|Argentina

No meio de forte contestação, a reforma laboral de Milei avança

O bloco dos libertários conseguiu juntar 135 votos a favor (contra 115) da reforma laboral que tritura os direitos dos trabalhadores argentinos. Como houve alterações, o projecto regressa ao Senado.

Milhares de trabalhadores mobilizaram-se em todo o país austral em dia de greve geral contra a reforma laboral de Milei CréditosEduardo Sarapura / Tiempo Argentino

O bloco mileísta tem pressa em fazer avançar a aprovação da reforma, antes de 28 do corrente, para que o presidente argentino possa apresentar o seu «triunfo» no Congresso ao inaugurar a nova legislatura.

Por isso, as comissões encarregues de tratar o projecto trabalham a todo o vapor, após a aprovação de uma versão alterada na Câmara dos Deputados, numa sessão que durou quase 12 horas, entre quinta-feira e sexta-feira de madrugada, em que a oposição ficou com os discursos e os libertários com os votos – destacou a jornalista do Tiempo Argentino que acompanhou o debate.

Fora do Congresso, a contestação foi enorme – em Buenos Aires e por toda a Argentina –, ao longo de uma quinta-feira estival e muito quente, com o povo a bater em tachos e panelas nos bairros, mobilizações nas ruas (convocadas por uma parte do movimento sindical), muita repressão da parte das forças policiais (mais uma vez) e avenidas sem o movimento do costume, dada a elevada adesão à greve geral (confirmada pela CGT e pela Frente Sindical).

No Congresso, os discursos da oposição foram contundentes nas críticas ao projecto que acaba com os estatutos profissionais, estabelece os bancos de horas, determina que as férias tenham de ser tiradas entre Outubro e Abril, altera o cálculo das indemnizações por despedimento, abre as portas à privatização da segurança social, entre outros aspectos denunciados pelas estruturas sindicais.

Natalia de la Sota, do bloco Defendamos Córdoba, disse que «esta lei legaliza a precarização laboral» e que, «longe de fomentar o emprego, baixa os salários e elimina direitos laborais».

Pela Unión por la Patria, Máximo Kirchner disse que o projecto de lei «vai sujeitar os jovens aos empresários e patrões de turno», e alertou que os patrões passam a ter «muito mais poder sobre os trabalhadores, permitindo despedi-los e destruir os seus salários e poder de compra».

Povo nas ruas a desafiar as ameaças

Enquanto os deputados discursavam num Congresso que mais parecia uma jaula – tal o dispositivo e tal o espectáculo que os libertários voltaram a montar em seu redor –, uma maré de trabalhadores atreveu-se a desafiar as ameaças da ministra da Segurança Nacional, Alejandra Monteoliva a quem metesse um pé na rua se não fosse para «produzir».

Mesmo com o gás pimenta e os canhões de água, operários, professores, estudantes, reformados gritaram muito em defesa dos direitos conquistados e também discursaram para quem os quis ouvir.

Susana, enfermeira de Avellaneda com mil turnos em cima, falou com revolta dos direitos que lhe querem tirar. «É uma vergonha. Todos os trabalhadores deviam estar aqui. O Milei está a roubar as nossas conquistas na nossa cara», disse.

Pablo González, delegado sindical dos metalúrgicos, sublinhou que «esta lei é a certidão de óbito da indústria nacional; eles querem que nos tornemos mão-de-obra barata».

Também ao Tiempo Argentino, Héctor, um operário da construção civil reformado, disse que a «modernização» de que o governo fala é um retrocesso esclavagista: «Moderno era quando se podia trabalhar e comer bem, quando se podia construir a casa e ainda ter dinheiro para as férias. Agora, vendem-nos o direito a ser pobres como se fosse liberdade.»

Greve geral com enorme adesão

A mobilização nas ruas foi convocada pela Frente Sindical, estrutura que engloba mais de cem organizações de defesa dos direitos dos trabalhadores, e contou também com a participação de alguns sindicatos filiados na Confederação Geral do Trabalho (CGT), que não acataram a indicação do seu conselho directivo (de ficar em casa).

Frente Sindical e CGT deram conferências de imprensa distintas sobre a jornada de luta. A CGT informou que a adesão à greve geral rondava os 95% e fez um balanço muito positivo.

Dirigentes da central sindical voltaram a defender a linha de «paz social» como «responsabilidade» num contexto de ataque generalizado e brutal aos direitos dos trabalhadores: destruição de postos de trabalho, aumento da pobreza, roubo de direitos conquistados, ruptura do tecido social e produtivo.

Também destacaram a elevada adesão à greve geral como um sinal de distanciamento entre «a realidade» e aquilo que o governo argentino defende, acrescentando que a CGT não está disposta a perder nenhuma das conquistas duramente alcançadas pelos trabalhadores.

O tempo dirá onde cada qual esteve neste momento «histórico»

Por seu lado, a Frente Sindical, que deu uma conferência de imprensa na sede da associação Mães da Praça de Maio, congratulou-se com a elevada adesão à greve, destacou a importância da mobilização nas ruas e a necessidade de intensificar a luta.

Entre críticas ao posicionamento «dialoguista» da CGT com «um governo de delinquentes que entende a criminalidade dos seus actos», vários dirigentes sindicais alertaram para as manobras dos libertários.

Rodolfo Aguiar, dirigente da função pública (ATE), afirmou que a nova legislação «é péssima de cabo a rabo», sublinhou que os trabalhadores estão a enfrentar desafios «históricos» e que o tempo irá dizer onde cada qual esteve.

Tópico

Contribui para uma boa ideia

Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.

O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.

Contribui aqui