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Hasél: «Literalmente não tenho um euro e aqui sobrevivo graças à solidariedade»

O rapper, que esta quarta-feira tem de depor em Maiorca na sequência de outro processo, interposto por fascistas espanhóis, falou a El Salto sobre várias questões, a partir da cadeia de Ponent, em Lleida.

Mural solidário com Pablo Hasél e de denúncia do Regime de 78, o da mal chamada Transição, em Espanha, realizado na cidade de Barcelona (Catalunha) e que foi posterioemente vandalizado 
Mural solidário com Pablo Hasél e de denúncia do Regime de 78, o da mal chamada Transição, em Espanha, realizado na cidade de Barcelona (Catalunha) e que foi posterioemente vandalizado Créditos / Los Replicantes

A entrevista ontem publicada no portal de El Salto antecede a audiência de Hasél, dia 5 de Maio, nos tribunais de Maiorca, depois de uma filial balear de um partido fascista espanhol, com ampla representação parlamentar, ter apresentado uma queixa contra o rapper por este ter queimado uma bandeira de Espanha num concerto nas Ilhas Baleares, em 2019. O Ministério Público não hesitou em aceitar o caso.

A entrevista que Pablo Rivadulla Duró (Lleida, 9/8/1988), mais conhecido como Pablo Hasél, concedeu a El Salto é publicada também a pouco mais de uma semana da manifestação convocada sob o lema «3 meses sem Pablo Hasél, 82 anos sem democracia», que terá lugar em Lleida (Catalunha) no próximo dia 15. Hasél encontra-se na cadeia desde Fevereiro deste ano e enfrenta mais de dois anos de castigo pela alegada prática dos crimes de enaltecimento do terrorismo, injúrias e calúnias à monarquia e às instituições do Estado.

O seu encarceramento trouxe à ribalta a questão há muito debatida da falta de liberdade de expressão em Espanha – para determinados sectores da sociedade – e espoletou uma forte mobilização popular na Catalunha e no resto do Estado.

Questionado sobre o seu quotidiano, Pablo Hasél fala sobre as condições na ala em que fica a sua cela e fala do seu dia-a-dia. «No meu dia-a-dia leio bastante, escrevo, faço o pouco desporto que se pode num espaço tão reduzido e converso com o resto dos presos.»

El Salto refere-se ao aumento da condenação pela falta de pagamento da multa que foi imposta a Hasél pelos delitos de injúrias e calúnias e pergunta-lhe: a liberdade paga-se com dinheiro?

«Mas, sim, se tens muito dinheiro, costumas-te livrar da cadeia, daí que apenas estejam cheias de pobres. A mim, não conseguiram embargar-me nada porque não tinha absolutamente nada.»

«A multa pelas mal chamadas injúrias, pois está provado que conto factos objectivos, é de quase 30 mil euros. Eu literalmente não tenho um euro e aqui sobrevivo graças à solidariedade. Poderíamos ter tentado conseguir essa verba tão elevada também com a solidariedade mas, perante uma condenação tão injusta, nem sequer o concebi. Mas, sim, se tens muito dinheiro, costumas-te livrar da cadeia, daí que apenas estejam cheias de pobres. A mim, não conseguiram embargar-me nada porque não tinha absolutamente nada.»

[…]

«Que por algo assim queiram acrescentar 16 meses de prisão é muito grave e, apesar de até na Europa e em organismos internacionais fazerem constantes chamadas de atenção ao Estado por este tipo de condenações, continuam a fazê-lo. Ademais, a imensa maioria dos órgãos de comunicação escondem os tweets e a canção "Juan Carlos el Bobón" pelos quais querem juntar-me isto [os 16 meses de pena], pois mostram que literalmente prendem por contar a realidade. Como ocultam as condenações e as reprimendas que o Estado recebe de fora.»

Questionado sobre a reforma prevista de alguns artigos do Código Penal relacionados com delitos de opinião, na sequência do seu encarceramento, e sobre o modo como isso poderá afectar a monarquia, o rapper afirmou que se trata «apenas de promessas, sob a pressão popular, para desmobilizar».

«Está à vista que não mexeram um dedo, que não me libertaram podendo fazê-lo, que [o rapper] Valtonyc continua no exílio, que há outros condenados e que pode haver mais sempre à espera de julgamento por estes delitos», disse, acrescentando que são «promessas não cumpridas como tantas outras: derrogar a reforma laboral e a lei da mordaça (que vão ampliar com a lei da mordaça digital), pensões dignas, rendimento mínimo garantido, entre muitas outras coisas».

«Se acabarem por lhes tocar [nos delitos pelos que foi condenado], será mais por pressão popular e ainda falta muita. Se se conseguisse, para a monarquia seria muito mais difícil continuar a impor-se, ao não poder censurar pelo medo a maioria que se opõe ao seu saque insultante e multimilionário. Daí que o regime não queira eliminar as "injúrias" à coroa e outros delitos de expressão para travar as vozes realmente críticas.»

«Se acabarem por lhes tocar [nos delitos pelos que foi condenado], será mais por pressão popular e ainda falta muita. Se se conseguisse, para a monarquia seria muito mais difícil continuar a impor-se, ao não poder censurar pelo medo a maioria que se opõe ao seu saque insultante e multimilionário.»

El Salto refere outros casos que surgem no historial de Pablo Hasél, perguntando-lhe se o Estado anda atrás dele. Referindo-se com detalhe, por exemplo, à propalada «agressão a um jornalista», Hasél afirma que «neste Estado condenam inclusive sem provas» e denuncia que o facto de não pararem de aparecer processos contra ele «mostra que há uma operação de Estado para [o] encarcerar por muitos anos».

Quando El Salto lhe pergunta por que acha que o consideram perigoso, Hasél diz: «Porque como reconheceu a procuradora no meu último julgamento na Audiência Nacional [espanhola]: "É conhecido e incita à mobilização social". Esta sanha não existe só por causa da minha arte revolucionária, que insta a lutar e dá a conhecer numerosas injustiças apontando os responsáveis, também porque milito há muitos anos. Se não tivesse estado organizado dedicando tanto tempo e compromisso a tantas lutas, não me considerariam assim perigoso. Além de ser conhecido, pegam-se [comigo] porque não retrocedi face às suas ameaças constantes e golpes repressivos.»

Afirmando que não se arrependerá de ter lutado, Hasél diz que, na prisão, se informa através das cartas, das chamadas e das visitas. Lê poesia sobre experiências revolucionárias em vários países, além de teoria comunista. «Também acabei de ler um livro do dirigente e ex-preso político dos Panteras Negras Bobby Seale. Não permitiram que entrasse um livro por ter a capa dura (um absurdo, quando o pau da vassoura da cela é mais duro) e não posso trazer mais de seis livros nem ir à biblioteca da prisão. Gostava de ler mais artigos e notícias de meios anticapitalistas, mas, sem Internet, é difícil.»

«Esta sanha não existe só por causa da minha arte revolucionária, que insta a lutar e dá a conhecer numerosas injustiças apontando os responsáveis, também porque milito há muitos anos.»

No que respeita aos demais presos, o rapper afirma que muitos lhe mostraram respeito e lhe expressaram a injustiça da sua condenação, tanto da cadeia de Ponent como de outras prisões, de onde lhe escrevem. E mantém correspondência com outros presos políticos.

No final, Hasél fala daquilo de que tem mais saudades – sobretudo das pessoas de que gosta – e aproveita para lembrar que, também na cadeia, houve cortes à pala da Covid. «Por exemplo, no tempo das visitas, como se, por estarem mais meia hora, pudessem aumentar os contágios.»

Também denuncia as condições dentro da cadeia – péssima comida, elevado preço das chamadas, exploração dos presos, que trabalham por três euros à hora –, que, diz, são escondidas para se passar a imagem de que os presos vivem quase em hotéis ou vão para ali veranear.

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