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Agricultores já gastaram mais 55 milhões de euros este ano para produzir o mesmo

As contas são «muito por baixo», diz dirigente da CNA ao AbrilAbril, e referem-se apenas aos gastos com combustível. Governo voltou a anunciar apoio de 10 cêntimos no gasóleo agrícola, muito aquém das necessidades de quem produz.

Créditos Paulo Novais / Agência Lusa

«Muito difícil», é desta forma que Pedro Santos descreve a realidade com que estão confrontados os pequenos e médios agricultores face ao exorbitante aumento dos custos dos factores de produção. Desde a agressão militar dos EUA e de Israel ao Irão, o preço por litro do gasóleo agrícola subiu 55 cêntimos. O Governo já tinha avançado em Abril com o apoio de dez cêntimos por litro aos agricultores, que estão confrontados também (mas não apenas) com um brutal aumento dos fertilizantes – nalgumas situações os aumentos são superiores a 40% –, mas o pagamento só chegou em Julho. 

Esta quarta-feira, depois da reunião do Conselho de Ministros, Luís Montenegro anunciou que a medida seria prorrogada até Dezembro, mas os agricultores, sobretudo os agricultores familiares, entendem que isso não basta. Por outro lado, não sabem quando é que o dito apoio estará disponível. 

«Estes apoios são muito, muito insuficientes e ficam aquém da resposta às necessidades, principalmente dos agricultores familiares, dos pequenos e médios agricultores, que já de si têm uma situação bastante difícil em termos daquilo que é a tesouraria das suas explorações», critica o membro da direcção da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), em declarações ao AbrilAbril

Pedro Santos defende que o desconto devia ser realizado em bomba, quando o agricultor vai abastecer, e ser «muito mais próximo» do aumento. «Estamos a falar que o aumento é cinco vezes superior àquilo que é o apoio e pago de forma diferida, ou seja, o agricultor tem que comprar e depois é que recebe o apoio passado uns meses», refere. 

Segundo contas da CNA, «muito por baixo», os agricultores portugueses já gastaram mais cerca de 55 milhões de euros relativamente ao ano passado, só em combustíveis, para produzir exactamente a mesma coisa.

Acrescem situações que o dirigente descreve como «contraditórias», como no caso do sector do leite. «Apesar de terem aumentado os preços de tudo aquilo que os produtores precisam para conseguir produzir o leite, no mês passado baixaram 1,5 cêntimos por litro ao produtor», denuncia.

Pedro Santos recorda os lucros recorde que as petrolíferas arrecadaram no primeiro semestre deste ano, admitindo que não podem ser as pequenas empresas e os consumidores a pagar a factura do aumento dos combustíveis. «Nós estamos ainda a recuperar de todas aquelas intempéries que tivemos no início do ano e há agricultores que ainda nem sequer receberam as ajudas que o Estado se comprometeu a pagar», observa. 

O Governo, que o dirigente acusa de não responder às propostas apresentadas pela CNA, «não pode assobiar para o lado e não intervir de facto no mercado dos combustíveis de forma clara e que proteja também toda a economia e toda a actividade agrícola», acrescenta.

Além da taxação dos lucros excessivos, a CNA defende a fixação do preço do gasóleo agrícola, lembrando que esta é só uma das dificuldades com que os agricultores estão confrontrados. Pedro Santos alerta para a situação dos pequenos e médios agricultores, por terem menos capacidade de resistir a estes embates, «porque financeiramente as suas explorações já estão em grande asfixia financeira, porque as margens que têm na venda dos seus produtos, mesmo numa situação normal em que não haja esta escalada de preços dos factores de produção, são muito pequenas».

Quem fixa o preço é sempre quem compra, e Pedro Santos aponta o dedo à indústria e à grande distribuição, cujas «práticas deixam muito a desejar, nomeadamente naquilo que diz respeito a estes agricultores de menor dimensão».

 

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