Confrontação e coexistência na encruzilhada da história
No rescaldo da recente cimeira da China e EUA, na capital chinesa, não abundam, à primeira vista, resultados tangíveis significativos. Salvo os anúncios no plano comercial – abaixo das expectativas e com narrativas não coincidentes das partes – e a criação de duas novas estruturas de articulação institucional, na esfera do comércio e do investimento, não foram apresentados quaisquer acordos palpáveis vinculativos. Tendo sido abordados os principais focos de tensão internacional, não se acordaram vias de solução, nem foi emitido qualquer comunicado conjunto, ao contrário das declarações assinadas pela China e a Rússia, no âmbito da visita de Putin a Pequim desta semana, em torno das relações bilaterais e do posicionamento internacional de ambos os países, integrantes do núcleo fundador da Organização de Cooperação de Xangai e do BRICS, nomeadamente, a declaração sobre o «estabelecimento de um mundo multipolar e de um novo tipo de relações internacionais».
É, contudo, difícil retirar importância à cimeira que juntou na China as duas maiores economias mundiais. O principal elemento a salientar é, antes de mais, o facto da sua realização, em Pequim, após um hiato de nove anos (desde a visita de Trump de 2017, no início do primeiro mandato), e a disponibilidade para prosseguir, ao longo do ano, uma agenda de contactos bilaterais e diálogo de alto nível que inclui a visita de Xi Jinping aos EUA, anunciada para Setembro. Só por si e perante a elevada turbulência e incerteza que caracterizam a situação internacional, este é um elemento positivo, mas não pode ser abstraído da conjuntura de múltiplas dificuldades com que Trump e os EUA se debatem, tanto internamente, como no plano externo.
A posição de fragilidade com que o presidente norte-americano se apresentou em Pequim foi sublinhada pela generalidade dos comentadores internacionais e muitos consideram que, na presente conjuntura, os EUA carecem de capacidade para condicionar a China... É sob este prisma que deve ser analisada a cimeira e extraído o seu significado, com tudo o que pode sinalizar da evolução da correlação de forças entre os dois países e no plano global. Recorde-se que a visita estava anunciada para Abril, mas Pequim rejeitou a sua realização enquanto os EUA (e Israel) bombardeavam o Irão. Regressado de Pequim, Trump ameaça de novo recomeçar e escalar esta guerra ilegítima a qualquer momento, mas as questões de fundo que pressionam a sua administração mantêm-se inalteradas.
Depois de duas rondas de ataques selváticos ao Irão, permanece a incerteza se os EUA estarão em condições de alcançar os objectivos estratégicos de uma guerra, perspectivada de curta duração, antes dos seus stocks de mísseis baixarem a níveis impeditivos e do seu poder militar se expor a novos danos sem precedentes na rede de bases do Pentágono nos países da região (e, no limite, face a uma potencial retaliação iraniana, nas economias e infra-estruturas vitais das monarquias-aliadas do Golfo) e de enfrentar as consequências da degradação da situação económica nos próprios EUA, com as eleições de Novembro para o Congresso no horizonte e as taxas de impopularidade de Trump em novos máximos.
Para além do ulterior abalo nas cadeias produtivas e economia mundial do arrastar dos constrangimentos ao tráfego no Estreito de Ormuz, não sendo de excluir que levem a uma nova recessão. Uma situação verdadeiramente intrincada (também) para os agressores e o imperialismo em geral, sendo sintomático o distanciamento da UE e as declarações do acólito chanceler Merz, de que os EUA estão a ser «humilhados» (o mesmo Merz que, em Junho de 2025, elogiava os ataques de Israel e EUA ao Irão, por fazerem o «trabalho sujo por todos nós»). Um artigo de Robert Kagan, um dos expoentes do pensamento neocon, na revista The Atlantic, publicado nas vésperas da viagem de Trump à China, traça um cenário calamitoso do desaire estratégico para os EUA resultante da derrota frente ao Irão que sugere ser praticamente irreversível. Kagan parece não acreditar no sucesso da continuação da campanha de ataques aéreos, nem numa invasão terrestre, considerando que o beco sem saída criado expôs as fragilidades do país e acelerou o fim da ordem internacional liderada pelos EUA.
Se o impasse da guerra contra o Irão e suas consequências profundas funciona actualmente como o catalisador imediato dos dilemas da Casa Branca, está longe de ser o único ponto de fraqueza com que Trump partiu para a cimeira de Pequim de 14 e 15 de Maio. Sobretudo, na relação com a China, a política de contenção dos EUA continua a revelar-se, no mínimo, contraproducente. Desde 2018, Trump tem sido um dos principais protagonistas da escalada disruptiva anti-chinesa nos planos político, económico, tecnológico, militar, etc. Chegou a ameaçar, numa das suas bravatas, com o decoupling total dos nexos comerciais com a China. No entanto, a realidade dos dois países, das suas relações e inter-dependência, continua a evoluir numa direcção desfavorável aos objectivos postulados pela classe dirigente em Washington, dentro da consideração de que a ascensão da China representa a grande ameaça estratégica à hegemonia mundial dos EUA. Nesta frente crítica, Trump e os EUA têm coleccionado fiascos.
Basta lembrar o insucesso da guerra comercial nos últimos anos, das sucessivas ondas tarifárias e das tentativas de supressão tecnológica da China, que o fracasso das sanções draconianas impostas à empresa Huawei bem ilustra. No regresso à Casa Branca, em 2025, Trump abriu uma nova frente tarifária, chegando a elevar a 145% as taxas aduaneiras das importações oriundas da China. Foi obrigado a recuar face às restrições adicionais introduzidas pela China na exportação de terras raras (o país asiático domina mais de 80% da capacidade industrial mundial de refinação das terras raras, elementos que constituem a espinha dorsal da tecnologia moderna). Comparado com o acordo comercial preliminar assinado pelos dois países em 2019 – que a irrupção da pandemia de Covid-19, em grande medida, acabou por inviabilizar –, a resposta de Pequim foi agora, declaradamente, mais assertiva. Algo que reflecte não só o fortalecimento económico e tecnológico do país asiático, mas igualmente da sua capacidade militar e dissuasora. Não se esqueça que um confronto militar frontal nos mares da China não oferece hoje aos EUA garantias de sucesso.
«Se o impasse da guerra contra o Irão e suas consequências profundas funciona actualmente como o catalisador imediato dos dilemas da Casa Branca, está longe de ser o único ponto de fraqueza com que Trump partiu para a cimeira de Pequim de 14 e 15 de Maio.»
Estas são algumas das linhas de tensão que delimitaram a cimeira de Pequim e que impeliram a Casa Branca a optar, tacticamente, por uma postura de détente. A direcção chinesa está ciente desta realidade. No actual contexto e circunstâncias, incluindo o calendário eleitoral doméstico, os EUA são forçados a privilegiar a gestão da confrontação, a manter pontes e explorar os caminhos da rivalidade sem resvalar para um conflito cinético frontal. Trump, afinal, sabe cumprir o protocolo e conter a verborreia, apesar da irreprimível propensão superlativa e demagogia delirante. Assim, o presidente estadunidense não enjeitou a oportunidade para promover os ganhos «fantásticos» da visita, qualificando-a como um «grande sucesso» e momento «histórico». Num registo unilateral, a parte norte-americana enfatizou os acordos de vendas milionárias à China, de aviões, produtos agrícolas e, também, petróleo e gás natural liquefeito, que o governo de Pequim refreou, considerando tratar-se de acordos preliminares e princípios de entendimento. Mesmo que assim fosse, não há aqui nada de novo.
Por seu lado, Pequim frisou a importância da construção de uma relação bilateral de «estabilidade estratégica», assente no «denominador comum» da «coexistência pacífica». Neste sentido, Xi Jinping foi muito claro ao reiterar que a questão de Taiwan constitui para Pequim uma linha vermelha intransponível, cujo tratamento desadequado poderá levar a um conflito militar directo. O secretário-geral do PCC e presidente da China recebeu há semanas a líder do KMT, e da actual oposição taiwanesa, numa visita histórica que incluiu a homenagem ao fundador do KMT, Sun Yat Sen, no seu Mausoléu em Nanjing. Não é segredo que a China prosseguirá até ao limite do possível a exploração dos caminhos da reunificação pacífica com a ilha, anteriormente, ocupada pelo Japão, e tornada desde a fundação da República Popular, em 1949, refúgio de Chiang Kai Chek e dos derrotados da revolução chinesa, não sem a contribuição dos EUA.
É possível que, por ora, Trump mantenha em banho-maria o pacote de venda de armas a Taiwan, anunciado no final de 2025. Mas, os EUA não vão abdicar da posição de ambiguidade estratégica, em que formalmente reconhecem a existência de «uma só China» e simultaneamente apoiam militarmente e no plano político e económico as forças «independentistas» e o governo de Taipé e promovem a divisão entre os dois lados do Estreito de Taiwan. Nas conversações em Pequim, Trump terá tentado explorar a introdução, na equação envolvendo Taiwan, do imbróglio em que se tornou a guerra contra o Irão – cujo objectivo estratégico visa precisamente a China – e colar Pequim à exigência de «abertura» do Estreito de Ormuz, porém, nada mostra que o esforço de «diplomacia transaccional» tenha surtido efeito.
A visita de Trump já não é a última na verdadeira peregrinação de líderes mundiais à China, incluindo dos chefes de governo dos países do G7 – destes, apenas as primeiras-ministras do Japão e Itália não visitaram a China nos últimos 12 meses. Num mundo avassalado pela «lei da selva» e a ameaça do fascismo (e o que são a guerra na Ucrânia provocada pela NATO, o genocídio de Gaza, o nível demencial de terrorismo de Estado de Israel e EUA e a nova doutrina «Donroe» e a infâmia absoluta a que o imperialismo norte-americano chegou nas agressões e ameaças à Venezuela e Cuba, senão uma manifestação do avanço do fascismo nas relações internacionais?), a China configura um pilar da racionalidade e do progresso.
«Num registo unilateral, a parte norte-americana enfatizou os acordos de vendas milionárias à China, de aviões, produtos agrícolas e, também, petróleo e gás natural liquefeito, que o governo de Pequim refreou, considerando tratar-se de acordos preliminares e princípios de entendimento. Mesmo que assim fosse, não há aqui nada de novo.»
O gigante asiático é o grande promotor do processo de emergência do «Sul Global» que abre caminho à transição para uma nova ordem mundial. Este processo, não isento de dificuldades e contradições, não se deterá, tal como a lenta, mas inexorável, erosão do poder do dólar e da hegemonia dos EUA, no pano de fundo do aprofundamento da crise estrutural capitalista. O vigor da modernização chinesa e da sua projecção internacional têm subjacente a força material da sua posição ímpar como grande potência industrial mundial, com uma cadeia produtiva moderna completa e uma crescente capacidade de inovação tecnológica. O PIB chinês (já líder mundial em termos de PPC), apesar da desaceleração, continua a crescer a taxas perto do triplo da média anual das potências do G7. No comércio, é o maior parceiro de cerca de 120 países. Os EUA ainda são o maior mercado das exportações chinesas, correspondendo, em 2025, a 11-12% do total das suas exportações, o que representa 2% do PIB da China. Dez anos antes, estas cifras eram de 18% e quase 4%, respectivamente. Hoje, o bloco de países da Asean converteu-se no maior parceiro comercial da China, absorvendo perto de 18% das exportações, face a 15% da UE.
Uma avaliação fundamental da cimeira de Pequim terá, necessariamente, de fugir à conjuntura e ater-se às linhas de fundo e tendências magistrais neste tempo de mudança. Só a história mostrará se, na sua intangibilidade, esta contribuiu para uma relação bilateral mais previsível e, fundamentalmente, mitigar os riscos de uma guerra de consequências catastróficas. Paulatinamente, a China continua a fortalecer a sua influência mundial. Trata-se, essencialmente, de continuar a «ganhar tempo» e a «dissolver» as ameaças e riscos mais proeminentes para seguir com a concretização das metas de modernização socialista de 2025/2050. Neste caminho, a direcção chinesa está consciente do incremento dos factores de risco ligados à degradação da situação internacional, não os desligando do plano doméstico, mas insiste em colocar o foco nos riscos internos, como a corrupção, as desigualdades e os desafios da transição para um novo patamar qualitativo do padrão de desenvolvimento do país. Tudo aspectos críticos, por sua vez, para os destinos da actual contenda mundial e da luta pela construção de um mundo melhor.
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