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O espelho da pandemia

Apesar de há 46 anos ter ocorrido uma revolução democrática e de o país ter evoluído em diversos indicadores, a Covid-19 revelou alguns problemas na sociedade que estão a montante da pandemia.

A emergência sanitária que neste momento afeta mais de duas centenas de países do mundo constitui uma circunstância de inegável dimensão histórica, que vai marcar a vida de todas as gerações que a estão a viver. Não é possível ignorar o número de vidas ceifadas pela doença Covid-19, que nesta data ascende a cerca de 370 mil, nem as muitas dezenas de milhar que nos hospitais de todo o mundo lutam pela vida. Estes são os dados lineares das consequências da pandemia.

Porém, para além da sua dimensão sanitária, que como vimos é muito relevante, esta pandemia representa um verdadeiro espelho da realidade social existente em vastas zonas do mundo, marcada por milhões de seres humanos privados das mais elementares condições de sobrevivência e de respeito pela sua dignidade, geradas pelo desemprego, pela fome, pelas precárias condições de habitação, pela falta de acesso aos cuidados de saúde e outras expressões de um sistema que, de forma ideológica, deixa milhões para traz.

«Em Portugal existem profundas desigualdades atingindo centenas de milhar de trabalhadores, ameaçados pelo desemprego ou pela precariedade de muitos dos empregos criados nos últimos anos. Há milhares de famílias a viverem em bairros pobres implantados na periferia das grandes cidades, com particular incidência na Região de Lisboa e Vale do Tejo. Há milhares de idosos abandonados ou «armazenados» em instituições sem o mínimo de condições para garantir a sua segurança e dignidade, como também a pandemia nos revelou»

Por cá, apesar de há 46 anos ter ocorrido uma revolução democrática e de o país ter evoluído em diversos indicadores, a Covid-19 revelou alguns problemas na sociedade que, conforme muito bem lembrou o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, estão a montante da pandemia.

Em Portugal existem profundas desigualdades atingindo centenas de milhar de trabalhadores, ameaçados pelo desemprego ou pela precariedade de muitos dos empregos criados nos últimos anos. Há milhares de famílias a viverem em bairros pobres implantados na periferia das grandes cidades, com particular incidência na Região de Lisboa e Vale do Tejo. Há milhares de idosos abandonados ou «armazenados» em instituições sem o mínimo de condições para garantir a sua segurança e dignidade, como também a pandemia nos revelou. Há défice de recursos humanos especializados em diversos domínios da atividade do país, de médicos e enfermeiros, a agentes das forças de segurança ou bombeiros, passando por nadadores-salvadores e outros, funções indispensáveis para a construção de uma vida em sociedade, sã e segura.

Entretanto, neste mesmo país, continuam-se a injetar milhões de euros em bancos delapidados por criminosos que se mantêm impunes e transige-se com as reivindicações de patrões de empresas que nos últimos anos arrecadaram milhões de lucros e que, agora, fazem chantagem com os empregos dos trabalhadores que ameaçam destruir, se o Estado não financiar os impactos da pandemia nas respetivas empresas, entre outras demonstrações de pressão por quem muito tem em desfavor de quem muito pouco ou nada tem.

«para além da emergência sanitária que é necessário continuar a enfrentar, com a eficácia e o empenho de todos os trabalhadores do Serviço Nacional de Saúde e a postura cívica de todos nós (...) [convém] não nos resignarmos a um país onde a fome se combata com a distribuição de bens alimentares no Banco Alimentar ou se disfarce o direito constitucional ao trabalho com a proliferação de relações laborais  de natureza feudal»

No espelho da pandemia vemos refletidas as vítimas dos surtos da Covid-19 que, nas últimas duas semanas, apareceram em diversos concelhos de Lisboa e Vale do Tejo, nomeadamente as centenas de imigrantes mal pagos e com poucos direitos laborais a trabalhar em várias empresas. Vemos também refletidas as centenas de pessoas que recorrem a instituições sociais para garantirem a sua alimentação e das suas famílias, muitas delas pela primeira vez nas suas vidas.

Sim, para além da emergência sanitária que é necessário continuar a enfrentar, com a eficácia e o empenho de todos os trabalhadores do Serviço Nacional de Saúde e a postura cívica de todos nós, através da adoção dos adequados comportamentos de segurança, é necessário aproveitar esta pandemia para, na designada nova normalidade que se lhe seguirá, nos concentrarmos em tudo o que lhe fica a montante, mudando prioridades políticas e afetando investimentos para combater a precariedade no emprego e na habitação e, deste modo, não nos resignarmos a um país onde a fome se combata com a distribuição de bens alimentares no Banco Alimentar ou se disfarce o direito constitucional ao trabalho com a proliferação de relações laborais de natureza feudal.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

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