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O início da Covid-19

Este é o primeiro de uma série de artigos em que Jorge Seabra se debruça sobre o desenvolvimento da primeira fase da Covid-19, em Portugal e no mundo, começando pela China.

CréditosRoman Pilipey / EPA

Falar da pandemia Covid-19 é falar de tudo o que bruscamente se modificou no arranque da nova década, fazendo aflorar muitos antagonismos e contradições na forma de organização societária criada pelo domínio dos «mercados», tornando ainda mais obscura e desafiante a construção do futuro.

Pela importância histórica e repercussão multifacetada do acontecido, este é o primeiro de vários artigos que se seguirão sobre o tema, tendo como finalidade fornecer dados de análise dos primeiros tempos de evolução da Covid 19, relembrando marcos importantes da sua cronologia e a reacção dos diversos governos, países e organizações internacionais ao primeiro embate da pandemia, sem que ainda se saiba como e quando ela acabará.

No conjunto procurar-se-á caracterizar as opções assumidas face à sua propagação e perigosidade, sem esquecer a intensa batalha política e ideológica que fez aflorar estratégias egoístas e desumanas, que não hesitaram em distorcer totalmente a realidade e afrontar o conhecimento científico e as suas instituições mais prestigiadas. 

Como afirma o conhecido jornalista e sociólogo Ignacio Ramonet, «já ninguém ignora que a pandemia não é só uma crise sanitária. É o que as ciências sociais qualificam como "acontecimento social total", no sentido que altera o conjunto das relações sociais e afecta a totalidade dos actores, das instituições e valores.»1

Os reflexos da pandemia, que vão dos rápidos avanços na investigação científica ao forte impacto sócio-económico mas também à instabilidade e instrumentação políticas, fazem com que, para os analisar, valha a pena começar pelo princípio.

Seguindo a fita do tempo descrita, a 4 de Abril, no artigo «O papel da China ante o corona shock», publicado pela Globetrotter do Independent Media Institute, a Dra. Zhang Jixian, directora do Departamento de Medicina Respiratória da Província de Hubei, observou, entre 26 e 30 de Dezembro de 2019, sete doentes com febre alta e tosse que tinham visitado o mesmo mercado de frutos do mar. Os exames complementares descartaram gripe e outras viroses conhecidas. 

As autoridades sanitárias de Hubei tomaram conhecimento do novo vírus a 29 de Dezembro, três dias depois dos primeiros casos de pneumonia atípica e, a 31 de Dezembro, a Organização Mundial de Saúde (OMS/WHO) foi alertada pelas autoridades chinesas. 

Também os doutores Li Wenliang (oftalmologista do Hospital Central de Wuhan) e Ai Fen (chefe do Departamento de Emergência) desempenharam um papel destacado nos avisos de alerta para o novo vírus na confusão dos primeiros dias, tendo sido repreendidos pelas autoridades locais que pensaram estar perante notícias falsamente alarmistas publicadas nas redes sociais.

A inicial atitude censória das autoridades (logo depois revertida) que não teve qualquer influência na posição das instituições sanitárias oficiais da China – tem sido artificialmente empolada e largamente utilizada pela propaganda ocidental sinófoba.

Ainda segundo o mapa do tempo elaborado pela Globetrotter, no dia de Ano Novo (1-1-2020), o Centro Chinês de Controle de Doenças contactou o Dr. Robert Redfield, chefe dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, enquanto ele estava de férias e «O que ele ouviu chocou-o», escreveu o New York Times.

Uma semana mais tarde, no dia 7 de Janeiro de 2020, os cientistas chineses anunciaram o isolamento de um novo coronavírus.

Cinco dias depois, a 12 de Janeiro, partilharam a sequenciação da sua estrutura genética com a Organização Mundial de Saúde permitindo o seu uso sem barreiras a investigadores de todo o mundo, dando uma decisiva contribuição para o desenvolvimento de testes de diagnóstico e de uma vacina. 

A 11 de Janeiro morreu o primeiro doente chinês por coronavírus, e a 20 de Janeiro, o doutor Zhong Nanshan especialista em doenças respiratórias e líder na luta contra o SARS 1 (outra epidemia vírica) – afirmou que o novo vírus podia transmitir-se de pessoa a pessoa. 

Três dias depois, a 23 de Janeiro, o governo chinês impôs o confinamento total da cidade de Wuhan (11 milhões de habitantes) e no dia seguinte a província de Hubei decretou o estado de alerta nível 1, iniciando o isolamento de cerca de 60 milhões de pessoas que se manteve por dois meses.

O primeiro artigo científico da autoria dos médicos e investigadores chineses sobre a Covid-19 foi pré-publicado online, a 24 de Janeiro de 2020, no conceituado New England Journal of Medicine (NEJM).

«A China considerou vantajoso o internamento destes doentes em hospitais de campanha com grande capacidade, proporcionando-lhes repouso, alimentação, higiene, distracções (jogos, filmes, TV), manutenção da condição física e outras formas de vida social que não teriam se estivessem sozinhos no domicílio. Assim evitavam também o cansaço e a depressão que o prolongado confinamento no domicílio pode causar (...)»

Nos dias seguintes foram construídos gigantescos hospitais de campanha e mobilizados cerca de quarenta mil médicos para o local entre os quais 1880 equipes epidemiológicas com cinco elementos cada.

A 2 de Abril de 2020, a conhecida revista médica The Lancet publicou um detalhado artigo de médicos chineses sobre os princípios e objectivos da sua estratégia de construção de hospitais de campanha para controlar, tratar e proporcionar uma vida social a milhares de pessoas com formas leves ou moderadas de Covid-19, inaugurando um novo tipo de resposta, impressionante e massiva, em saúde pública.2

A primeira característica destes hospitais foi a rapidez de construção. Aproveitando instalações já existentes (recintos desportivos, pavilhões de exposições e outras) cada «Hospital-abrigo Fangcang» demorou uma média de 29 horas (!) a instalar. 

A segunda, é a sua escala massiva: em Wuhan, em três semanas, 16 hospitais Fancang ficaram operacionais proporcionando 13 000 camas para doentes de baixa e média gravidade com Covid-19. 

A terceira caraterística é o baixo custo de manutenção, exigindo poucos médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde para monitorizarem a evolução de um grande número de doentes. Muito menos do que seria necessário se eles estivessem isolados nas suas casas, melhorando também o controlo clínico e tornando mais rápida e fácil a referenciação e transporte para os hospitais mais diferenciados com cuidados intensivos e ventilação mecânica dos casos que subitamente se agravam.

Essa foi uma opção diferente da de tratar doentes com manifestações leves ou moderadas em casa, maioritariamente escolhida por outros países (como Portugal).

A China considerou vantajoso o internamento destes doentes em hospitais de campanha com grande capacidade, proporcionando-lhes repouso, alimentação, higiene, distracções (jogos, filmes, TV), manutenção da condição física e outras formas de vida social que não teriam se estivessem sozinhos no domicílio. Assim evitavam também o cansaço e a depressão que o prolongado confinamento no domicílio pode causar e a dificuldade em assegurar apoio logístico e sanitário a um enorme número de doentes isolados e dispersos. 

A impressionante escala e rapidez da resposta chinesa à pandemia, não se ficou por aí. Pouco mais de um mês depois do diagnóstico dos primeiros casos, «a 9 de Fevereiro, as autoridades de saúde tinham inspecionado 4,2 milhões de famílias (10,59 milhões de pessoas) em Wuhan; isso significa que eles inspeccionaram 99% da população, um exercício gigantesco».

«A velocidade da produção de equipamentos médicos, particularmente equipamentos de protecção para os trabalhadores médicos, era de tirar o fôlego. Em 28 de Janeiro, a China produzia menos de 10 000 conjuntos de equipamentos de protecção individual (EPI) por dia e, em 24 de Fevereiro, sua capacidade de produção excedia 200.000 por dia. Em 1 de fevereiro, o governo produziu 773 000 kits de teste por dia; em 25 de Fevereiro, produzia 1,7 milhão de kits por dia; até 31 de Março, 4,26 milhões de kits de teste eram produzidos por dia.»3

Estes números impressionantes só podem ser compreendidos num país como a China, com uma população de um bilião e meio de habitantes e uma organização sanitária e hábitos culturais próprios. 

Além disso, conforme sublinha Ignacio Ramonet, «o relativo êxito destes países (Coreia do Sul, China, Taiwan, Hong Kong, Vietnam ou Singapura) contra a Covid-19, explica-se sobretudo pela experiência já adquirida na luta, entre 2003 e 2018, contra o SARS e o MERS, as duas epidemias precedentes causadas também por coronavírus».

«Nenhuma destas pragas (SARS-1 e MERS) chegou à Europa e aos Estados Unidos. O que também explica, em parte, a razão porque os governos europeus e dos Estados Unidos reagiram tarde e mal à pandemia.»4

A rapidez com que foram partilhados os conhecimentos dos médicos chineses com centros de investigação de outros países, foi de imediato elogiada por epidemiologistas de todo o mundo.

A 21 de Janeiro, um dia depois de se saber que o vírus se transmitia entre humanos e três dias antes da primeira publicação chinesa no NEJM, o Prof. James Le Duc, director do Galveston National Laboratory da Universidade do Texas, escreveu na revista dessa importante instituição norte-americana:

«A rápida acção e a comunicação aberta da China está a ajudar o mundo a preparar-se para outra doença infecciosa potencialmente devastadora. Enquanto a situação evolui rapidamente, esta é a boa notícia que não vai aparecer nos cabeçalhos dos jornais».

A 20 e 21 de Janeiro de 2020, uma equipa da Organização Mundial de Saúde visitou Wuhan tendo, a 21, publicado um primeiro relatório sobre o que se tinha passado desde finais de Dezembro de 2019, passando a fazer comunicações diárias do que estava a acontecer.

Outra equipa da OMS, com 25 investigadores de diversas nacionalidades (entre os quais o norte-americano Clifford Lane, director do National Institute of Allergy and Infectious Diseases e do US National Institutes of Health), deslocou-se a Pequim, Guangdong, Sichuan e Wuhan, entre 16 a 24 de Fevereiro e, no seu relatório, deixou um elogio ao povo e ao governo chinês por terem feito todo o possível para deter a propagação do vírus, referindo que «diante de um vírus anteriormente desconhecido, a China lançou talvez o esforço de contenção de doenças mais ambicioso, ágil e agressivo da história».5

A OMS declarou oficialmente a situação de pandemia a 11 de Março de 2020, quando se tornou evidente que vários países tinham sido afectados. 

Os países e regiões mais próximos, como a Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Macau, tomaram de imediato medidas drásticas de confinamento e protecção – como o uso generalizado de máscaras – seguindo o caminho adoptado pela China, conseguindo controlar eficazmente a primeira onda da pandemia, estabelecendo um padrão de comportamento a ser seguido por outros.

«O exemplar comportamento dos cientistas e autoridades chinesas tem sido alvo de uma campanha de desinformação por parte dos media ocidentais, seguindo a estratégia de Trump e associados de atacar a China, disfarçando os desastrosos resultados da sua própria gestão da pandemia condicionada pelos interesses mais egoístas dos "mercados".»

Ainda citando o Prof. James Le Duc, director do Galveston National Laboratory (USA), «de forma rápida, as autoridades sanitárias chinesas reconheceram o aparecimento de uma nova doença, isolaram de imediato os infectados e instituíram medidas impressionantes para limitarem a disseminação da doença e caracterizar o novo agente patogénico. E, ainda mais importante, foram transparentes na forma como partilharam as suas descobertas com o resto do mundo, permitindo que outras nações tomassem precauções e estivessem atentos ao aparecimento da nova doença. O genoma do novo vírus foi sequenciado e o seu fácil acesso aberto aos investigadores internacionais, possibilitando a rápida exploração de terapêuticas possíveis, desenvolvimentos na capacidade de diagnóstico e de investigação epidemiológica.»6

Em finais de Maio, a China, com um bilião e meio de habitantes, tinha a pandemia controlada, podendo apresentar excelentes resultados, com um total de 82 965 casos e três mortos por milhão de habitantes, não existindo, a 25 de Maio deste ano, nenhum novo infectado. 

Isso contrasta muito favoravelmente com outros países (da Europa, USA, América Latina…) que tiveram a vantagem de serem atingidos mais tarde e puderam utilizar muitos dos ensinamentos adquiridos com a experiência chinesa mas que, apesar disso, tiveram perdas significativamente maiores.

Itália – total de casos 229 858; 542 mortos por milhão de habitantes / Espanha – 282 852 casos; 615 mortos por milhão de habitantes / Grã-Bretanha – 259 559 casos; 542 mortos por milhão de habitantes / Suécia – 33 450 casos; 396 mortos por milhão de habitantes / Portugal – 30 623 casos; 129 mortos por milhão de habitantes/ USA – 1 686 436 casos; 300 mortos por milhão de habitantes. Só no estado de Nova Iorque existiam 371 193 casos e um rácio de 1503 mortos por milhão de habitantes, (Wordlometer a 25-5-20).

Outro aspecto ligado à luta contra a Covid-19 foi a utilização em larga escala de tecnologias digitais que permitem a geolocalização e formas diversificadas de vigilância dos cidadãos, adoptadas pela China e por países tão diversos como a Austrália, Polónia, Nova Zelândia, Singapura, Taiwan (e Portugal com uma app já anunciada), merecendo uma séria reflexão pelo papel intrusivo e facilitador, noutros contextos, de derivas autoritárias.

O exemplar comportamento dos cientistas e autoridades chinesas tem sido alvo de uma campanha de desinformação por parte dos media ocidentais, seguindo a estratégia de Trump e associados de atacar a China, disfarçando os desastrosos resultados da sua própria gestão da pandemia condicionada pelos interesses mais egoístas dos «mercados». Mas a verdade é como o azeite: acaba sempre por vir ao de cima…

(continua na próxima semana)

  • 1. Nodal, Pandemia y el sistema-mundo, 22-4-2020
  • 2. «Fangcang shelton hospitals: a novel concept for responding to public health emergencies» –The Lancet, 2-4-20
  • 3.  Globetrotter, 4-4-20
  • 4.  I. Ramonet, Nodal, Pandemia y el sistema-mundo, 22-4-2020
  • 5.  Report of the WHO-China Joint Mission on Coronavirus Disease 2019 (COVID-19), 16-24 February 2020
  • 6.  Galveston National Laboratory News, Editorial, Feb 4, 2020

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