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Pavilhão Rosa Mota ou quando os interesses privados se sobrepõem ao bem público

O presidente da Câmara do Porto justifica a parceria público-privada em nome da renovação do espaço, que deveria ser público e servir a cidade. A campeã olímpica denuncia a prioridade dada à marca.

Créditos / SIC Notícias

A cerimónia de reabertura do Pavilhão Rosa Mota aconteceu esta tarde. Na reunião do Executivo, pela manhã, os vereadores do PS, PSD e CDU lamentaram que o Pavilhão dos Desportos passe a ser designado «Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota», reiterando a posição que tinham assumido em Novembro de 2018, aquando da aprovação da proposta de acrescentar a designação daquela marca.

Na proposta previa-se que o nome da marca cervejeira viesse no fim, mas não foi assim que ficou. Numa carta dirigida por Rosa Mota à Câmara Municipal do Porto, a que a TSF teve acesso, a campeã olímpica afirma sentir-se «enganada». Defende que o seu nome foi subalternizado face à marca de bebidas alcoólicas, tendo decidido não comparecer na cerimónia desta tarde. 

«Comunico a todos os vereadores, em primeira mão, que não dou a minha anuência a algo que parece estar definitivamente estabelecido e que não foi o que foi acordado», afirma Rosa Mota na missiva. 

Entre os ausentes, e solidária com a posição da atleta, contou-se Ilda Figueiredo, vereadora da CDU, que ao longo dos últimos anos tem vindo a denunciar a falta de vontade de requalificar e salvaguardar o carácter público do Palácio de Cristal, que adoptou o nome da campeã olímpica em 1988, após ter ganho o ouro em Seul. 

Em declarações ao AbrilAbril, Ilda Figueiredo revela-se indignada pelo facto de a empresa concessionária não respeitar a deliberação da Câmara Municipal do Porto onde se lê que a marca Super Bock seria um suplemento. Apesar de, ressalva, «não concordar com ela».

A inclusão da expressão «Super Bock Arena» foi votada em Novembro do ano passado, tendo merecido os votos contra do PS, do PSD e da CDU. Entretanto, Rosa Mota refere na missiva que, em Março último, esteve numa reunião com o Círculo de Cristal — consórcio responsável pelo projecto — e um administrador do Super Bock Group, onde foi informada, «com toda a naturalidade», que tinham decidido que o seu nome «sairia da designação do Pavilhão e que o mesmo se iria chamar simplesmente Super Bock».

O nome da atleta olímpica acabou por ficar em segundo plano. Na cerimónia de inauguração, Rui Moreira, que na reunião da manhã já tinha tentado suavizar a polémica, afirmando que a autarquia havia encontrado «um pavilhão que seguramente há 20 anos estava em ruínas [...] onde não constava o nome da atleta», reagiu dizendo «não me venham com complexos por haver um nome associado a bebidas alcoólicas». 

Para Ilda Figueiredo, a cidade do Porto «tem razões para protestar». Recorda que a CDU foi a única força política que esteve contra a concessão do Palácio de Cristal, por 20 anos e em prejuízo do desenvolvimento daquela zona da cidade, e afirma que a realidade lhe está a dar razão. «Está a revelar, desde já, como os promotores privados se apoderam de tudo, até do nome [...], menorizando o nome da atleta a quem o Porto e o País tanto devem», frisa. 

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