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O fascínio da União Europeia por Trump

O fascínio por Trump e a sua gente tomou conta dos dirigentes e instituições da União Europeia e dá que pensar: só aconteceu quando o presidente norte-americano conseguiu estabilizar uma equipa constituída por falcões neoconservadores.

Donald Trump, Angela Merkel e outros dirigentes mundiais, durante uma conferência do G7 em Taormina, Itália, 26 de Maio de 2017. Foto de arquivo.
Donald Trump, Angela Merkel e outros dirigentes mundiais, durante uma conferência do G7 em Taormina, Itália, 26 de Maio de 2017. Foto de arquivo. CréditosCiro Fusco/EPA / Agência Lusa

Um fascínio assumido pela política e a figura de Donald Trump atravessa a União Europeia. De lés-a-lés, sem excepções governamentais ou institucionais, do executivo social-democrata envernizado ao fascista em estado bruto, da Comissão ao Parlamento Europeu, passando pelo Conselho Europeu. O homem tem o condão de unir as peças na engrenagem mais desconjuntada à face da Terra. Deixou de haver reparos de ocasião ou palavras azedas; agora, nas situações em que os dirigentes europeus europeístas não acham recomendável ser mais trumpistas que o próprio, quedam-se pelo silêncio aprovador.

Quando o presidente dos Estados Unidos decidiu mandar transferir a Embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém, reconhecendo assim a anexação da cidade santa de três religiões pelo Estado de Israel, ainda houve quem rabujasse. Macron, Merkel e outros disseram coisas, prometeram acções, tudo para consumo mediático, é certo, porque daí não passaram. Nesses dias ainda só algumas humildes colónias do império, do tipo Honduras e Paraguai, correram apressadas a anunciar medida idêntica. A seguir, o assunto saiu de cena: tudo está consumado. O direito internacional existe para ser citado e é quanto basta.

Agora o presidente dos Estados Unidos decidiu reconhecer a anexação dos Montes Golã por Israel, limpando de novo as botas ao direito internacional.

E cai imediatamente o silêncio.

Macron nada disse; Merkel disse nada; Juncker, como sempre imitou-a.

Imaginem que até o ministro Santos Silva conseguiu ficar calado!

Mas foi precisamente nesta altura que a Roménia – empunhando o testemunho da presidência da União Europeia – a Hungria e a Bulgária resolveram anunciar, parafraseando os tweets de Trump, que «é hora» de transferirem as suas embaixadas para Jerusalém. Quiçá outros se sigam, depois de os mais atrevidos – ou subservientes? – terem desbravado o caminho.

Uma questão de pragmatismo

Não tiremos, porém, conclusões apressadas deste comportamento da União Europeia, sobretudo quando há questões de conjuntura internacional que a fazem agir como um bloco, ainda que comandada por alguém do exterior. Mas isto não faz parte da génese e essência da União Europeia?

Isto e o pragmatismo, o instrumento mais adaptado à aplicação da doutrina tecnocrática que a molda.

Percebe-se, assim, que não seja recomendável invocar o direito internacional na questão dos Montes Golã quando do outro lado do reconhecimento, como parte espoliada, está a Síria. E sabe-se muito bem que onde está a Síria está a Rússia, muito provavelmente a China.

É certo que o reconhecimento da mudança de soberania de um território como os Montes Golã é susceptível de enfraquecer um dos argumentos básicos que sustenta a expansão da NATO até à Ucrânia – precisamente a mudança de soberania da Península da Crimeia.

Poderá não parecer coerente ficar em silêncio perante uma situação, a dos Montes Golã, e fazer alarido a propósito de outra, a da Crimeia, que só não é idêntica porque, por acaso, até houve uma consulta popular e foi respeitada a vontade da esmagadora maioria dos eleitores.

Tal jogo de cintura é possível, sim senhores: através do pragmatismo.

É que do outro lado da Crimeia, como do outro lado dos Montes Golã, está a Rússia.

«Inimigo da humanidade»

E a Rússia, como deixou bem claro o Parlamento Europeu em resolução política aprovada em 12 de Março, e por esmagadora maioria, «não é um parceiro; é “um inimigo da humanidade”».

Donald Trump não diria melhor.

A Rússia «anexou a Crimeia»; a Rússia «interfere em eleições» norte-americanas e europeias, mesmo que o «relatório Muller» tenha parido um rato e conclua que não há provas de nada; a Rússia mata «dissidentes» com «armas químicas», ainda que também nada esteja provado; a Rússia «interfere na Líbia» – e o mundo a pensar que tinha sido a NATO a destroçar o país; a Rússia «violou o Tratado INF» – e o mundo outra vez a julgar que tinham sido os Estados Unidos.

Só falta confirmar se foi ou não o próprio Trump quem escreveu a resolução aprovada por 402 votos contra 163 pelo Parlamento Europeu; pelo que este não fez mais do que a sua obrigação.

China quer «dividir os europeus»

Naturalmente, a Rússia não é «toda» a conjuntura internacional.

Há também a China. Neste caso a palavra passa do Parlamento Europeu para a Comissão de Jean-Claude Juncker, ou será de Martin Selmayr, o alemão que mais parece norte-americano e assaltou o cargo de secretário-geral da Comissão Europeia em «golpe de Estado» – a acusação é do Parlamento Europeu?

Pois bem, segundo a Comissão, parafraseando a Senhora Merkel, a União Europeia só deve negociar em bloco com a China; não é aconselhável a qualquer Estado membro negociar isoladamente, como fez agora a Itália, mesmo envolvendo negócios superiores a 20 mil milhões de euros.

A China «quer dividir os europeus», acusa Emmanuel Macron. O que parece injusto e exagerado porque – está provado – para desmembrar a União não é preciso uma coisa com aquelas dimensões.

«Esta obra [– o Nord Stream 2 –] pouco dirá aos europeus. Mas concluí-la ou não representará uma substancial diferença nos bolsos de todos nós: ou o gás natural terá preços acessíveis – de mercado, digamos, porque chega da Rússia; ou será um produto de luxo, porque importado por via marítima na forma de gás liquefeito norte-americano ou vendido por empresas norte-americanas, a única alternativa admitida por Washington»

É preciso muito cuidado com a tecnologia chinesa da Huawei – que até já foi banida nos Estados Unidos, lembra a Comissão. Já o comandante da NATO na Europa, o general Scaparrotti, que não por acaso é norte-americano, tinha advertido que as redes móveis de quinta geração da Huawei «não deverão permitir ligeirezas» por parte dos aliados.

A China, tal como a Rússia, estão obviamente por detrás de Maduro na Venezuela – e se não for verdade acabará por sê-lo, tantos são os esforços de Trump e aliados para internacionalizar uma crise que eles próprios provocaram e alimentam. E quem diz Trump diz o seu agente fascista Guaidó, por sinal da Internacional Socialista, o homem que é «presidente» sem ter concorrido a eleições e está a tentar «implantar a democracia» com actos terroristas como privar milhões de pessoas de acesso a energia eléctrica e outros bens essenciais.

O que são a anexação dos Montes Golã e a imposição da guerra na Síria comparados com os esforços deste grande democrata que Trump criou e a União Europeia adoptou, terrorista treinado por terroristas para «restaurar a legalidade» na Venezuela com os métodos usados para instaurar o fascismo na Ucrânia, com apoio activo da União Europeia?

A saga dos amigos americanos

Regressemos a Martin Selmayr1, o alemão que mais parece norte-americano e que impõe um clima de terror entre os funcionários da Comissão Europeia para que não sejam apuradas todas as peripécias do seu «golpe de Estado» para saltar de chefe de gabinete de Jean-Claude Juncker para secretário-geral da Comissão e dono daquilo tudo.

Pois Selmayr cilindrou as regras do funcionalismo público europeu para chegar ao cargo, não fez concurso nem se demite, como exige o Parlamento Europeu; agora, segundo relatos do jornal francês Libération, não olha a meios para sabotar as investigações sobre o processo que têm sido pedidas pelos eurodeputados, instaurando o terror nos gabinetes de Bruxelas, sobretudo no Departamento Jurídico – onde há, entretanto, um suicídio a registar.

Martin Selmayr joga tudo no presente e também no futuro, uma vez que o mandato de Juncker termina em Outubro.

Ele é um pilar para conduzir Manfred Weber, candidato já aprovado pelo Partido Popular Europeu (PPE, direita e extrema-direita), a próximo presidente da Comissão Europeia.

Manfred Weber, um bávaro de extrema-direita, é alemão, mas um alemão apropriado aos tempos de fascínio europeu por Donald Trump e as suas aventuras político-militares. É da CDU/CSU da senhora Merkel, mas por aqui ficam as afinidades, não porque a chanceler seja uma diligente antifascista mas porque é o único caso na União que ainda dá alguma coisa que fazer ao presidente norte-americano e à cáfila fascista que o rodeia.

E dá que fazer por uma razão: o envolvimento com a Rússia na construção do gasoduto Nord Stream 2, um nó que Washington não descansa enquanto não desatar – tarefa para a qual conta já com os seus fascinados admiradores europeus.

«O fascínio por Trump tomou conta dos dirigentes e instituições da União quando o presidente norte-americano conseguiu estabilizar uma equipa constituída por falcões neoconservadores, fascistas com currículos que os ligam a actos e comportamentos terroristas, como são os casos de Michael Pence, vice-presidente; Michael Pompeo, secretário de Estado; John Bolton, conselheiro de segurança nacional; nomes a que devem acrescentar-se os de Elliot Abrams e o senador Marco Rubio, executores directos da estratégia terrorista contra a Venezuela. O fascínio por Trump e a sua gente que grassa na Europa dá que pensar; com a agravante de ser uma das raras argamassas que consegue colar os cacos da União Europeia»

Por exemplo, a maioria do Parlamento Europeu que declarou a Rússia «inimigo da humanidade» recomenda, na mesma resolução política, que o Nord Stream 2 seja cancelado.

Esta obra pouco dirá aos europeus. Mas concluí-la ou não representará uma substancial diferença nos bolsos de todos nós: ou o gás natural terá preços acessíveis – de mercado, digamos, porque chega da Rússia; ou será um produto de luxo, porque importado por via marítima na forma de gás liquefeito norte-americano ou vendido por empresas norte-americanas, a única alternativa admitida por Washington.

Para isso há que liquidar o projecto em que Merkel continua empenhada, embora alvo de pressões cada vez mais fortes. Entre os adversários está precisamente o seu correligionário bávaro Manfred Weber, o candidato favorito à presidência da Comissão Europeia, um amigo americano que conta com outro amigo americano enviado à sua frente como secretário-geral: Martin Selmayr. Eis a União Europeia e o seu inconfundível pragmatismo.

Há que registar, quase como rodapé, um facto que merece meditação.

Quando Trump chegou à presidência, o mundo percebeu que levou tempo até estabilizar a sua equipa de colaboradores mais próximos, entre os quais houve sucessivas demissões. Nessa época ainda era possível ouvir, na União Europeia, vozes dissonantes em relação aos comportamentos da administração de Washington.

O fascínio por Trump tomou conta dos dirigentes e instituições da União quando o presidente norte-americano conseguiu estabilizar uma equipa constituída por falcões neoconservadores, fascistas com currículos que os ligam a actos e comportamentos terroristas, como são os casos de Michael Pence, vice-presidente; Michael Pompeo, secretário de Estado; John Bolton, conselheiro de segurança nacional; nomes a que devem acrescentar-se os de Elliot Abrams e o senador Marco Rubio, executores directos da estratégia terrorista contra a Venezuela.

O fascínio por Trump e a sua gente que grassa na Europa dá que pensar; com a agravante de ser uma das raras argamassas que consegue colar os cacos da União Europeia.

  • 1. Martin Selmayr (n. 1970) pertence a uma família bávara com ligações ao exército e à segurança germânicas há três gerações. Pela linha paterna é neto do general Josef Selmayr (1905-2005), coronel do exército alemão sob Hitler, condenado por crimes na Jugoslávia e recuperado pelos aliados. Integrou a organização Gehlen (ao serviço da CIA) e a contra-espionagem alemã. E é filho de Gerhard Selmayr (n. 1935), responsável por livros branqueando a imagem do precedente e com ligações ao exército e ao ministério da Defesa da República Federal Alemã (RFA). Pelo lado materno, é neto do general Ludwig Heinrich "Heinz" Gaedcke (1905-1992), coronel do exército de Hitler e, em 1956, um dos primeiros generais do novo exército alemão criado pela RFA.

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