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PSD a perder e Rio a mandar bolas para fora

A comparação dos resultados das presidenciais de 2016 e 2021 mostra como é precipitada e ilusória a ideia de que a votação de André Ventura, nomeadamente no Alentejo, teria sido à custa dos comunistas.

O presidente do PSD, Rui Rio, durante a sua intervenção na sessão de encerramento da «Universidade de Verão» da JSD, em Castelo de Vide. 9 de Setembro de 2018
Rui Rio quer fazer esquecer que a extrema-direita nasceu da barriga do PSD e da sua políticaCréditosNuno Veiga / Lusa

Os líderes do PSD e do CDS vieram, cada um à sua maneira, cantar vitória pela reeleição do Presidente e, no caso particular de Rui Rio, falar da alegada «derrota do PS» e do ilusório «esmagamento da esquerda». Trata-se, no caso do líder social-democrata, de uma fuga para a frente, designadamente quanto à análise dos resultados de André Ventura, no sentido de escamotear que o Chega e o seu líder nasceram na barriga do PSD e, sobretudo, que os seus resultados são, no essencial, fruto das perdas eleitorais do PSD e CDS (vidé resultados das legislativas 2019 e algumas sondagens recentes).

São também resultado das políticas promovidas por estes partidos, em particular no governo de Passos Coelho e Portas, que atingiram de forma violenta as populações mais pobres e desprotegidas, nomeadamente através dos cortes nos salários e nas pensões e reformas, mas não só. Foram ainda os cortes no Serviço Nacional de Saúde e na educação, o congelamento do Salário Mínimo Nacional e dos vencimentos dos trabalhadores da Administração Pública e dos seus corpos especiais, os militares e os polícias. É este o pasto que alimenta o populismo e a extrema-direita.

Daí, a tentativa de Rui Rio de sacudir a pressão, sugestionando o crescimento de André Ventura à custa do PCP.

Vejamos então os resultados eleitorais no Alentejo.

Distrito de Beja: Edgar Silva obteve, em 2016, 15,58% e, no domingo, João Ferreira 15,02%; Marisa Matias passou de 11,30% em 2016 para 3,59% em 2021. Neste distrito, em 2016, a soma dos votos de Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Henrique Neto foi de 37,27%, contra os 10% que Ana Gomes obteve no domingo. André Ventura somou 16,19%, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa passou dos 31,7 % obtidos em 2016 para 51,3%.

Distrito de Évora: Edgar Silva obteve 11,52%, em 2016 e João Ferreira, 10,80%, em 2021; Marisa Matias passou de 10,7%, em 2016, para 3,59%. Os candidatos Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Henrique Neto somaram em 2016 35,02%, enquanto Ana Gomes se ficou pelos 10,30%. André Ventura obteve 16,76%. Quanto ao Presidente reeleito, passou de 38,6% em 2016 para 54,7% em 2021.

Distrito de Portalegre: em 2016, Edgar Silva obteve 7,13% e, neste domingo, João Ferreira 7,27%; Marisa Matias passou dos 10,05% obtidos em 2016 para 3,13%. Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Henrique Neto somaram 35,67%, enquanto Ana Gomes obteve 10,22% e André Ventura 20,04%. Marcelo Rebelo de Sousa passou dos 42,8% que obteve há cinco anos para 55,7%.

Como se vê, independentemente de leituras mais pormenorizadas a nível nacional, a comparação entre os resultados das eleições presidenciais de 2016 e 2021 e o olhar para a realidade dos números, permite sublinhar como é precipitada e ilusória a ideia de que a votação de André Ventura, nomeadamente no Alentejo, teria sido à custa dos eleitores comunistas.

As alegações de Rui Rio não só não se sustentam como pretendem esconder a deriva para a extrema-direita de eleitores da direita tradicional e a eventual disposição do líder do PSD em servir-se desses votos, agora a nível nacional.

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