção do museu, como Irene Pimentel, reconhecem o trabalho desenvolvido.
Ao Público, a historiadora disse fazer um «balanço positivo» do trabalho levado a cabo e que Rita Rato, «de certa forma, conseguiu — e essa era uma ambição dela desde o início — fazer com que o museu fosse mais visitado por pessoas mais novas, pessoas em idade escolar». «Não há dúvida de que hoje o Museu do Aljube está entrosado com a sociedade», disse também, num elogio ao dinamismo que, ao longo dos seus dois mandatos deu à instituição.
O que sabemos para já é que há um silêncio ensurdecedor. Contactada pela comunicação social, a EGEAC recusa comentar por que razão afastou Rita Rato do cargo e nomeou uma outra no dia seguinte. Também Carlos Moedas recusa dizer se está a fazer um favor ao Chega. Sabemos uma outra coisa. A direita vive mal como a preservação da memória e com a denúncia do que é o fascismo, especialmente quando esta é bem feita.
É possível que haja uma direita que não tenha gostado da direcção do Museu do Aljube. Talvez preferisse outra. É possível que lhe tivesse agradado mais a direcção de há mais de 50 anos e, para essa direita, o problema é que essa foi derrotada.
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