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Menos empregos e salários mais baixos: trabalhadores indianos mobilizam-se

A culminar uma campanha de quatro meses nos locais de trabalho em defesa de melhores salários e condições, milhares de trabalhadores juntaram-se em Déli e entregaram um documento à Presidente da República.

Créditos / MASA

Milhares de trabalhadores indianos participaram numa concentração, na capital do país, por iniciativa da Mazdoor Adhikar Sangharsh Abhiyan (MASA), uma plataforma que reúne 16 sindicatos sectoriais e federações sindicais de todo o país.

Ao longo dos quatro meses que precederam a mobilização deste domingo, as organizações representativas dos trabalhadores levaram a cabo uma campanha em torno de seis reivindicações centrais, encabeçada pela do aumento do salário mínimo nacional para 26 mil rupias (308 euros) para todos os trabalhadores.

Nos portões das fábricas, nos campos, à entrada das minas, nas muitas zonas industriais espalhadas pela Índia, delegados e activistas sindicais foram também alertando os trabalhadores para a necessidade de: revogar a legislação laboral danosa; pôr fim à privatização do património do Estado; acabar com a precariedade; garantir um subsídio de desemprego no valor de 15 mil rupias (178 euros) mensais; acabar com os despedimentos e garantir protecção social e estabilidade no emprego para todos, indica a plataforma na sua página de Facebook.

Salários baixos e desemprego

O salário mensal de Komal Kant Prajapati, um operário industrial que foi obrigado a mudar de emprego quatro vezes nos últimos dez anos, é tão baixo que jamais poderia dizer à mulher e ao filho de cinco anos que viessem viver com ele em Manesar, no estado de Haryana.

MASA

Em vez disso, Prajapati, de 35 anos, teve de dividir um quarto com mais quatro trabalhadores e, nalguns dias, salta uma refeição – tudo para tentar poupar algum dinheiro e enviá-lo à família, que vive numa aldeia do distrito de Ghazipur (estado de Uttar Pradesh).

«A dura luta pela sobrevivência ficou ainda mais difícil agora», disse ele ao Newsclick no domingo, explicando que tinha «perdido o emprego no mês passado». «Sem trabalho, não tenho outra opção a não ser sair da cidade», acrescentou.

O caso de Prajapati mostra como os trabalhadores indianos «continuam a oscilar sob a pressão de uma economia fraca que não conseguiu garantir rendimentos adequados aos operários ao longo dos anos e, agora, nem sequer consegue criar emprego suficiente», sublinha o periódico.

Elevar a consciência dos trabalhadores, lutar contra as políticas neoliberais

O exemplo de Prajapati mostra por que razão os sindicatos se uniram na MASA e decidiram elevar a consciência dos trabalhadores com acções nos locais de trabalho ao longo dos últimos meses, tendo realizado três convenções regionais em Calcutá, Hyderabad e Déli com vista à mobilização deste domingo.

Na capital, milhares de pessoas provenientes de estados como Rajastão, Bihar, Bengala Ocidental, Tamil Nadu, Gujarate, Punjabe ou Maharashtra fizeram da reivindicação do aumento salarial uma questão central.

Hare Krishna Mathur, trabalhador agrícola de 43 anos, veio do distrito de Purulia, em Bengala Ocidental, e partilhou as mesmas frustrações e problemas de Prajapati. Ao Newsclick, lamentou: «Penso que vou trabalhar toda a minha vida e não vou ser capaz de poupar dinheiro para viver calmamente na velhice.»

MASA

Uma delegação da MASA entregou ao gabinete da Presidente da República, Droupadi Murmu, um documento em que reúne as principais reivindicações pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores na Índia, sublinhando que a «inflação-desemprego-fome persistente» está a empurrar milhares de trabalhadores para «a morte pelo suicídio».

A concentração terminou com um apelo à alteração deste panorama, ao fim da criminalização da sindicalização e ao fim das políticas neoliberais do governo de Narendra Modi.

Por entre palavras de ordem de afirmação dos direitos dos trabalhadores e da melhoria das suas condições de vida, considerou-se fundamental reforçar a acção «militante e contínua» da plataforma sindical.

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