Forças armadas russas lançaram uma operação militar de larga escala em território ucraniano e nas autoproclamadas repúblicas autonomistas do Donbass.
Mais de 70 alvos da infra-estrutura militar da Ucrânia foram atingidos por bombardeamentos, incluindo postos de comando, depósitos de munições, navios, uma base naval, aeroportos-chave e estações de radar de mísseis de defesa anti-aérea.
As acções militares decorrem predominantemente nas regiões do Leste (Donbass, Kharkov) e do Sul da Ucrânia (Kherson e Odessa), mas também atingem o centro do país (Kiev, Chernigiv).
Em paralelo, as milícias populares das autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk iniciaram uma contra-ofensiva para ocupar os territórios perdidos durante a ofensiva do exército ucraniano em 2014-2015. Combate-se nesta linha da frente e tanto os rebeldes como o exército ucraniano reivindicaram a vitória na localidade de Schastya.
Não se confirma a ocupação do porto de Mariupol, apesar de veículos militares ucranianos terem sido vistos a deixar a cidade.
Tropas russas entraram em território ucraniano pelo Sul, a partir da Crimeia, na direcção de Kherson e Odessa, e no Leste, pela linha Belgorod-Kharkiv. Em Kiev foram destruídas as instalações da Guarda Nacional e há notícia de forças aerotransportadas desembarcarem no aeroporto de Gostomel, perto de Kiev.
Tanto fontes russas como ucranianas reconhecem ou reivindicam a destruição de material bélico e a causa de baixas militares (mortos, feridos e capturados).
Operação militar comandada e anunciada por Putin
A intervenção, decidida pelo presidente Vladimir Putin, foi anunciada como uma resposta ao pedido de ajuda formulado pelos dirigentes das autoproclamadas República Popular do Donetsk (RPD) e República Popular de Lugansk (RPS), «de acordo com o Artigo 51 (Capítulo VII) da Carta das Nações Unidas, com a autorização do Conselho da Federação Russa e em execução dos tratados de amizade e assistência mútua» com a RPD e a RPS.
O objectivo da operação foi declarado como a «desmilitarização e desnazificação da Ucrânia», bem como «a protecção de pessoas que, desde há já oito anos, enfrentam a humilhação e o genocídio perpetrado pelo regime de Kiev».
A RPD ea RPL resultam de uma generalizada revolta contra o golpe de Estado de Maidan, apoiado pelos EUA, pela UE e pela NATO, que derrubou o governo legitimamente eleito e colocou o governo e o exército do país nas mãos de forças nacionalistas e da extrema-direita, algumas declaradamente nazis.
Enquanto a parte ocidental do país, maioritariamente russófoba, apoiou o golpe, nas regiões ucraniano-russófonas (Kharkov, Odessa, Crimeia, Donetsk e Lugansk) formaram-se movimentos de resistência anti-Maidan que rapidamente se transformaram em movimentos autonomistas.
A decisão dos habitantes da região da Crimeia e de Sebastopol, em referendo, de aderir à Federação Russa, reatando os laços históricos interrompidos tão só em 1954, levou as formações paramilitares nazis a atacar os movimentos autonomistas no Sul e no Leste da Ucrânia, procurando impedir referendos semelhantes ou simplesmente autonomistas, enquanto estes criavam milícias populares e procuravam ocupar as bases militares nas suas zonas.
Os combates generalizaram-se, num ambiente de cruel guerra civil, e o exército ucraniano interveio utilizando meios militares de destruição não apenas contra alvos militares mas frequentemente contra alvos civis, tendo-se registado bombardeamentos com helicópteros de assalto, aviação, artilharia pesada e mesmo mísseis de alta capacidade destrutiva, sobre povoações, aldeias, quarteirões residenciais e industriais.
De entre os mais de 15-26 mil mortos provocados pelo conflito no Donbass, a maioria entre 2014 e 2015, estimam-se entre 4 a 6 mil mortes directas na população civil, além de dezenas de milhares de feridos e da perda de 1,7-1,8 milhões de habitantes que fugiram ou emigraram para a Rússia – uma catástrofe que não despertou lágrimas no Ocidente.
Segundo estudos demográficos realizados em 2016, a população do Donbass sofreu uma perda de 25-40% do seu potencial demográfico.
Pelo menos 85 oficiais de grupos paramilitares das forças armadas da Ucrânia estão indiciados e são procurados pela procuradoria-geral da Federação Russa, para serem levados a tribunal e julgados por crimes de guerra cometidos no Donbass.
Zelensky promete resistência e pede ajuda
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky decretou a mobilização geral de reservistas «durante 90 dias» em todo o território da Ucrânia. O país encontra-se agora sob lei marcial.
O Estado-Maior General das forças armadas ucranianas determinará o número de recrutas e reservistas a mobilizar durante esse período, bem como os veículos civis a serem postos ao serviço dos militares. O governo assegurará o necessário financiamento à operação às medidas decididas.
O presidente ucraniano pediu «acções rápidas» e «poderosas sanções económicas e financeiras» aos líderes europeus, participantes na reunião de emergência do Conselho Europeu, incluindo a desconexão da Rússia do sistema bancário internacional SWIFT e imporem um embargo ao petróleo e gás russo.
Alegando que «o destino da Europa está a decidir-se na Ucrânia», o presidente ucraniano, que lamentou não ter sido atendido o seu pedido de adesão à NATO, pediu ajuda militar, em armas e munições, bem como o apoio a uma força da paz liderada pela ONU.
«Hoje perguntei aos 27 líderes da Europa quando aderirá a Ucrânia à NATO», afirmou Zelensky, em declaração ao país, para a seguir reconhecer que nenhum Estado se mostrou disposto a patrocinar a sua entrada.
Talvez por isso o presidente ucraniano tenha afirmado também estar disposto a discutir com a Rússia um estatuto neutral para o país e garantias da sua não adesão à NATO.
O secretário de imprensa do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que Vladimir Putin está preparado para estabelecer discussões com o seu congénere ucraniano, focadas na garantia de um estatuto neutral para a Ucrânia e da promessa de desarmamento do território.
O cumprimento dessas condições permitiria, segundo Peskov, a desmilitarização e desnazificação da Ucrânia, e eliminar o que a Rússia considera uma «ameaça existencial» à segurança do seu Estado e do seu povo.
No entanto, não se vê como Zelensky, que até há três dias recusava inclusive guiar-se pelos acordos de Minsk para a reintegração pacífica do Donbass na Ucrânia, poderá agora aceitar tais condições, que marcariam o desmoronar da política de solução pela via militar do conflito, que se arrasta há oito anos.
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