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Futebol português, competições europeias e a ameaça da Superliga

A pirâmide do futebol português, sustentada no sucesso dos grandes clubes, pode estar a ser colocada em causa na sua essência. As alterações nas provas da UEFA aumentam a necessidade de mais clubes com capacidade competitiva.

Créditos / Os Belenenses

A construção da pirâmide do futebol português sustentada pelo sucesso dos grandes clubes pode estar a ser colocada em causa na sua essência. As alterações nas provas da UEFA aumentam a necessidade de existirem mais clubes com capacidade competitiva nas competições europeias.

Caso isso não se verifique, Benfica e FC Porto poderão ter um caminho mais fácil para atingir os seus objetivos com a consumação de uma Superliga europeia. Quadro que viria apenas destruir de vez o que no futebol português já é de uma enorme fragilidade.

A participação das equipas nas competições europeias tem sido basilar na construção da economia do futebol português. Numa Liga dependente das vendas dos direitos dos jogos e com pouca imaginação para cativar maiores receitas de bilheteira ou de vendas associadas aos clubes, é na Europa que os grandes portugueses desenham parte dos seus orçamentos, no que toca aos prémios recebidos por participar, nomeadamente na Liga dos Campeões, ou na utilização da montra para especular sobre os valores dos jogadores que são transferidos. 

Nas últimas duas temporadas, as principais vendas foram muito consequência do apresentado pelas equipas portuguesas na Liga dos Campeões. As excelentes exibições de Luis Diaz pelo FC Porto, de Darwín Núñez pelo Benfica e de Matheus Nunes pelo Sporting foram o selo de garantia para os preços cobrados pelas equipas nacionais. Torna-se assim fundamental garantir a presença nessas provas europeias, de maneira a poder consolidar as finanças de estruturas que assentam a sua sustentabilidade numa área onde uma bola que sai ao lado por ter um custo enorme.

«Benfica e Porto, sem a ajuda do ranking da UEFA, acabarão por encontrar no projeto da Superliga uma resposta mais rápida e direta para a consumação dos seus objetivos particulares.»

Acontece que, para garantir lugares para as equipas portuguesas na Liga dos Campeões será necessário que Portugal consiga manter a sua posição do ranking da UEFA. Com o aumento de competições europeias, após o lançamento na época passada da Liga Conferência, foi diversificado o leque de provas onde os países podem somar pontos. Portugal parece ter ficado preso no sucesso do seus dois principais fornecedores de pontos, Benfica e FC Porto, não encontrando capacidade nos outros conjuntos para somar. E como atingir o sucesso na Liga dos Campeões ou na Liga Conferência acaba por ter efeitos semelhantes no ranking, os Países Baixos já ameaçam a posição de Portugal.

A realidade do desequilíbrio financeiro entre equipas da Liga Portugal pode acabar por ter custos enormes para o futebol português. Num primeiro momento, colocando em causa a participação em competições com elevado ganho orçamental. Num segundo momento, colocando mesmo em causa as estruturas de solidariedade previstas nas regras da centralização de direitos televisivos, com implementação prevista para 2028/29. A internacionalização da Liga Portuguesa até pode trazer ganhos mínimos em relação ao quadro existente. Mas Benfica e Porto, sem a ajuda do ranking da UEFA, acabarão por encontrar no projeto da Superliga uma resposta mais rápida e direta para a consumação dos seus objetivos particulares.

Neste momento, o debate sobre a Superliga é vendido como uma guerra entre gigantes em busca do controlo sobre o dinheiro gerado no futebol. Mas a guerra entre gigantes europeus terá as suas batalhas espalhadas por cada realidade nacional.

Nas Ligas mais importantes, são muitas as equipas que querem ver quebrado o limite de entradas por país, ambicionando ter mais conjuntos a beber desta fonte de patacas. Nas Ligas periféricas, onde Portugal se inclui, a Superliga poderá ser o elemento que virá quebrar uma construção, já de si muito frágil, de um quadro competitivo com o mínimo de equilíbrio. Caberá aos adeptos, sempre sedentos de milhões que tornem os seus clubes mais poderosos, intervir junto destes para compreender que aquilo que desejamos para o futebol pode servir de exemplo nefasto para o que desejamos para as nossas vidas.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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