Intitulado «As portas de entrada da tecnologia do genocídio na Europa», o relatório, promovido pelo Observatório de Direitos Humanos e Empresas no Mediterrâneo em conjunto com outras três organizações, denuncia que «a Europa facilita a actuação de empresas ligadas ao genocídio na Palestina no mercado europeu» e detalha como a UE é «um destino estratégico para a actividade empresarial israelita», com a entrada de «empresas militares, de cibersegurança, de vigilância, de drones e de inteligência artificial ligadas à ocupação, ao apartheid e ao genocídio na Palestina».
No texto de 90 páginas, a que elDiario.es teve acesso antes da sua publicação, a equipa de investigação destaca nove vias de penetração na União Europeia (UE) e Reino Unido de «empresas israelitas cúmplices, com protagonismo ou cuja tecnologia foi utilizada no genocídio na Palestina», e identifica duas dezenas de empresas israelitas do sector da defesa tecnológica cuja presença se consolidou no mercado europeu nos últimos dois anos.
Fazem-no através de uma arquitectura diversificada que combina «a criação de subsidiárias e filiais, a compra de empresas europeias, a participação em estruturas supranacionais como a NATO, o acesso a instituições e fundos de investigação europeus e acordos bilaterais com estados com regulamentos mais flexíveis».
Alterar o nome de empresas ou criar filiais em território europeu são métodos utilizados para canalizar a venda de armas e contornar os controlos. O financiamento militar europeu para Israel é também disfarçado como cooperação científica, canalizado através de institutos tecnológicos e universidades.
A título de exemplo, o relatório refere que fabricantes de armamento israelitas como a Elbit Systems e Israel Aerospace Industries estão a beneficiar de subsídios públicos europeus.
Rearmamento europeu como via
O relatório indica que o plano de rearmamento europeu, o aumento das despesas militares exigidas pela NATO e a expansão da Aliança Atlântica beneficiam as empresas ligadas ao ecossistema israelita.
Instrumentos como o Defence Innovation Accelerator for the North Atlantic (DIANA), o NATO Innovation Fund ou a NATO Support and Procurement Agency funcionam como aceleradores desta integração.
«A UE utiliza tecnologia israelita para impulsionar os seus planos de rearmamento», afirmam os investigadores.
Guerra na Ucrânia
A guerra na Ucrânia é outra das vias de penetração das empresas israelitas, que entram na Europa de Leste através de contratos, alianças industriais, plataformas de inovação e redes de produção. A guerra na Ucrânia «serve de campo de testes, espaço de validação e área de projecção comercial», reforça a posição destas empresas junto da NATO e «facilita novas oportunidades de negócio».
«Os testes de armas e tecnologia na Ucrânia, bem como o estabelecimento de alianças militares naquele país, abrem as portas a contratos com a NATO», sublinha o relatório.
Alemanha, Chipre e Luxemburgo
A Alemanha é outro ponto de entrada fundamental, servindo de epicentro do lobby militar israelita na Europa. «A Alemanha quer tecnologia militar israelita para se rearmar e expandir a sua indústria militar», refere o texto.
Para este efeito, além dos contratos, recorre a estruturas influentes como a European Leadership Network ou o Israel Defence and Security Forum.
Chipre procura investimento estrangeiro para se tornar uma «Startup Nation», inspirado no modelo israelita. O informe identifica este país como uma plataforma que facilita a aterragem gradual de empresas israelitas, graças às «vantagens fiscais, proximidade geográfica, flexibilidade regulatória e falta de controlo efectivo sobre os produtos de cibervigilância», o que «facilita a criação de estruturas opacas».
O Luxemburgo está a consolidar-se como plataforma de lançamento para as empresas israelitas. Um dos exemplos mais marcantes é o Grupo NSO, fabricante do spyware Pegasus. Esta empresa israelita «tem sido amplamente denunciada por organizações de direitos humanos de todo o mundo por desenvolver e comercializar tecnologia de espionagem incontrolável».
O Grupo NSO «opera a partir do Luxemburgo através de uma estrutura global complexa, fragmentada e deliberadamente opaca, com empresas-mãe e subsidiárias que permitem ao grupo transitar entre jurisdicções e contornar regulamentos rigorosos».
Feiras, rebranding e subsidiárias
A participação em feiras de tecnologia e cibersegurança é outro mecanismo de acesso à UE. Israel expande a sua indústria militar através de embaixadas em pólos tecnológicos da NATO (como a Estónia), através deste tipo de feiras e através do estabelecimento de acordos entre agências de internacionalização e inovação com congéneres europeias.
Cidades como Barcelona, Bruxelas, Madrid, Londres, Nuremberga e Praga permitem às empresas israelitas «apresentarem-se como actores civis e inovadores, ocultando os seus laços com a indústria militar e de vigilância».
Outra via é a compra de empresas europeias, a criação de novas filiais ou a mudança de marca (rebranding). Desta forma, as empresas israelitas conseguem operar na UE, aceder a financiamento europeu e apresentar-se como actores europeus legítimos.
«Empresas com ligações ao genocídio contra o povo palestiniano abrem filiais comerciais, adquirem empresas ou criam fábricas de produção de armamento e de desenvolvimento tecnológico nas principais capitais europeias», alerta a investigação.
A título de exemplo, refere o caso da Intracom Defense-IAI, que participa actualmente em quinze projectos do Fundo Europeu de Defesa. Sete destes contratos foram adjudicados após a venda da empresa à empresa israelita IAI e o início do genocídio em Gaza, em Outubro de 2023.
Embora a Intracom Defense esteja registada e sediada na Grécia (e tenha também representação grega no seu conselho de administração), os seus registos financeiros de 2024 mostram que 94,5% das acções pertencem à IAI, que, de acordo com os registos mais recentes da empresa israelita, detém 100% dos direitos de voto na Intracom.
UE deve tomar medidas
Nas conclusões, o relatório destaca a obrigação da UE e dos seus estados-membros de «prevenir o genocídio, os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade, e de não contribuir directa ou indirectamente para os mesmos», conforme estipulado pelo direito internacional e pelos seus tratados.
As organizações responsáveis pela investigação, bem como o próprio relatório, defendem uma série de medidas, por via das quais a UE deve proibir, sancionar, monitorizar e impedir as relações comerciais que reforcem o complexo militar-industrial israelita.
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