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Aleitamento materno e neurodesenvolvimento

O aleitamento materno tem benefícios no desenvolvimento global da criança com efeitos mensuráveis, em múltiplos domínios (linguagem, motor, cognição...) e duradouros. Os resultados são proporcionais à duração do aleitamento materno, demonstrando-se uma maior maturação cerebral.

Créditos blankita_ua / Pixabay

Como disse o Professor Carmona da Mota, o aleitamento materno é «um acto sublime, de valor inestimável, que permitiu a sobrevivência da humanidade nos primeiros tempos» e ainda hoje dos daqueles que mais precisam.

O dar de mamar pode ser uma escolha e deve ser respeitada. Noutros lugares pode ser uma necessidade por falta de alternativas ou recursos. Os seres humanos são epimélicos e como tal têm necessidade de modelos e de apoios para aprender a amamentar. 

O leite materno é um leite vivo. Os seus constituintes são sintetizados de acordo com um código genético específico, programado ao longo de muitos milénios e é o alimento mais adaptado à espécie humana, nos primeiros meses de vida.

A sua quantidade e a sua composição vão-se ajustando ao bebé, conforme as suas necessidades. São exemplos a diferença de composição do leite materno ao longo da mesma mamada, do colostro dos primeiros dias ou do leite materno de mães com filhos prematuros.

Comparados com outros mamíferos, os nossos recém-nascidos nascem imaturos e dependentes, com necessidade de serem recebidos num nicho sensorial e afectivo. Um colo onde possam construir a sua vinculação com a mãe, na base da troca de estímulos sensoriais, sincronizados com o ritmo do bebé, com partilha de afecto e de prazer. Hoje sabemos que bebés bem vinculados estão mais disponíveis para explorar o mundo, e desenvolvem-se melhor.

Com o avanço das neurociências, entendemos melhor o neurodesenvolvimento dos bebés, tão intenso nos primeiros anos de vida. Há períodos críticos para o desenvolvimento de certas funções, que não sendo utilizadas, são eliminadas por processo de poda sináptica, numa regulação fina do cérebro que exclui sistemas redundantes. Esta plasticidade cerebral permite remodelações e correcções, mas confere maior sensibilidade. Ambientes pouco estimulantes ou adversos são impactantes no desenvolvimento global da criança, com repercussões na estrutura e função cerebral, a longo prazo. 

O aleitamento materno tem benefícios no desenvolvimento global da criança com efeitos mensuráveis, em múltiplos domínios (linguagem, motor, cognição...) e duradouros. Os resultados são proporcionais à duração do aleitamento materno, demonstrando-se uma maior maturação cerebral.

O impacto absoluto do aleitamento materno no neurodesenvolvimento é maior em prematuros ou com restrição de crescimento intrauterino, com cérebros mais imaturos e vulneráveis. Nesse grupo, de maior risco neurológico, estudos revelam redução de Perturbações do Neurodesenvolvimento, como Perturbações do Espectro do Autismo e de Hiperactividade e Défice de Atenção.

Na composição do leite materno fresco há elementos que modulam o neurodesenvolvimento. 

São alguns exemplos:

– Os ácidos gordos polinsaturados de cadeia longa (LCPUFA) participam na estrutura das membranas da retina e cerebrais, com impacto na visão e na estrutura neuronal. 

– Os oligosacarídeos(OHMs) têm funções na mielinização, por conterem ácido siálico e no microbioma intestinal, por favorecer o crescimento de bactérias do leite humano benéficas para a produção de metabolitos neuroactivos.

– Os componentes bioactivos, como os MicroRNAs têm funções epigenéticas, actuando de forma sinérgica, pela modificação da expressão dos genes, na neurogénese, maturação sináptica, mielinização e plasticidade neuronal. Também há células estaminais com capacidade de crescimento e reparação de células neuronais ou gliais.

O congelamento doméstico (-18 a -20ºC) por períodos acima de 1-2 semanas, apesar de manter uma qualidade nutricional acima dos leites substitutos, deteriora a função biológica do leite materno fresco. Ele altera os lípidos com impacto na função neurotrófica e destrói elementos essenciais como hormonas, vitaminas, células vivas (leucócitos) e exomas que contêm os elementos bioactivos. O congelamento ultra rápido (≤ -30ºC), usado com agentes crioprotectores, apresenta menores perdas nutricionais e funcionais do leite.

Embora o neurodesenvolvimento seja multifactorial, estudos observacionais e revisões sistemáticas indicam que o aleitamento materno tem impacto na interacção mãe-filho, favorecendo o contacto pele a pele, reduzindo o stress e aumentando o conforto do bebé, com melhoria da sensibilidade materna, melhoria na descodificação dos sinais do bebé, maior apego do bebé à mãe, como base segura e menores distúrbios da vinculação. Por sua vez, a qualidade da vinculação mãe-filho tem impacto no neurodesenvolvimento, pela riqueza de estímulos e experiências, que se traduzem em conexões neuronais.

O aleitamento materno modula o sono do bebé. Nos primeiros tempos, é mais fragmentado, com maior facilidade em despertar a estímulos ambientais, reduzindo o risco de morte súbita e proporcionando maior proximidade com a mãe, numa fase importante da construção da vinculação. No entanto, nesse período não apresenta redução do tempo total de sono comparado com os bebés alimentados com leite substitutos. 

Mais tarde, a melatonina do leite materno ao fim do dia consolida o sono nocturno com melhor sincronização do ritmo circadiano do lactente e da qualidade do sono, com impacto na saúde mental da mãe e no desenvolvimento do bebé.

«Mais tarde, a melatonina do leite materno ao fim do dia consolida o sono nocturno com melhor sincronização do ritmo circadiano do lactente e da qualidade do sono, com impacto na saúde mental da mãe e no desenvolvimento do bebé.»

O impacto do aleitamento materno na saúde mental da mãe é bidireccional e mais complexo. A amamentação não é o único factor isolado, mas sim um factor adicional. O aleitamento materno é protector da saúde mental da mãe, na ausência de dificuldades na amamentação, devolvendo à mãe um maior sentimento de auto-eficácia e de segurança. No entanto, quando a mãe apresenta sintomas depressivos, há maior risco de desmame precoce, com impacto na saúde materno-infantil. Por conseguinte, é consensual que o aleitamento materno é protector da depressão materna, mas não dispensa do acompanhamento emocional, personalizado e especializado à mãe.

Desde o século passado, que conhecemos bem os benefícios do aleitamento materno na redução da mortalidade e morbilidade infantil nos primeiros meses de vida, na redução a longo prazo de doenças crónicas da criança e da mãe. Os avanços das neurociências, permitiram compreender melhor o impacto do aleitamento materno no neurodesenvolvimento e na qualidade da vinculação mãe-filho, com repercussão importante na saúde global das populações e na poupança de recursos. 

Por outro lado, o leite materno é gratuito e sustentável, ao contrário dos leites substitutos, caros e com maior pegada ambiental.

Nos últimos 40 anos, o aleitamento materno enfrenta crescentes desafios num mundo orientado pelo mercado. A maioria dos países não adoptaram, de forma significativa, o Código Internacional de Comercialização dos Leites Substitutos do Leite Materno. Nas últimas décadas duplicou a venda dos leites substitutos. Metade dos recém-nascidos não iniciam o aleitamento materno na primeira hora de vida. Em Portugal, foi suspensa a Certificação dos Hospitais Amigos dos bebés, desde 2020!

O aleitamento não é da responsabilidade exclusiva da mulher, necessita de uma abordagem colectiva de apoio (na família e na comunidade), mudança cultural com maior envolvimento dos homens nos aspectos da parentalidade e de políticas eficazes, reduzindo as desigualdades de género, reduzindo barreiras laborais e económicas nas famílias.

Julgo que podemos imaginar os primeiros meses de vida da criança como uma «gravidez extra-uterina», passando da barriga da mãe para o «colo materno», num período de crescimento e desenvolvimento intenso, até alcançar maior autonomia progressiva.

Nesse sentido, podemos encarar o aleitamento materno como o prolongamento do cordão umbilical, passando de uma alimentação contínua através da placenta, para uma alimentação intermitente, numa fase de transição sensível, intensa, e essencial para a saúde física e emocional da criança, com repercussões a longo prazo.

É assim essencial termos políticas públicas não apenas focadas no aleitamento materno, mas também na primeira infância. 
Reforçar os grupos de apoio às grávidas, alargando o âmbito dos apoios para além do trabalho de parto (na saúde mental...), rehumanizar as condições em que ocorrem os partos hospitalares ( redução da taxa de cesarianas e de episiotomias, recursos humanos suficientes, ...), criar grupos de apoio às mães no período pós-parto, alargando o seu âmbito para além do aleitamento materno (na vinculação mãe-filho...).

Importa não procurar soluções alternativas à separação mãe/bebé, encontrando formas de apoiar a díade mãe-filho, numa fase em que o bebé não tem autonomia suficiente. Isto implica possibilitar o aleitamento com colostro ou com leite materno frescos, evitando o congelamento, desde a 1.ª hora de vida do bebé. Possibilitar a amamentação no bloco de partos ou no bloco operatório após as cesarianas (pós-estabilização da mãe ou do recém-nascido). Manter as mães nas Unidades de Cuidados Intensivos/Intermédios Neonatais (pós-estabilização do prematuro ou do bebé doente). Ajustar a licença de maternidade até à introdução da diversificação alimentar completa e à maior autonomização emocional do bebé pelos 10-12 meses. Permitir horários laborais, dos pais, flexíveis e de acordo com as necessidades dos filhos, evitando trabalho nocturno ou por turnos, garantindo estrutura e tempo de qualidade familiar. Criar espaços públicos de qualidade para optimizar a socialização e o brincar

Acredito que uma sociedade protectora da infância e das suas famílias, será uma sociedade mais humana e contribuirá para devolver aos pais a segurança e o desejo de ter filhos.
 

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