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Sem-abrigo expulsos de zona central de Los Angeles

No final de Março, um helicóptero da Polícia apontava um feixe de luz para as imediações de Echo Park, uma área gentrificada de Los Angeles, e iluminava o mais recente «crime»: viver nas ruas do bairro.

No Bairro de Echo Park, uma zona gentrificada no Centro de Los Angeles, sem-abrigo foram expulsos com grande aparato policial 
No Bairro de Echo Park, uma zona gentrificada no Centro de Los Angeles, sem-abrigo foram expulsos com grande aparato policial CréditosFrederic J. Brown / Brasil de Fato

Por ar e terra, dezenas de agentes expulsaram quem tinha tendas e barracas instaladas na zona, sob a ameaça de prender qualquer um que não cumprisse a ordem, revela a jornalista Eloá Orazem, do Brasil de Fato, numa reportagem publicada esta sexta-feira no portal do Resumen Latinoamericano.

O advogado Gary Blasi, que é também professor de Direito da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e dedica a carreira a defender a população mais vulnerável, disse à reportagem que, «a menos que as pessoas tenham uma alternativa real de abrigo, morar nas ruas não infringe nenhuma lei».

Ainda segundo o professor, a manobra foi feita com o argumento de que havia oferta de albergues disponível, o que tornaria obrigatória a saída das pessoas do acampamento.

Tendas montadas em Echo Park, Los Angeles, por pessoas em situação de rua / Frederic J. Brown / Brasil de Fato

«O que aconteceu em Echo Park servirá de modelo à forma como a cidade de Los Angeles deve enfrentar situações parecidas noutras áreas. Basicamente, o estado vai recorrer à força policial e oferecer um abrigo temporário, em estruturas provisórias», afirmou Blasi. Acrescentou que «o problema é que estas pessoas ficam abrigadas por pouco tempo e em breve estão de volta nas ruas».

Blasi recorreu a dados para explicar o problema social. «Mesmo antes da pandemia, cerca de 600 mil famílias dedicavam mais de 90% do seu rendimento ao pagamento do aluguer. Isto significa que, confrontadas com um qualquer contratempo, como uma doença ou um despedimento, famílias inteiras se vêem obrigadas a ir viver para a rua», disse.

Programas insuficientes

A arquitecta e urbanista Dana Cuff, professora da UCLA, onde dirige o prestigiado CityLab, traz mais números para explicar a situação. «Cerca de 20 mil indivíduos deixam as ruas para se mudarem para uma casa todos os anos em Los Angeles, mas, no mesmo período, outras 25 mil pessoas vão parar às ruas.»

De acordo com Cuff, além da disparidade de rendimentos, o que contribui para a crise de habitação local é a disparidade entre o que se ganha e o que se gasta. «Uma unidade de habitação social, em Los Angeles, custa algo como 650 mil dólares – e isto está muito longe de ser acessível», comentou.

Segundo a LA Homeless Services Authority (LAHSA), mais de 66 mil pessoas viviam nas ruas da cidade em 2020, o que representa um aumento de 12,7% em relação ao ano anterior.

Existem programas federais, como o Section 8, que visam subsidiar habitações permanentes para pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social, mas na realidade estes e outros projectos de apoio não satisfazem a procura.

«O programa Section 8 está congelado há anos. A última vez que o governo abriu uma espécie de lista de espera, a fila durava cerca de dez anos. Aqui, em Los Angeles, quando este projecto foi retomado em algumas zonas, o sistema telefónico caiu devido ao volume inesperado de chamadas», recordou Blasi, que compara o programa com «ganhar a lotaria». «E, com os valores de hoje, esta ajuda governamental só permitiria o aluguer de algo precário em regiões muito periféricas», acrescentou.

Também contribui para o problema o facto de os moradores se unirem para protestar contra o desenvolvimento de projectos sociais nos seus bairros. «Eu diria que todos os bairros de Los Angeles são contra a construção de habitação social nos seus limites. E é curioso que as mesmas pessoas que protestam contra o tratamento duro da Polícia e das autoridades em relação aos indivíduos sem-abrigo são as mesmas que se opõem a esses projectos. Ninguém os quer por perto», lamentou Dana Cuff.

Não é por acaso, portanto, que uma em cada cinco pessoas em situação de rua se encontre na cidade de Los Angeles. O estado da Califórnia, o mais rico dos Estados Unidos, representa metade de toda a população sem-abrigo do país.

«Os números são ainda menos favoráveis para a população negra. Para os afro-americanos, as possibilidades de acabar na rua são de seis a dez vezes maiores», referiu Blasi.

Soluções

Para o doutor em Sociologia Samuel Lutzker, que estuda os acampamentos de pessoas sem-abrigo na cidade, as alternativas apresentadas pelas autoridades não são, até agora, uma resposta definitiva à crise. «Os centros de acolhimento têm recolher obrigatório e regras muito duras, que muitas vezes geram traumas nas pessoas. Além disso, para viver num desses albergues ou em programas de habitação temporária, estes indivíduos têm de renunciar à sua comunidade e afectos, como companheiros, amigos e até animais de estimação. Quando se chega a este ponto de desamparo, o cuidado da comunidade, na maioria das vezes, é tudo o que essa pessoa tem», disse à reportagem.

No entanto, isso não significa que as pessoas «prefiram viver na rua». «Toda a gente quer uma casa, mas num contexto que seja melhor do aquele que as pessoas têm nas ruas», afirmou Lutzker.

O investigador defendeu a implementação de programas de larga escala que combatam a desigualdade e a pobreza nos Estados Unidos. «Precisamos de mudar para um sistema socialista, ou então não seremos capazes de combater as formas de desigualdade que o nosso capitalismo criou», frisou.

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