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A bolsa deles movimenta-se (a propósito da CGD, Secil e Galp)

Em Dezembro realizaram-se compras e vendas de empresas e movimentos bolsistas interessantes, principalmente para ajudar a perceber o que move «o mercado» e como se posiciona o Governo português.

Protesto de trabalhadores da refinaria da Galp em Matosinhos, em frente à Câmara Municipal do Porto, 25 de Fevereiro de 2021 
CréditosJosé Coelho / Agência Lusa

A CGD vendeu 19% das Águas de Portugal à Parpública. Trata-se de uma empresa detida a 100% pelo Estado português, a vender a outra empresa detida a 100% pelo Estado português uma empresa detida a 100% pelo Estado português. A CGD encaixou mais-valias que lhe aumentarão o lucro, a Parpública gastou aqui mais que o lucro de 2025, a Águas de Portugal ficou avaliada em 2 mil milhões. Quanto terá custado em assessorias e comissões? Tudo isto para quê? Veremos brevemente. Mas não há-de ser para coisa boa...

Já o grupo Semapa, pertença da família Queiroz Pereira, viu as suas acções valorizarem 25% na sequência da venda da cimenteira Secil. A empresa foi avaliada em 1,4 mil milhões de euros e a venda terá gerado uma mais valia imediata de 400 milhões. Uma empresa que perdeu um dos seus principais activos ficar mais valiosa é algo que ajuda a definir o que são os mercados (neste caso, um conjunto de capitalistas desejosos de realizar rápidas mais-valias através dos dividendos da Semapa).

Em sentido oposto reagiram os accionistas da Galp, que fizeram as suas acções desvalorizar 20% na sequência de a Galp ter recusado o caminho fácil (vender à Total as suas posições na Namíbia por 1,9 mil milhões), e ter optado por um acordo global de parceria com a Total na exploração daqueles importantes recursos. Também aqui os accionistas, «o mercado», preferiam colocar as mãos rapidamente em muito dinheiro e a administração optou por valorizar a empresa a médio e longo prazo, e por isso foi penalizada (houve até quem pedisse a cabeça dos CEO) e o seu valor foi reduzido. O Governo português ainda detém uma participação de 8% na Galp – mas nada disse sobre este processo, como se lhe fosse indiferente.

Entretanto, o facto de a última cimenteira ter deixado de ser nacional, que ainda o era (depois da Cimpor ter sido igualmente vendida ao estrangeiro e destruída), não mereceu sequer uma nota de rodapé na imprensa nacional. De facto, nada mais natural no processo de liberalização e privatização da nossa economia. Aliás, outra notícia destes dias dava nota de que a Autoridade da Concorrência estaria a investigar a compra da Remolcanosa Portugal pelo Grupo Boluda, duas empresas espanholas que controlam uma grande parte dos serviços portuários nos portos comerciais portugueses (reboques, bancas, etc). É para isto que servem os reguladores – garantir a justa repartição da nossa economia entre as multinacionais.

Por fim, uma nota de rodapé que nos ajuda também a perceber os meandros do funcionamento destes «mercados». A avaliação da TAP (1,6 mil milhões) e da Secil (1,4 mil milhões) é praticamente igual. No entanto, a TAP tem receitas de 4,24 mil milhões face aos 700 milhões da Secil (6 vezes superiores), o EBITDA da TAP foi de 800 milhões quando o da Secil foi de 162 milhões (cinco vezes superior), e só o resultado líquido de 2024 é similar (55 milhões) devido às provisões extraordinárias realizadas para pagar a dívida aos trabalhadores da TAP. Ou seja: mesmo pelos critérios estreitos do capital, é evidente que a TAP está a ser vendida em saldo. Por isso, o Governo guarda a sete chaves as «avaliações» realizadas à TAP, que só serão conhecidas na próxima Comissão Parlamentar de Inquérito a mais uma malfeitoria contra o erário público.

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