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MPPM: avanço da anexação da Cisjordânia foi premeditada

O MPPM emitiu um comunicado no qual denuncia o que classifica como uma aceleração «sistemática e planeada» do processo de anexação da Cisjordânia por Israel. A organização alerta que, enquanto os holofotes internacionais permanecem focados na Faixa de Gaza, Israel viola o direito internacional.

Criança palestiniana sobre os escombros de um prédio demolido pelo Exército israelita. 3 de Outubro de 2019, Beit Ummar, Cisjordânia ocupada, Palestina
CréditosAbed Al Hashlamoun

O Governo israelita está a aproveitar a conjuntura para avançar com um pacote legislativo e administrativo que visa consolidar o controlo total sobre o território ocupado, enterrando definitivamente os Acordos de Oslo e inviabilizando a criação de um Estado da Palestina viável, afirma o Movimento pelos Direitos do Povo Palestiniano e pela Paz no Médio Oriente (MPPM).

De acordo com a estrutura, as recentes decisões do Gabinete de Segurança israelita e as votações preliminares no Knesset (Parlamento israelita) revelam uma estratégia clara para alargar a soberania israelita. Entre as medidas mais gravosas, o comunicado destaca a expansão da fiscalização israelita nas áreas A e B, que pelos acordos internacionais deveriam estar sob administração civil palestiniano, permitindo agora a Israel controlar recursos vitais como a água e sítios arqueológicos. 

Paralelamente, a revogação da lei jordana que proibia a venda de terras a não-árabes abre caminho para que colonos adquiram propriedades privadas diretamente, num movimento que a organização classifica como «apropriação legalizada» de terras palestinianas.

A organização mostra-se particularmente preocupada com o que descreve como um «assalto à identidade histórica palestiniana». A transferência do controlo de locais sensíveis, como o complexo da mesquita Bilal bin Rabah, em Belém, e a expropriação de 200 hectares em Sebastia, a maior alguma vez feita sob o pretexto de interesse arqueológico, são vistos como instrumentos para o «apagamento da história e do património cultural palestiniano». Para o MPPM, estas acções visam alimentar uma narrativa histórica israelita que justifica a ocupação, ao mesmo tempo que facilita a tomada de controlo de mais território.

O comunicado sublinha ainda a expansão sem precedentes dos colonatos. Dados da organização israelita Peace Now, citados pelo MPPM, indicam que só em 2025 foram aprovados 41 novos colonatos, num total de 68 nos últimos três anos. Projectos como o desenvolvimento da área E1, a leste de Jerusalém, e a construção de milhares de novas unidades habitacionais perto do colonato de Geva Binyamin ameaçam dividir a Cisjordânia em duas, fragmentando qualquer continuidade territorial para um futuro Estado palestiniano e inviabilizando a contiguidade entre cidades como Ramala, Belém e Jerusalém Oriental.

O MPPM recorda que, só desde o início de 2026, mais de 900 palestinianos foram deslocados devido à violência dos colonos e à atividade militar, com a ONU a registar cerca de 1900 ataques apenas em Janeiro. Nos campos de refugiados do norte da Cisjordânia, 33 000 pessoas continuam deslocadas na sequência da operação militar Muralha de Ferro.

Paralelamente, o sistema prisional israelita mantém mais de 22 palestinianos detidos desde Outubro de 2023, num contexto de denúncias de tortura e maus-tratos que já terão causado a morte a 88 detidos.

Perante este cenário, que classifica como a «mais grave crise humanitária desde 1967», o MPPM exigiu a suspensão do Acordo de Associação com Israel e a proibição de relações comerciais com os colonatos, considerando «hipócrita» a postura dos Estados que se limitam a verbalizar condenações sem qualquer ação concreta. «A comunidade internacional finge-se surpreendida, mas abstém-se de tomar medidas que detenham o expansionismo», acusa o documento.

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