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Agricultores assinalam «Dia Negro» em meio ano de protestos

Quando passam 6 meses sobre o início das mobilizações dos agricultores indianos em defesa do sector, contra o agronegócio, os sindicatos querem mostrar que o movimento está vivo, em circunstâncias adversas.

Agricultores indianos vão assinalar 26 de Maio como um «Dia Negro» 
Agricultores indianos vão assinalar 26 de Maio como um «Dia Negro» Créditos / Newsclick

Representantes da Samyukta Kisan Morcha (SKM) – que integra cerca de 40 organizações de agricultores – anunciaram há dez dias que não deixariam passar o 26 de Maio, dia em que se completam seis meses de luta contra a legislação aprovada em Setembro do ano passado, que os deixa à mercê dos grandes grupos económicos e que, denunciam os sindicatos, põe fim ao preço mínimo garantido, ameaça a segurança alimentar do país e conduz à destruição da pequena agricultura pelo agronegócio.

No mesmo dia, faz sete anos que o primeiro-ministro, Narendra Modi, assumiu o poder e, por tudo isso, a SKM decidiu designar esta jornada como «Dia Negro». De acordo com o projectado pelos organizadores, tanto agricultores como outros cidadãos irão exibir bandeiras negras nas suas casas e veículos, além de queimarem efígies de Modi nas aldeias.

Quando da apresentação da iniciativa, Balbir Singh Rajewal, membro do secretariado da SKM, afirmou que o governo «pensa que a apatia ou simples ignorância enfraqueceriam o movimento, na ausência de negociações». Mas sublinhou que o executivo é «tolo» se crê que os agricultores abandonariam os protestos sem ver cumpridas as suas reivindicações, refere o portal newsclick.in.

Frisou ainda que, embora o movimento agrícola tivesse a noção de que seria apresentado como «vilão», jamais pensou que o governo «descesse tão baixo», ao responsabilizar os agricultores pela falta de oxigénio nos hospitais e pelo aumento dos casos de Covid-19. Isto, lembrou, enquanto o governo se envolvia a fundo nas campanhas para as eleições nos estados.

Vitória para os agricultores no estado de Haryana

Na semana passada, a Polícia espancou brutalmente os agricultores que protestaram na presença do ministro-chefe do estado de Haryana, M. L. Khattar (do BJP, partido de Modi), durante a inauguração de um hospital no distrito de Hisar, cujas autoridades ainda fizeram questão de processar 350 agricultores.

Estes estavam particularmente revoltados com Khattar, depois de ter dito que os agricultores andavam a espalhar o vírus nas zonas rurais ao regressarem das mobilizações em Déli.

No entanto, ontem, com milhares de agricultores concentrados em Hisar, as autoridades não só retiraram as queixas contra os agricultores, como aceitaram indemnizar os visados, que nalguns casos ficaram com os tractores e carros espatifados.

Gurnam Singh Chadhuni, da SKM, anunciou isto aos manifestantes, sublinhando a grande vitória alcançada e tendo considerado que o mais importante foi o pedido de desculpas por parte da Polícia.

No estado de Maharashtra há bastante apoio ao protesto nacional marcado para amanhâ / Newclick

Ashok Dhawale, presidente do All India Kisan Sabha (AIKS), disse ao Newsclick que se tratou de facto de uma grande vitória. «Encontrei-me com vários agricultores que me mostraram feridas e cicatrizes, e era claro que resultavam de uma acção para aleijar as pessoas, não para as dispersar», frisou.

Sobre os protestos programados para amanhã, Dhawale disse que têm dimensão nacional, mas «que se teve o cuidado de não convocar grandes concentrações, tendo em conta a pandemia».

Por seu lado, Balbir Singh Rajewal, da SMK, destacou que todo o mundo está a ver o movimento agrícola indiano e aquilo que vai conseguir com a sua luta. «Nos tempos mais recentes, o mundo não assistiu a um movimento como este, em que as pessoas enfrentam directamente as empresas por um período tão longo», disse, acrescentando que o que está em causa vai muito para além da legislação relacionada com o sector. «Tem a ver com bater o pé e não deixar que os interesses dos grupos económicos mandem nas nossas vidas.»

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