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Presidenciais e soberania nacional

Quase todos os candidatos rivalizam na elevação da União Europeia a uma entidade sem a qual um país como Portugal, assente nos seus quase 900 anos de existência, não conseguiria sobreviver.

Defender e recuperar parcelas da soberania nacional é condição de uma política que responda aos problemas do País
Defender e recuperar parcelas da soberania nacional é condição de uma política que responda aos problemas do País CréditosMário Cruz / Agência LUSA

Empestadas pelo lixo mediático atulhado de superficialidades, ausência de ideias e pela irresponsável tentação de branqueamento do fascismo, as eleições presidenciais estão praticamente vazias de temas nobres e essenciais que deveriam estar no centro de cada consulta eleitoral como é, entre outros, o caso da soberania nacional.

É certo que nada há mais démodé do que ser patriota nos tempos em que o europeísmo e a sua versão mais lata, o globalismo, são maneiras de estar e de agir indispensáveis para que alguém seja considerado um autêntico cidadão de hoje – isto é, mais um no rebanho cada vez mais organizadinho. Por isso mesmo, a soberania nacional é uma espécie de última fronteira de identidade e dignidade antes de os nossos direitos e a democracia se diluírem no espectro de uma sociedade manipulada como se fora um exército de marionetas com dimensão planetária.

«a soberania nacional é uma espécie de última fronteira de identidade e dignidade antes de os nossos direitos e a democracia se diluírem no espectro de uma sociedade manipulada como se fora um exército de marionetas com dimensão planetária»

As eleições presidenciais deveriam ser um acontecimento vocacionado para pensar e debater a actualidade da soberania nacional. O Presidente da República é, por inerência, uma magistratura de soberania, a entidade que a interpreta – ou deveria interpretar – como defensora dos direitos e interesses próprios da comunidade nacional. Que não coincidem forçosamente, de facto, com os de outras comunidades, sejam elas consideradas amigas, aliadas ou nem tanto.

Olha-se para a campanha eleitoral e é como se a soberania nacional, ou seja, o patriotismo esclarecido e consciente do universalismo da humanidade, fosse um tabu capaz de ensombrar as correntes que nos devem motivar, quase todos elas conduzindo, por via directa ou portas travessas, ao regaço da grande mãe neoliberal.

Há apenas um candidato que, centrando as suas intervenções no que diz realmente respeito à esmagadora maioria dos portugueses, escapa à superficialidade do marketing político e aprofunda realmente os temas associados à vida de todos nós numa perspectiva de soberania nacional.

Esse candidato é João Ferreira.

Confusão deliberada

Como está explícito e implícito na campanha de João Ferreira, a independência nacional é um princípio que agrega a defesa da democracia e dos interesses da esmagadora maioria dos portugueses, desde as camadas mais desfavorecidas aos sectores dos micro, pequenos e médios produtores, no fundo todos os que têm sido vítimas da integração numa União Europeia que só tem olhos para os grandes negócios e a financeirização do capitalismo.

A maioria dos candidatos e o respectivo acompanhamento mediático esforçam-se por esconder esta realidade, reproduzindo uma atitude que se tornou compulsória na sociedade portuguesa: a União Europeia tem de estar acima de todas as críticas.

Por essa razão são frequentes as considerações e as insinuações pretendendo confundir o patriotismo e a defesa objectiva da soberania nacional com o populismo e o nacionalismo associados ao fascismo que levanta cabeça.

« independência nacional é um princípio que agrega a defesa da democracia e dos interesses da esmagadora maioria dos portugueses»

É uma confusão deliberada que pretende, em última análise, assimilar as críticas à União Europeia ao autoritarismo e ao extremismo de direita quando é precisamente da União Europeia que chegam os comportamentos autoritários, austeritários e desrespeitadores da democracia que dão alento à crescente afirmação de formas de fascismo – obviamente também associadas ao regime neoliberal transnacional.

O patriotismo está nos antípodas do nacionalismo e do populismo, subservientes como são estes às manobras de manipulação, desinformação e aos poderes económicos e financeiros que apenas nominalmente têm pátria porque o capital é apátrida, hoje mais do que nunca. Por isso o processo de globalização neoliberal de vocação totalitária vai-se afirmando através da crescente dissolução dos Estados, de que a União Europeia é um exemplo sob os olhos de todos ao sequestrar mecanismos essenciais à governação dos Estados Nacionais.

Defender a soberania nacional é uma forma de combater o carácter antidemocrático e desumano da União Europeia e também de afrontar todas as formas de fascismo, das quais a menos ruidosa e mais insidiosa é a que se implanta protegida e incitada pela campanha «modernizadora» e até «progressista» da globalização. Neste quadro, o fascismo trauliteiro limita-se a limpar terreno, a fixar agendas e a espalhar o medo em que assentam todas as expressões autoritárias. O que não é pouco.

Que as mãos não doam a João Ferreira quando trava este combate em defesa da independência nacional.

As vagas federalistas

O fundamentalismo europeísta assaltou a campanha das presidenciais. Quase todos os candidatos rivalizam na elevação da União Europeia a uma entidade sem a qual um país como Portugal, assente nos seus quase 900 anos de existência, não conseguiria sobreviver.

Elege-se o Presidente da República Portuguesa mas enaltecem-se os eurocratas para quem os portugueses não passam de números.

«O federalismo e a independência nacional são incompatíveis, excluem-se. Mas os candidatos europeístas não se atrevem a expor esta realidade aos eleitores. Difundem a imagem propagandística de uma União Europeia imprescindível»

A este europeísmo correspondem, na realidade, as manobras federalistas que continuam a ser impostas sorrateiramente e que afastam cada vez mais os povos das tomadas de decisão sobre tudo o que lhes diz respeito. O federalismo é a abstracção da democracia, o reforço da tentação totalitária que acompanha a concentração dos mecanismos de decisão em entidades não eleitas e a correspondente marginalização dos cidadãos.

O federalismo e a independência nacional são incompatíveis, excluem-se. Mas os candidatos europeístas não se atrevem a expor esta realidade aos eleitores. Difundem a imagem propagandística de uma União Europeia imprescindível de onde nos chegam custosos milhões e até as vacinas – fracassando, por exemplo, em tudo o resto que diz respeito ao combate à pandemia e não acautelando verdadeiramente a saúde pública.

A febre federalista atinge uma tal expansão na classe europolítica e eurocrática que já gerou o federalismo de “esquerda”, como se a União Europeia que existe pudesse ser o berço de um azougado internacionalismo capaz de a inverter em favor dos desprotegidos fazendo exactamente o jogo dela.

O papel do fascismo

A actual campanha para as eleições presidenciais fica igualmente marcada por ser a maior operação de branqueamento do fascismo em Portugal desde 25 de Abril de 1974.

A comunicação social dominante e quase todos os candidatos – a excepção é, mais uma vez, João Ferreira – já elegeram o candidato fascista trauliteiro, que escapou de maneira absurda às malhas da fiscalização constitucional, como a figura das eleições.

As mentiras, insultos e ameaças do indivíduo são ecoadas pela comunicação social como actos políticos genuínos de uma pessoa idónea e vão transformando o balão de ensaio que surgiu da corrente neofascista em desenvolvimento na Europa e nos Estados Unidos num legítimo ocupante do espaço democrático.

«A comunicação social dominante e quase todos os candidatos – a excepção é, mais uma vez, João Ferreira – já elegeram o candidato fascista trauliteiro, que escapou de maneira absurda às malhas da fiscalização constitucional, como a figura das eleições»

Mais grave ainda do que isso é o facto de alguns candidatos contribuírem objectivamente para essa legitimação transformando as respectivas participações eleitorais em duelos particulares com o marginal. A candidata Ana Gomes chega a ser uma reincidente nesta matéria, porque também não conseguiu ver a mobilização fascista que determinou o golpe «democrático» da Praça Maidan em Kiev e se transformou numa componente indissociável do actual poder na Ucrânia.

De balão de ensaio em balão de ensaio há outro que já voa nos céus dos Açores, encorajando perspectivas para uma restauração da direita nacional, melhor dizendo de uma renovada união; porque se a clique do candidato fascista não disfarça as intenções, também é apropriado recordar que foi no então PPD, depois PSD, que rapidamente se acolheu a massa salazarista a seguir ao 25 de Abril de 1974. Mais do que eventual coligação deverá falar-se antes de uma reemergente União Nacional.

Dir-se-á que alguns apenas brincam com o fogo, embevecidos com novas «energias» emergentes no sistema. Outros, porém, têm obrigação de entender o que está a acontecer e que nada tem a ver com simples folclore saudosista. É o fascismo que levanta cabeça e tem de ser combatido no ovo.

O apoio a João Ferreira é uma arma que faz parte desse combate urgente. Pela democracia, pela soberania nacional e pelos valores do 25 de Abril.

José Goulão, Exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril

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