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Rússia desencadeia acção militar na Ucrânia

Tropas russas lançaram uma operação militar de larga escala, bombardeando alvos militares em várias regiões da Ucrânia. Há combates terrestres não generalizados entre forças ucranianas e russas.

Base de defesa aérea ucraniana destruída por um bombardeamento em Mariupol, a 24 de Fevereiro de 2022 Créditos Evgeniy Maloletka / AP Photo

Forças armadas russas lançaram uma operação militar de larga escala em território ucraniano e nas autoproclamadas repúblicas autonomistas do Donbass.

Mais de 70 alvos da infra-estrutura militar da Ucrânia foram atingidos por bombardeamentos, incluindo postos de comando, depósitos de munições, navios, uma base naval, aeroportos-chave e estações de radar de mísseis de defesa anti-aérea.

As acções militares decorrem predominantemente nas regiões do Leste (Donbass, Kharkov) e do Sul da Ucrânia (Kherson e Odessa), mas também atingem o centro do país (Kiev, Chernigiv).

Em paralelo, as milícias populares das autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk iniciaram uma contra-ofensiva para ocupar os territórios perdidos durante a ofensiva do exército ucraniano em 2014-2015. Combate-se nesta linha da frente e tanto os rebeldes como o exército ucraniano reivindicaram a vitória na localidade de Schastya.

Não se confirma a ocupação do porto de Mariupol, apesar de veículos militares ucranianos terem sido vistos a deixar a cidade.

Tropas russas entraram em território ucraniano pelo Sul, a partir da Crimeia, na direcção de Kherson e Odessa, e no Leste, pela linha Belgorod-Kharkiv. Em Kiev foram destruídas as instalações da Guarda Nacional e há notícia de forças aerotransportadas desembarcarem no aeroporto de Gostomel, perto de Kiev.

Tanto fontes russas como ucranianas reconhecem ou reivindicam a destruição de material bélico e a causa de baixas militares (mortos, feridos e capturados).

Operação militar comandada e anunciada por Putin

A intervenção, decidida pelo presidente Vladimir Putin, foi anunciada como uma resposta ao pedido de ajuda formulado pelos dirigentes das autoproclamadas República Popular do Donetsk (RPD) e República Popular de Lugansk (RPS), «de acordo com o Artigo 51 (Capítulo VII) da Carta das Nações Unidas, com a autorização do Conselho da Federação Russa e em execução dos tratados de amizade e assistência mútua» com a RPD e a RPS.

O objectivo da operação foi declarado como a «desmilitarização e desnazificação da Ucrânia», bem como «a protecção de pessoas que, desde há já oito anos, enfrentam a humilhação e o genocídio perpetrado pelo regime de Kiev».

A RPD ea RPL resultam de uma generalizada revolta contra o golpe de Estado de Maidan, apoiado pelos EUA, pela UE e pela NATO, que derrubou o governo legitimamente eleito e colocou o governo e o exército do país nas mãos de forças nacionalistas e da extrema-direita, algumas declaradamente nazis.

Enquanto a parte ocidental do país, maioritariamente russófoba, apoiou o golpe, nas regiões ucraniano-russófonas (Kharkov, Odessa, Crimeia, Donetsk e Lugansk) formaram-se movimentos de resistência anti-Maidan que rapidamente se transformaram em movimentos autonomistas.

A decisão dos habitantes da região da Crimeia e de Sebastopol, em referendo, de aderir à Federação Russa, reatando os laços históricos interrompidos tão só em 1954, levou as formações paramilitares nazis a atacar os movimentos autonomistas no Sul e no Leste da Ucrânia, procurando impedir referendos semelhantes ou simplesmente autonomistas, enquanto estes criavam milícias populares e procuravam ocupar as bases militares nas suas zonas.

Os combates generalizaram-se, num ambiente de cruel guerra civil, e o exército ucraniano interveio utilizando meios militares de destruição não apenas contra alvos militares mas frequentemente contra alvos civis, tendo-se registado bombardeamentos com helicópteros de assalto, aviação, artilharia pesada e mesmo mísseis de alta capacidade destrutiva, sobre povoações, aldeias, quarteirões residenciais e industriais.

De entre os mais de 15-26 mil mortos provocados pelo conflito no Donbass, a maioria entre 2014 e 2015, estimam-se entre 4 a 6 mil mortes directas na população civil, além de dezenas de milhares de feridos e da perda de 1,7-1,8 milhões de habitantes que fugiram ou emigraram para a Rússia – uma catástrofe que não despertou lágrimas no Ocidente.

Segundo estudos demográficos realizados em 2016, a população do Donbass sofreu uma perda de 25-40% do seu potencial demográfico.

Pelo menos 85 oficiais de grupos paramilitares das forças armadas da Ucrânia estão indiciados e são procurados pela procuradoria-geral da Federação Russa, para serem levados a tribunal e julgados por crimes de guerra cometidos no Donbass.

Zelensky promete resistência e pede ajuda

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky decretou a mobilização geral de reservistas «durante 90 dias» em todo o território da Ucrânia. O país encontra-se agora sob lei marcial.

O Estado-Maior General das forças armadas ucranianas determinará o número de recrutas e reservistas a mobilizar durante esse período, bem como os veículos civis a serem postos ao serviço dos militares. O governo assegurará o necessário financiamento à operação às medidas decididas.

O presidente ucraniano pediu «acções rápidas» e «poderosas sanções económicas e financeiras» aos líderes europeus, participantes na reunião de emergência do Conselho Europeu, incluindo a desconexão da Rússia do sistema bancário internacional SWIFT e imporem um embargo ao petróleo e gás russo.

Alegando que «o destino da Europa está a decidir-se na Ucrânia», o presidente ucraniano, que lamentou não ter sido atendido o seu pedido de adesão à NATO, pediu ajuda militar, em armas e munições, bem como o apoio a uma força da paz liderada pela ONU.

«Hoje perguntei aos 27 líderes da Europa quando aderirá a Ucrânia à NATO», afirmou Zelensky, em declaração ao país, para a seguir reconhecer que nenhum Estado se mostrou disposto a patrocinar a sua entrada.

Talvez por isso o presidente ucraniano tenha afirmado também estar disposto a discutir com a Rússia um estatuto neutral para o país e garantias da sua não adesão à NATO.

O secretário de imprensa do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que Vladimir Putin está preparado para estabelecer discussões com o seu congénere ucraniano, focadas na garantia de um estatuto neutral para a Ucrânia e da promessa de desarmamento do território.

O cumprimento dessas condições permitiria, segundo Peskov, a desmilitarização e desnazificação da Ucrânia, e eliminar o que a Rússia considera uma «ameaça existencial» à segurança do seu Estado e do seu povo.

No entanto, não se vê como Zelensky, que até há três dias recusava inclusive guiar-se pelos acordos de Minsk para a reintegração pacífica do Donbass na Ucrânia, poderá agora aceitar tais condições, que marcariam o desmoronar da política de solução pela via militar do conflito, que se arrasta há oito anos.

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