Os protestos começaram logo na quarta-feira passada, na sequência de notícias que davam conta de uma intervenção policial na casa de Pinarayi Vijayan, em Thiruvananthapuram, capital do estado do extremo Sul da Índia.
Vijayan, que foi ministro-chefe de Kerala em dois mandatos consecutivos e é membro do Comité Central do Partido Comunista da Índia (Marxista) – PCI(M), é actualmente o líder da oposição na assembleia estadual.
Enquanto o PCI(M) declarava na sua conta de Twitter (X) que as acusações eram «infundadas» e que as rusgas eram «ridículas», centenas de pessoas cercaram a casa de Vijayan em protesto contra a operação levada a cabo por uma agência federal, acusando o governo central liderado pela extrema-direita de recorrer às forças de segurança para intimidar a esquerda.
Também na capital do país, Nova Déli, se realizou de imediato um protesto a denunciar a operação, no qual a polícia acabaria por intervir de forma musculada, detendo o secretário-geral do PCI(M), M. A. Baby, e outros dirigentes comunistas. Em Kerala foram detidas oito pessoas.
A rusga – explica o Peoples Dispatch – foi conduzida por uma agência federal virada sobretudo para fraudes financeiras, e está relacionada com um caso antigo que envolve transacções financeiras entre a empresa das suas filhas, Exalogic Solutions (agora extinta), e a Cochin Minerals and Rutile Limited (CMRL), uma empresa privada, entre 2017 e 2021.
Tanto Vijayan como a filha negaram a existência de qualquer irregularidade, alegando que todas as transacções entre ambas as empresas foram «transparentes e legais».
«Caso montado»
O PCI(M) classificou a rusga e as repetidas tentativas de ressuscitar artificialmente o antigo caso – apesar de os tribunais terem deixado claro em diversas ocasiões que Vijayan não tem qualquer ligação com a empresa referida – como tentativa deliberada de manchar a imagem de Vijayan e de atacar vozes da oposição, num contexto em que se repetem as acusações contra o governo de Narendra Modi de perseguir partidos da oposição e, sobretudo, da esquerda, que desafia a ideologia supremacista hindu.
Ao discursar em Nova Déli, M. A. Baby afirmou que o raide à casa de Vijayan «foi um acto de vingança com motivações políticas» e uma caça às bruxas.
Por seu lado, Brinda Karat, dirigente do PCI(M), declarou à imprensa que as acusações contra Vijayan são «falsas» e que as buscas foram realizadas em completa violação de todos os procedimentos legais estabelecidos, apenas para intimidar a esquerda.
No entanto, «não somos pessoas que se deixam intimidar, não somos pessoas que se deixam coagir, não nos importa o que a agência federal faça, o povo de Kerala dará uma resposta à altura», declarou a dirigente comunista.
Governo de Modi procura «intimidar a esquerda»
Vários outros partidos de esquerda se posicionaram contra a operação policial, enquanto a acção do partido do Congresso Indiano foi questionada.
D. Raja, secretário-geral do Partido Comunista da Índia, sublinhou que se trata de uma «vendetta política» e de mais um exemplo de como o governo central procura «intimidar a esquerda, atacar opositores e minar princípios federais».
Desde que a operação teve lugar, no passado dia 27 de Maio, os protestos sucedem-se em vários estados do país, como Orissa, Haryana, Tamil Nadu, Bihar, Telangana, Madhya Pradesh ou Maharashtra, com os manifestantes a insistirem na tónica da «vingança política», do «ataque à esquerda» e do mau uso dado pelo governo de extrema-direita às agências federais.
Liderando dois governos sucessivos da Frente de Esquerda (2016-2026) no estado do Sul da Índia, Pinarayi Vijayan é reconhecido como o grande promotor do desenvolvimento económico e social que Kerala conheceu, com grande investimento em programas sociais, na habitação, na saúde e na educação.
Foi também durante o seu governo que a pobreza extrema foi erradicada do estado e que se tornou conhecida a expressão «modelo de Kerala», que outros estados do país sul-asiático procuravam emular.
No entanto, recentemente, tanto nas eleições locais como nas eleições para a Assembleia Legislativa, a Frente de Esquerda sofreu fortes derrotas e o poder passou para a coligação de direita.
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