A 27 e 28 de Janeiro de 1942, centenas de partisans jugoslavos atravessaram o Monte Igman, na Bósnia, para escapar ao cerco nazi e alcançar território libertado em Foča. Este feito da Primeira Brigada Proletária – realizado sob temperaturas a rondar os -30 ºC, com dezenas de combatentes mortos ou feridos por congelamento – tornou-se um momento decisivo da resistência antifascista, afirma o Peoples Dispatch, lembrando que a Marcha Igman continua a ser celebrada até aos dias de hoje.
Ano após ano, milhares de pessoas deslocam-se até Igman, vindas das diferentes repúblicas que integravam a Jugoslávia, para honrar a resistência e a determinação dos partisans, sem deixar de olhar para o presente.
Este ano, a marcha teve lugar a 31 de Janeiro, com muitos dos participantes a chegarem à zona monumental de Veliko Polje a pé, cantando canções antifascistas e exibindo bandeiras vermelhas e os símbolos de várias organizações locais.
No espaço central, representantes da Associação de Antifascistas e Combatentes da Guerra de Libertação Popular da Bósnia-Herzegovina (SABNOR BiH) alertaram para o perigo de limitar o significado da resistência antifascista apenas à memória.
«Hoje, levamos connosco a lição de como reconhecer o fascismo, como identificar a ameaça que ele representa – para que possamos agir contra ele», disse Mirsad Ćatić, presidente da SABNOR Sarajevo.
Liberdade é só uma palavra até ser libertada
«Ao honrarmos aqueles que lutaram de armas em punho contra o fascismo, também procuramos inspiração no seu espírito de liberdade. Os proletários, os partisans daquela época, entendiam que a palavra "liberdade" é apenas uma palavra a menos que seja concretizada – a menos que seja libertada», disse, citado pela fonte.
Tal como em grande parte da Europa, nos países dos Balcãs Ocidentais assiste-se ao ressurgimento da extrema-direita, incluindo a reabilitação dos colaboradores locais com o nazismo na Segunda Guerra Mundial e os esforços para apagar o papel dos movimentos antifascistas e socialistas na libertação da Jugoslávia – e da Europa – da ocupação.
Embora o alcance deste revisionismo histórico varie em toda a região, a diminuição da presença da história antifascista nos currículos escolares, rapidamente substituída por narrativas nacionalistas, é uma preocupação comum, refere o Peoples Dispatch.
Como resposta, a SABNOR Sarajevo lançou recentemente um opúsculo para os alunos do ensino secundário, visando combater estas tendências nas instituições de ensino. No entanto, os oradores da Marcha Igman de 2026 enfatizaram que a resistência à extrema-direita deve ser unificada e universal, conduzida em todas as frentes e confrontando as agendas repressivas adoptadas por muitos governos da região.
Alerta para o «novo fascismo» e o silêncio
Ao discursar, Sead Đulić, presidente da SABNOR BiH, denunciou que os movimentos fascistas estão a ser reabilitados nos países que eram as repúblicas jugoslavas. «São traidores até hoje, e mesmo assim permitimos que chegassem ao poder. Infiltraram-se em todos os níveis do governo, e nós mantivemo-nos em silêncio», lamentou.
Assim, perguntou que sentido faz juntarem-se em Igman, em Sutjeska, no rio Neretva e em todos os outros locais da antiga Jugoslávia, se permanecem silenciosos «quando os que estão no poder são os herdeiros ideológicos das mesmas forças contra as quais os nossos camaradas lutaram nos anos 1940».
Por isso, instou os presentes a porem fim a esse silêncio, frisando que só têm direito a chamar-se antifascistas se confrontarem, juntos, o neofascismo e o neonazismo.
Por seu lado, Mirsad Ćatić alertou que, «hoje, estamos rodeados de um novo fascismo. Um fascismo que aprendeu as lições da guerra. Foi derrotado uma vez, mas agora regressa, polido, sorridente [...]. Infiltra-se em instituições que moldam leis que ecoam as de há 84 anos.»
«Estamos aqui não apenas para aprender com os males do passado, mas também para nos inspirarmos no espírito amante da liberdade dos nossos sábios antepassados e para confrontar este fascismo crescente com a nossa própria sabedoria actual», sublinhou.
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