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Na guerra entre Paris e Londres quem morre são os migrantes

Mais de 27 migrantes morreram ao tentar atravessar o Canal da Mancha, provocando uma troca de acusações entre Macron e Boris Johnson. No mar vai continuar a morrer gente.

Criança migrante aquece-se junto a uma fogueira à entrada da sua tenda em Grande-Synthe, perto de Dunquerque, a 25 de Novembro de 2021. Mais de mil migrantes permanecem na costa francesa do Pas-de-Calais, esperando uma oportunidade de atravessar o Canal da Mancha em direcção ao Reino Unido
Criança migrante aquece-se junto a uma fogueira à entrada da sua tenda em Grande-Synthe, perto de Dunquerque, a 25 de Novembro de 2021. Mais de mil migrantes permanecem na costa francesa do Pas-de-Calais, esperando uma oportunidade de atravessar o Canal da Mancha em direcção ao Reino UnidoCréditosMohammed Badra / EPA

O «recente aumento« na utilização dos caiaques levou a loja Decathlon em Calais a repensar a venda de produtos que «podem ser desviados do seu uso desportivo». Segundo La Voix du Nord, a empresa anunciou que não venderá mais barcos que possam ser utilizados para atravessar o canal.

O Decathlon retirou caiaques da venda na sexta-feira passada, embora por agora não esteja a planear deixar de vender outros equipamentos que também estão a ser comprado por migrantes, tais como coletes salva-vidas e pás.

Além da loja de Calais, a Decathlon anunciou que fará o mesmo com as lojas de Grande-Synthe, Le Touquet e Boulogne sur Mer. «Os nossos empregados alertaram-nos de que os barcos que vendemos, especialmente caiaques, podem ser utilizados por migrantes que tentam atravessar o Canal», disse a empresa numa declaração.

A presidente da Câmara de Calais, Natacha Bouchart, considerou a decisão do Decathlon «positiva» em declarações ao canal de televisão BFM, nas quais indicou que a empresa «não quer parecer ligada nem a traficantes nem a associações que apoiam migrantes».

As luzes do lado oposto do Canal da Mancha estavam visíveis na quinta-feira, 25 de Novembro, e isso encorajou o migrante Emanuel Malbah, que passou a última semana em um acampamento improvisado no litoral norte da França, sonhando em fazer a travessia. «Acho que não vou morrer», ele disse. «Acho que vou chegar à Inglaterra.», disse a um repórter do The New York Times.

O facto de terem morrido afogados mais de 27 emigrantes a tentar fazer o mesmo, na véspera, não o faz desistir. Depois de deixarem os seus países de origem no Médio Oriente e na África, atravessando continentes e o Mediterrâneo para conseguir chegar à Europa, parece faltar muito pouco para que Malbah e 16 outros emigrantes consigam atingir a sua meta.

Ele próprio partiu da Libéria, na África ocidental, mais de um ano atrás, e fez a travessia traiçoeira do Mediterrâneo, chegando à Itália. Na quinta, falava, com o The New York Times, numa área arborizada perto da praia, onde dezenas de outros migrantes procuravam abrigar-se da chuva por baixo de lonas azuis e tentavam-se aquecer à volta de uma fogueira.

Apesar das mortes – e o desastre de quarta-feira foi um dos mais mortíferos dos últimos anos envolvendo migrantes na Europa–, na quinta Malbah e outras pessoas ainda aguardavam o melhor momento para sair correndo do mato com seus próprios botes e tentar chegar à praia.

«Este é o novo Mediterrâneo», garantiu Malbah, que chegou a Calais há uma semana. Ele aludia ao cenário da crise de migrantes de 2015 que abalou a Europa. Um Mediterrâneo, que desde 2014, já serviu de cemitério a mais de 13 mil migrantes.

Quando só se tenta fazer de polícia

Instigados pela tragédia no mar no dia 24 de Novembro, líderes franceses e britânicos prometeram combater as travessias de migrantes pelo canal que separa seus dois países. Atribuíram o que aconteceu a grupos organizados de traficantes de pessoas e também se responsabilizaram uns aos outros.

As mortes lembraram a todos que pouca coisa mudou nos cinco anos passados desde que as autoridades francesas desmontaram um grande acampamento de migrantes em Calais. Os dois países ainda lutam para controlar os migrantes na área, seguindo uma política que, para especialistas em imigração e organizações de defesa dos direitos de migrantes, submete os candidatos a asilo a perigo desnecessário.

«A França cumpre funções para o Reino Unido como agente, do mesmo modo que a Turquia faz com a Europa», disse ao diário norte-americano o especialista em migração François Héran, do Collège de France, em Paris. «Por que permite a França que policiais britânicos actuem em solo francês para ajudar a barrar a imigração? É porque compartilhamos a mesma ideologia de que esses candidatos a asilo são indesejáveis.»

Mortos numa espécie de «piscina insuflável»

No dia 24 de Novembro, em que uma embarcação insuflável se virou ao largo da costa de Calais, França, pelo menos 27 pessoas afogaram-se; algumas outras foram apanhadas pela guarda costeira francesa. Tentavam chegar à Grã-Bretanha através de uma rota cada vez mais popular e perigosa. Após anos de esforço por parte das autoridades para impedir a chegada de migrantes vindos do continente guardados em camiões, número crescente deles começaram a tentar atravessar o Canal da Mancha em pequenas embarcações. No dia 11 de Novembro, o total de imigrantes que chegou à costa de Kent atingiu 1185, um número recorde para um único dia.

As autoridades francesas confirmaram na quinta-feira que crianças e uma mulher grávida estavam entre os migrantes afogados. Equipas de resgate trabalhavam sob o frio e o vento cortante para recuperar corpos e tentar identificar os mortos. Dois sobreviventes, um vindo do Iraque e outro da Somália, foram levados a um hospital francês com hipotermia grave.

O ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, disse que as autoridades acreditam que 30 pessoas estavam comprimidas numa embarcação que ele comparou a «uma piscina insuflável de jardim».

Dados providenciados pelas autoridades francesas indicam que o número de barcos a tentar atravessar o Canal da Mancha em 2021, até aos últimos dias, foi quatro vezes superior ao contabilizado em 2019. Nesse ano, 173 barcos foram bem-sucedidos, tendo sido interceptados 130 migrantes.

Segunda-feira passada foi revelado que o número de migrantes a alcançar o Reino Unido por barco, este ano, superou mais de três vezes o total registado em 2020.

Em 2021, mais de 728 barcos com migrantes conseguiram fazer a travessia, tendo sido intercetados mais 820, o que significa que mais de 18 000 pessoas alcançaram as costas inglesas só este ano, concluíram as autoridades francesas.

De acordo com estatísticas francesas, nos primeiros 10 meses do ano 24 655 pessoas tentaram cruzar o Canal da Mancha ilegalmente para chegar ao Reino Unido, um número muito superior em comparação aos 9551 em todo o ano de 2020.

Os serviços de resgate franceses salvaram 5713 migrantes entre Janeiro e Outubro, nas diversas operações em que houve mortes.

Eleitoralismos internos e «guerras» entre Reino Unido e França

As mortes transformaram uma disputa política numa tragédia. Nas últimas semanas, as travessias tornaram-se a maior dor de cabeça do governo britânico. Quase 60% dos eleitores conservadores dizem que a imigração ou asilo é uma das três principais questões que o país enfrenta, e quase 80% que o governo está a lidar mal com o assunto.

Na semana anterior à tragédia, Boris Johnson disse que o governo ia tomar medidas para impedir os pequenos barcos de tentarem a travessia do Canal da Mancha. Mas isto é mais fácil de dizer do que de fazer. No período que antecedeu as eleições de 2019, a já então secretária do Interior, Priti Patel, disse que iria reduzir para metade o número de imigrantes que atravessavam por mar o canal; em vez disso, aumentou quase 14 vezes esse número.

Neste momento, a secretária do Interior Patel chegou a afirmar que o governo do Reino Unido faria uso da força para empurrar os barcos de volta às águas francesas, o que seria ilegal ao abrigo da lei marítima. Outra ideia é manter os requerentes de asilo no mar enquanto os seus pedidos são processados, o que parece uma estratégia para ameaçar, na prática, afogar a maioria de requerentes de asilo.

Depois da morte dos 27 migrantes, Boris Johnson e o presidente francês, Emmanuel Macron, concordaram em trabalhar em conjunto e fazer «tudo o que for possível» para apanhar os grupos de traficantes de seres humanos. «A França não deixará que o Canal se torne um cemitério», declarou, solene, Emmanuel Macron.

Mas a cooperação requer confiança, que é escassa. Macron está a lutar pela reeleição em Abril e precisa de ser visto a defender os interesses nacionais. Após as mortes, Boris Johnson expressou a sua frustração pelo facto de a França não ter conseguido impedir a saída das embarcações nas suas praias, e reiterou um pedido para permitir que a polícia britânica patrulhasse as praias do norte de França, o que até agora tem sido recusado. Segundo o Eliseu, Macron respondeu que os britânicos deveriam «deixar de explorar uma situação terrível para fins políticos».

No dia 25 de Novembro, o primeiro-ministro britânico apelou à França para que aceite de volta os migrantes que entraram ilegalmente no Reino Unido provenientes da costa francesa, acentuando as persistentes divergências entre os dois países sobre questões migratórias.

«Propomos que coloquemos em prática um acordo bilateral de readmissão para permitir o retorno de todos os migrantes ilegais que atravessam o Canal da Macha», salientou Boris Johnson, numa mensagem divulgada através da rede social Twitter.

O Presidente francês respondeu esta sexta-feira criticando o primeiro-ministro britânico, dizendo que os seus métodos «não são sérios».

«Fico surpreendido com métodos quando não são sérios. Não se comunica entre líderes sobre estes temas através de mensagens públicas e do Twitter», disse Emmanuel Macron em Roma, durante uma conferência de imprensa com o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, após a assinatura de um acordo bilateral.

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