Face ao novo governo dos EUA, que já não se dá ao trabalho de maquilhar as suas motivações imperialistas de sempre, torna-se quase enternecedor observar o desnorte de uma certa esquerda. A mesma que, durante décadas, defendeu a tradição liberal de intervencionismo militar em nome da «exportação da democracia», quando na realidade fornecia a cortina de fumo que legitimava a agressão e dominação dos recursos de outros povos. Quando o imperialismo assume a sua verdadeira face sem pudores, resta-lhes o desvario e a fuga para a frente.
Um desses sinais é a tentativa de projetar a sua própria hipocrisia nos outros, com falsas equivalências entre conflitos radicalmente distintos, num exercício de desonestidade intelectual que pretende descredibilizar quem ousa organizar as populações em torno de uma política anti-imperialista consequente. Assim foi no caso da Palestina. Enquanto o povo palestiniano enfrentava o cerco, os bombardeamentos sistemáticos e uma política de extermínio conduzida pelo Estado de Israel – fiel aliado dos EUA e UE –, e apelava a manifestações de solidariedade, figuras dessa dita esquerda preferiram concentrar as suas energias não contra a denúncia do agressor, mas contra os movimentos que mobilizavam as populações nos seus países a favor do direito de autodeterminação dos palestinianos. O inimigo não era o genocídio, mas quem o denunciava1. Hoje, o guião repete-se em relação às manifestações contra as agressões à Venezuela e às ameaças abertas contra vários países da América Latina.
Outro dos sintomas é o virtuosismo moral de fachada que reaparece nestas ocasiões em que desatam a apregoar que são contra «todos os imperialismos»2, o que é desmascarado pelas suas ações (ou a ausência delas), pois nunca se materializa na defesa de ações concretas contra os EUA e seus aliados. E não é preciso recuar ao apoio expresso às invasões do Iraque ou da Líbia. Basta notar que, no espaço de um ano, os EUA já bombardearam sete países diferentes – marca que já havia sido atingida sob a presidência de Obama, esse ícone da «ordem liberal». E, no entanto, ainda não repetiram os apelos que tão vocalmente fizeram noutros contextos: sanções, corte de relações diplomáticas e comerciais com o agressor, apoio económico e militar aos agredidos, apelos ao direito incondicional à sua defesa.
Curiosamente — coincidência das coincidências — no contexto em que reclamaram reações firmes e consequentes (Ucrânia), acabaram por servir, objetivamente, para reforçar a hegemonia imperial dos EUA, especialmente da sua oligarquia: aprofundando a dependência energética europeia (gás natural liquefeito), canalizando fundos públicos para o complexo militar-industrial norte-americano e abrindo caminho à pilhagem dos recursos ucranianos através da coação (o célebre acordo sobre minerais).
«No espaço de um ano, os EUA já bombardearam sete países diferentes – marca que já havia sido atingida sob a presidência de Obama, esse ícone da "ordem liberal". E, no entanto, ainda não repetiram os apelos que tão vocalmente fizeram noutros contextos: sanções, corte de relações diplomáticas e comerciais com o agressor, apoio económico e militar aos agredidos, apelos ao direito incondicional à sua defesa.»
Este duplo padrão é a expressão perfeita do seu verdadeiro papel: a sua retórica moralista não passa do verniz que recobre e facilita a pilhagem do imperialismo que dizem combater.
É certo que a ausência de sanções contra os EUA e os seus aliados não decorre apenas de conveniência ideológica. Decorre também do receio. Porque os países que ousam enfrentar o império tornam-se imediatamente «alvos a abater»: submetidos a bloqueios, sanções, desestabilização interna e, se necessário, à guerra aberta. A história recente é pródiga em exemplos. Só assim é, pois, os EUA são a principal potência imperialista do nosso tempo, concentrando instrumentos de dominação sem precedentes: a moeda dominante nas transações internacionais (dólar), o controlo das instituições financeiras globais (FMI e Banco Mundial), a NATO como braço armado, superioridade militar esmagadora e a capacidade de estrangular economias inteiras por meio de sanções — que já atingem um terço de todo o mundo. É precisamente por isso que a fábula dos «vários imperialismos» serve apenas para enganar os mais distraídos. Na realidade, existe um bloco imperialista bem definido, com os EUA à cabeça, que age com impunidade e exige submissão ao resto da humanidade.
Qualquer política que se reivindique democrática e internacionalista — fundada na igualdade soberana entre Estados, na cooperação e na solidariedade — tem de reconhecer que o bloco imperialista liderado pelos EUA é o principal obstáculo à sua concretização. Como afirmava Losurdo, não há democratização das relações internacionais enquanto os EUA e seus aliados se arrogarem no direito de ingerência e intervenção militar em qualquer parte do mundo de modo a submeter todos os demais aos seus interesses. É despotismo à escala global.
Aqueles que combatem esse despotismo são, objetivamente, os que defendem a possibilidade de um mundo mais democrático. Já os que relativizam, silenciam ou justificam o imperialismo dominante não passam de seus cúmplices ilustrados.
- 1. Artigo de Fernanda Câncio, datado de 7 de Novembro de 2023, no jornal Diário de Notícias.
- 2. O porta-voz do Livre – Rui Tavares – é um exemplo paradigmático desta teoria, conforme demonstrado nesta thread.
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