O resultado destas eleições presidenciais tem sido apresentado, por alguns, como uma consequência natural e quase automática do exercício do voto, reduzida a uma simples agregação de escolhas individuais livremente expressas. Contudo, essa interpretação ignora, ou deliberadamente oculta, o conjunto de condições políticas, sociais e mediáticas que antecederam o momento eleitoral e que influenciaram de forma determinante o comportamento dos eleitores.
Porque ninguém vota no vazio. Vota-se num campo cuidadosamente preparado, onde uns têm palco permanente e outros mal existem, onde se fabricam inevitabilidades através de sondagens e pseudo-sondagens repetidas até à exaustão, não para informar, mas para condicionar. Vota-se num ambiente onde a pergunta nunca é «quem defende o quê?», mas «quem tem hipóteses?», como se a democracia fosse uma corrida de cavalos e não uma escolha política substantiva.
Vale a pena, por isso, fazer o exercício que não foi feito nos grandes meios de comunicação: que resultados teríamos tido se não houvesse este bombardeamento diário de números apresentados como ciência, mas usados como arma psicológica? Que reflexão colectiva teria sido possível se os cidadãos tivessem sido confrontados com as campanhas reais, com os conteúdos, com as propostas, com o percurso e as escolhas concretas de cada candidato, e não apenas com caricaturas e silêncios estratégicos?
E mais: o que teria acontecido se, por hipótese, todos nós tivéssemos participado numa acção de campanha de cada candidatura? Se tivéssemos ouvido, sem filtros, o que cada um tem para dizer às pessoas, se tivéssemos visto quem está ao lado de quem? Não seria outra a reflexão? Não seria mais difícil vender como «inevitável» aquilo que é apenas conveniente para alguns?
A verdade é que não existe interesse em levar as campanhas às pessoas, porque isso implicaria reconhecer que a política é uma disputa e uma escolha, e não mera gestão do que existe. Implicaria abrir espaço a perguntas incómodas, a comparações que não favorecem quem tem tudo a ganhar com a apatia e o medo. Implicaria, no fundo, tratar os cidadãos como adultos.
Torna-se hoje evidente, para muitos eleitores, que o esvaziamento das candidaturas à esquerda do Partido Socialista, em nome de um voto útil, exercido a contragosto para travar o bicho-papão, foi uma opção politicamente estéril. A ameaça que se pretendia conter não apenas não foi neutralizada, como revelou não depender desse gesto de resignação eleitoral. Aquele em quem se depositou a confiança de forma defensiva (e o campo político que representa) é incapaz de travar a extrema-direita porque é um representante das políticas que alimentam o descontentamento que está na sua origem.
«Torna-se hoje evidente, para muitos eleitores, que o esvaziamento das candidaturas à esquerda do Partido Socialista, em nome de um voto útil, exercido a contragosto para travar o bicho-papão, foi uma opção politicamente estéril. A ameaça que se pretendia conter não apenas não foi neutralizada, como revelou não depender desse gesto de resignação eleitoral.»
A renúncia a alternativas políticas substantivas, em nome de uma lógica de medo, acabou por fragilizar o próprio campo democrático, ao reduzir o debate e ao normalizar a ideia de que a defesa desses valores pode ser delegada a uma figura apresentada como «mal menor», em vez de resultar de uma afirmação clara, plural e consciente.
Agora, aqui chegados, não faltaremos à nossa responsabilidade. Usaremos o voto para travar o candidato mais reaccionário, aquele que não esconde a vontade de destruir o que resta do regime democrático, de normalizar a violência, de institucionalizar a discriminação, de atacar os nossos direitos políticos e sociais.
Mas também estamos num momento que nos pode ajudar a deixar de ter ilusões: não podemos contar com a direita dita democrática. Derrotados formais, Gouveia e Melo, IL de Cotrim, PSD de Marques Mendes e Montenegro, não têm nada a dizer sobre a escolha que os eleitores terão que fazer na segunda volta. Os interesses que orbitam estas candidaturas estão bem protegidos, quer por Seguro, quer por Ventura. Para eles, a democracia é um detalhe dispensável se se atravessar no caminho da manutenção dos seus privilégios. Tanto lhes dá o alastrar do ódio, a brutalização das relações sociais, a repressão, se esse for o preço a pagar pela segurança dos seus investimentos (por exemplo no negócio da saúde, da especulação imobiliária, dos recursos que deveriam estar ao serviço da maioria). A história mostra-nos que já fizeram essa escolha antes.
Não temos nesta segunda volta, é preciso dizê-lo, quem represente a ruptura de que precisamos. Seguro simboliza a degradação, o esvaziamento da esperança, a frustração acumulada de quem acreditou que a democracia liberal, tal como está, daria resposta aos problemas concretos da vida. Não deu e nunca quis dar realmente. E essa falência abriu espaço ao reaccionarismo que agora ameaça ocupar tudo.
Mas este é o nosso tempo, o tempo que nos coube viver. E, aqui chegados, a escolha é simples, ainda que exija coragem.
Ou continuamos a delegar nos «outros» a resolução de problemas que só se resolvem com participação directa, ou percebemos, finalmente, que a democracia só será inteira quando fizer parte da nossa vida quotidiana. Quando sairmos à rua. Quando conhecermos os nossos vizinhos. Quando pensarmos colectivamente e formos cada um de nós os organizadores, nos locais de trabalho, nas escolas, nos bairros, nos sindicatos, das formas de resistir à exploração que se quer aprofundar.
«Não temos nesta segunda volta, é preciso dizê-lo, quem represente a ruptura de que precisamos. Seguro simboliza a degradação, o esvaziamento da esperança, a frustração acumulada (...).»
Não faz sentido esperar que nos retirem todos os direitos para, só então, descobrirmos a coragem para defender a democracia. É agora. A partir desta realidade concreta, imperfeita, limitada, mas ainda aberta.
Está na altura de assumirmos que a participação democrática e o activismo não são momentos excepcionais, mas práticas quotidianas. Que sair do conformismo confortável pode parecer difícil, mas será, no fim, a nossa maior fonte de sentido e de alegria. Porque só uma democracia vivida, praticada e disputada todos os dias pode resistir àquilo que hoje a ameaça.
Este é o nosso tempo. E temos que deixar de delegar a responsabilidade de o transformar.
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