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Israel mantém retidos cadáveres de 776 palestinianos

As autoridades da ocupação israelita retêm, em morgues ou cemitérios de números, os corpos de pelo menos 776 palestinianos mortos, confirmou esta terça-feira uma ONG palestiniana.

Mulher em Deir al-Balah, na região central da Faixa de Gaza (imagem de arquivo) Créditos / pchrgaza.org

De acordo com a Campanha Nacional pela Recuperação dos Corpos dos Mortos por Israel e pelo Esclarecimento do Destino dos Desaparecidos, entre os 776 corpos retidos contam-se os de 96 prisioneiros falecidos nas cadeias da ocupação, os de 77 menores de idade e os de dez mulheres.

Em comunicado, a organização não governamental (ONG) condenou «a detenção de centenas de mártires da Faixa de Gaza durante a guerra de extermínio, cujo número exacto e as condições de detenção permanecem desconhecidas».

A este propósito, o grupo afirmou que tais acções constituem «uma violação grave e sistemática dos princípios do direito internacional humanitário, em particular das Convenções de Genebra, que garantem a dignidade humana dos prisioneiros vivos e a santidade dos mortos».

Também criticou a exumação e a profanação, por parte das forças de ocupação israelitas, de mais de 250 cadáveres em cemitérios do enclave costeiro nos últimos dias, no âmbito das suas operações militares, refere a Wafa.

A Campanha, que descreveu estas acções como «violações flagrantes dos direitos dos falecidos e dos seus familiares», sublinhou que carecem de qualquer justificação legal ou humanitária, constituindo crimes de guerra que exigem responsabilização internacional.

«A justiça e a humanidade não podem ser selectivas», defende a ONG, frisando que «os direitos humanos devem ser aplicados a todos os povos sem discriminação» e exigindo a libertação imediata dos presos palestinianos nas cadeias da ocupação e a entrega dos corpos retidos às suas famílias.

Neste contexto, o organismo exigiu o fim da prática israelita de retenção de corpos, bem como o acesso de instituições internacionais, com o Comité Internacional da Cruz Vermelha à cabeça, aos centros de detenção israelitas, para ali aferirem as condições dos presos.

Política sionista de desgaste e punição colectiva

Em 2023, a Campanha Nacional pela Recuperação dos Corpos dos Mortos por Israel e pelo Esclarecimento do Destino dos Desaparecidos revelava que, desde 2015, as autoridades israelitas mantinham retidos 142 corpos de palestinianos em morgues e outros 252, mortos desde 1967, nos chamados «cemitérios de números», no Norte dos territórios palestinianos ocupados em 1948.

Alguns anos antes, Issam Arouri, então director do Centro de Assistência Jurídica e Direitos Humanos de Jerusalém (JLAC, na sigla em inglês), destacou a este propósito que «Israel é o único país do mundo que retém os corpos de pessoas mortas com o intuito de os usar para negociar» em futuras trocas de prisioneiros.

Também denunciou, então, que era comum os israelitas reterem os corpos antes de os entregarem às famílias para impor condições «sobre o modo como se realizam os funerais».

Por vezes, as famílias têm de esperar décadas até receberem os corpos dos seus entes queridos. O corpo de Mashour al-Arouri esteve retido por Israel 34 anos e o de Hafez Abu Zant, 35 anos, tendo o JLAC conseguido recuperá-los para os familiares em 2010 e 2011, respectivamente, segundo revelou o Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM).

Para as famílias, esta prática constitui um enorme «encargo psicológico», afirma a Campanha, cujos responsáveis destacam o carácter de punição colectiva subjacente à decisão de reter um corpo. «Enquanto não podem ver o corpo do filho, [os familiares] têm esperança de que ele ainda esteja vivo, que esteja na prisão», afirmaram.

Outras famílias, com noção de que os seus seres queridos foram mortos pelos israelitas, realizam protestos com regularidade para exigir a libertação dos seus restos mortais, de modo a poderem fechar um ciclo, fazer o luto.

A prática punitiva da retenção dos corpos em morgues ou do seu enterro em «cemitérios de números» é considerada uma violação do direito internacional, e isso mesmo tem sido apontado por organizações humanitárias e de defesa dos direitos.

Segundo a Convenção de Genebra, as partes num conflito armado devem enterrar os falecidos de forma honrosa, «se possível de acordo com os ritos da religião a que pertenciam» e «os seus túmulos [devem ser] respeitados, devidamente mantidos e marcados de tal forma que possam sempre ser reconhecidos».

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