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Revolta em Mineápolis com o assassinato de outro cidadão por forças federais

A morte de Alex Pretti marca «uma escalada de violência e repressão» por parte das autoridades federais norte-americanas, logo após uma enorme greve geral, sublinha o jornalista Devin B. Martinez.

Milhares de pessoas mobilizaram-se no local onde Alex Pretti foi assassinado, em Mineápolis, e exigiram a saída das forças do ICE CréditosGary Inman / Peoples Dispatch

A morte de Pretti, no passado dia 24, em resultado da acção e dos disparos efectuados por agentes do serviço de Alfândegas e Protecção de Fronteiras (CBP), ocorreu horas depois da enorme greve geral no Minnesota contra a ofensiva dos serviços de Imigração e Alfândegas (ICE) nesse estado do Norte dos EUA, no âmbito da qual mais de cem mil pessoas se manifestaram nas ruas de Mineápolis.

«Um agente do CBP disparou cerca de 12 vezes sobre Alex Pretti», no Sul da cidade, «depois de terem sido vistos vários agentes a imobilizá-lo no chão e a agredi-lo com coronhadas», afirma o jornalista Devin Martinez no Peoples Dispatch, sublinhando o facto de, tal como no caso do homicídio de Renee Good, no início deste mês, o Departamento de Segurança Interna (DHS) dos EUA ter actuado com rapidez para estabelecer a sua narrativa.

Em comunicado, o DHS afirmou que Pretti se tinha aproximado dos agentes do CBP armado e que, quando o tentaram desarmar, «resistiu violentamente» e «um agente disparou em legítima defesa».

Por seu lado, a família de Pretti denunciou, numa declaração pública, as «mentiras repugnantes contadas sobre o nosso filho pelo governo», tendo desafiado directamente a tentativa da administração norte-americana de criminalizar Pretti postumamente.

«O Alex claramente não estava armado quando foi atacado pelos bandidos cobardes e assassinos do ICE, de Trump», denunciaram, ao mesmo tempo que pediram ajuda para que a verdade sobre o seu filho seja divulgada.

Imagens de vídeo desmentem narrativa federal

«As gravações do local do incidente parecem corroborar as alegações da família contra a narrativa do governo», afirma Martinez, destacando que as imagens do assassinato de Pretti o mostram no local a gravar com a câmara do telemóvel.

«Segundos depois de Pretti ter tentado ajudar uma mulher que tinha sido agredida por agentes federais, foi atingido por gás pimenta, imobilizado por vários agentes e morto a tiro», sem que os elementos sugiram que representava uma ameaça letal.

Pretti tinha licença de posse e porte de arma, e as imagens de vídeo mostram que a sua arma nunca saiu do coldre até que um agente da CBP a retirou, momentos antes de ser morto a tiro.

«O governo federal, no entanto, usou a presença da arma como justificação retroactiva para o seu assassinato. A própria narrativa expõe contradições entre a retórica de "lei e ordem" e a posse legal de armas, nenhuma das quais parece oferecer protecção contra o uso de força letal por agentes federais», sublinha o jornalista no Peoples Dispatch.

As imagens de vídeo captaram outros momentos que realçam a cultura de impunidade em redor da operação, como um agente do CBP que é visto a aplaudir durante o tiroteio e outro a tentar intimidar os membros da comunidade que exigiam que os agentes abandonassem a zona.

Assassinato logo após a greve geral

Este novo episódio violência letal por parte de forças federais nos EUA ocorreu logo após uma greve geral enorme no estado norte-americano do Minnesota, no dia 23, que desafiou de forma directa as operações do ICE.

«Milhares de empresas fecharam as portas, centenas de organizações comunitárias apoiaram a greve, dezenas de sindicatos participaram e os estudantes forçaram o encerramento total da Universidade de Minnesota», revela Martinez, que destaca a dimensão da manifestação no centro de Mineápolis, com temperaturas abaixo dos -30 °C, a exigir a saída das forças do ICE.

Mais repressão e mais resistência popular

O modo como as autoridades reagiram à greve geral no Minnesota não foi o «diálogo, mas sim com uma escalada da violência», destaca o Peoples Dispatch, que se refere igualmente à repressão que se abateu sobre os protestos de revolta contra o assassinato de Pretti: «uma extraordinária demonstração de força sobre uma cidade que já deu provas da sua capacidade de mobilizar centenas de milhares de forma organizada.»

Neste sentido, Devin B. Martinez afirma que a área metropolitana de «Mineápolis parece estar a tornar-se um campo de experimentação para ver até onde o governo federal pode levar a agenda de extrema-direita de Trump».

«No meio da resistência massiva, o governo expandiu a autoridade das forças federais, normalizou o uso de força letal e apoiou-se na demora e no silêncio das autoridades locais para absorver a indignação pública», alerta.

Se a greve geral mostra que os habitantes de Mineápolis estão dispostos a organizar-se a uma escala raramente vista nos Estados Unidos, Martinez considera que «o assassinato de Alex Pretti na manhã seguinte revela até onde as autoridades federais estão dispostas a ir para reafirmar o controlo».

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