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Um «recomeço» com algumas preocupações

Preocupações com a «abertura gradual» dos equipamentos culturais. Inaugurações on-line em Guimarães, III Bienal de Desenho de Almada, projeto artístico em Lagos e «Vieira da Silva» em Gaia.

«Ambulatório através da poesia de Augusto dos Anjos & António Nobre», exposição de Pedro Bastos
«Ambulatório através da poesia de Augusto dos Anjos & António Nobre», exposição de Pedro BastosCréditos / CAAA

Na altura em que escrevo este texto ainda estamos em estado de emergência, sendo, portanto, muito difícil de prever o que vai acontecer a partir do dia 2 de maio, como vai ser a «abertura gradual» dos equipamentos culturais, principalmente no que se refere às artes plásticas, tendo como principal preocupação como se pensa integrar as atividades expositivas desta área cultural no que se vem definindo como «ir libertando as pessoas do confinamento doméstico».

Temos assistido a alguns artigos, reuniões, cartas abertas, entrevistas, declarações públicas e publicação de decretos1 do governo, tendo como alguns dos protagonistas a ministra da Cultura, a Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE), o presidente da Associação de Municípios, entre muitos outros, acerca das «medidas excepcionais de resposta à pandemia no âmbito cultural e artístico», e ainda sobre a prioridade que deve ser dada no reagendamento das atividades interrompidas, o que obviamente consideramos positivo. Mas se formos ver o conteúdo, principalmente no decreto-lei onde se «confere proteção aos seus agentes», apenas se refere a espetáculos.

É, pois, com bastante preocupação que não se tenha discutido nem assumido publicamente quaisquer compromissos com o público da área das artes plásticas, assim como formas de apoio para proteger os criadores e outros agentes, desta área cultural, que também tiveram as suas atividades encerradas.

Muito se tem falado sobre as artes plásticas, sugerindo museus e outros projetos expositivos que disponibilizam visitas virtuais on-line, que aliás não deixa de ser muito louvável, mas convém referir o enorme esforço de investimento necessário, não estando ao alcance de todas as instituições que promovem exposições, principalmente nas associações culturais sem fins lucrativos.

Os artistas continuam a produzir obras e a desenvolver projetos, mas quanto à forma de comunicar as diversas artes, reduzindo o acesso às novas tecnologias do computador ou da televisão submete-se a sua divulgação a um processo meramente informativo, documental ou transformando-a num outro regime de expressão, que de certa forma já era considerado inadequado antes da covid-19, ou seja, por via da hipercultura comunicacional2 ou da globalização, em que a experiência estética já estava condenada quando não tínhamos acesso à obra de arte.

A experiência estética nas artes apenas é ativada em pleno quando estamos em presença da obra. Para a legitimação e crítica nas artes plásticas é fundamental que ela seja partilhada no espaço público, o que atualmente existe «é um enorme buraco na zona da partilha do sensível»3.

A recuperação deste setor irá com certeza ser lenta quanto à adesão do público e poderá também assumir outras exigências para os artistas, no que se refere aos processos de produção e criação.

Para a próxima quinzena sugerimos alguns projetos que se adaptaram a esta nova situação, outros que têm continuidade na programação das entidades promotoras e outros que esperamos venham a ser reagendados para o período de recomeço e abertura de alguns equipamentos culturais nos próximos meses, para o qual devemos estar atentos.

No dia 18 de abril foram inauguradas on-line4, duas exposições, uma de fotografia, «Alegoria Fotográfica», de Tânia Dinis, e «Ambulatório através da poesia de Augusto dos Anjos & António Nobre», de Pedro Bastos. Estas exposições podem ser vistas no site do CAAA – Centro Para os Assuntos da Arte e Arquitectura.

A exposição de Tânia Dinis «parte de um texto de Pedro Bastos. É trabalho de pesquisa e criação a partir do Álbum de Família. A relação tempo-imagem-memória, a sua construção e organização de imagens, os seus espaços vazios. Estas imagens agora revisitadas, resultam em pequenos ensaios que se multiplicam, transformam, construindo pequenas narrativas, explorando a ideia de imagem como uma experiência da efemeridade do tempo e da memória».

A exposição de Pedro Bastos, foi «criada a partir do filme homónimo, realizado por Pedro Bastos e produzido pela "Bando à Parte" entre 2014 e 2019. Nesta exposição foram usados objetos encontrados, oferecidos ou, construídos para o filme, que, expostos, adquirem novas percepções – à margem da relação anteriormente criada, entre o espetador e a tela de cinema».

A III Bienal de Desenho de Almada – Prémio Pedro de Sousa 2020 é organizada pela Imargem – Associação dos Artistas Plásticos do Concelho de Almada com o apoio da Câmara Municipal de Almada e tem como objetivo incentivar, promover e divulgar atividades de criação artísticas no âmbito das artes plásticas, mais precisamente no desenho.

A Bienal de Desenho de Almada realiza-se desde 2016, em cada uma das edições anteriores têm participado cerca de uma centena e meia de artistas de todo o país. No âmbito desta Bienal vai realizar-se uma exposição com as obras seleccionadas pelo júri e uma exposição de homenagem, sendo este ano dedicada ao artista Pedro de Sousa, no Solar dos Zagallos, em Almada.

Este prémio é aberto à participação de todos os artistas nacionais e estrangeiros residentes em Portugal com mais de 18 anos, é atribuído pela Câmara Municipal de Almada e tem o valor de 1.000,00 euros. O Regulamento pode ser consultado no link do Prémio de Desenho de Almada e a ficha de inscrição poderá ser preenchida e submetida através do formulário em Ficha de Inscrição On-Line de 12 de maio a 12 de junho de 2020.

O roteiro «Villages Art Experience» é um projeto artístico para a comunidade, promovido pelo LAC – Laboratório de Actividades Criativas5, que explora o potencial das intervenções realizadas pelos artistas Xana, Jorge Pereira, Mariana a Miserável, Padure, Susana Gaudêncio, Menau e Tiago Batista dando ênfase às possíveis histórias e estórias que ficaram inscritas nos lugares e nas praças públicas.

O programa apresenta o objetivo de valorizar a arte pública contemporânea no Barlavento a Sotavento Algarvio.

Uma das sessões deste programa realiza-se no dia 16 de maio, tem a duração de seis horas e o seu percurso inicia-se e termina em Lagos. Todas as informações necessárias, inscrições, percurso, hora e local de encontro podem ser encontradas no link do LAC.

«Um olhar singular», Vieira da Silva Créditos

A Casa Museu Teixeira Lopes/Galerias Diogo de Macedo, é um edifício oitocentista, construída em 1895, séc. XIX. Atualmente é uma Casa-Museu que possui uma colecção de esculturas de bronze, mármore e maquetas de gesso da autoria de Teixeira Lopes (1866-1942).

Esta Casa-Museu é composta pela casa que foi de Teixeira Lopes e as Galerias Diogo de Macedo, que foram inauguradas em 1975, onde estão expostas parte da obra e colecção deste artista, doadas pelo próprio à Câmara Municipal de Gaia. As colecções de Arte existentes na Casa-Museu Teixeira Lopes e nas Galerias Diogo de Macedo enquadram, essencialmente, Pintura, Escultura e Artes Decorativas do século XIX e inícios do século XX.

Na Casa-Museu Teixeira Lopes/Galerias Diogo e Macedo6, no Dia Internacional da Mulher, 8 de Março, inaugurou uma exposição retrospetiva «Vieira da Silva. Um olhar singular», prevista estar aberta até 3 de maio. No entanto, encerrou por tempo indeterminado devido às medidas de contingência.

Esta exposição, composta por um conjunto de 64 obras de Maria Helena Vieira da Silva (Lisboa, 1908 – Paris, 1992), tem a parceria do Município de Vila Nova de Gaia com a Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva.

Nesta retrospetiva podemos observar «esboços, estudos anatómicos e pinturas que Vieira da Silva produziu entre 1926 e 1986, procurando destacar o "olhar" singular da pintora, revelando os múltiplos caminhos da sua pesquisa, em busca do enigma do espaço.»

Segundo o texto da exposição, «na carreira de Vieira da Silva, os trabalhos iniciais já traduzem o desejo de compreensão do espaço e deixam adivinhar a criação de um novo conceito. É no espaço fechado do atelier que reavalia a pintura e a relação com o mundo exterior. O espaço interior é reinventado, bem como a perspectiva, com a multiplicação dos pontos de vista. Depois da complexificação das pesquisas dos anos de 1970, começa a sobressair uma crescente depuração plástica...». A exposição será complementada por um núcleo documental multimédia, que apresenta a fotobiografia da artista.

 

 

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

  • 1. Decreto-Lei n.º 10-I/2020 de 26 de março que «Estabelece medidas excecionais e temporárias de resposta à pandemia da doença COVID-19 no âmbito cultural e artístico, em especial quanto aos espetáculos não realizados», e Decreto n.º 2-A/2020 de 20 de março que «Procede à execução da declaração do estado de emergência.»
  • 2. «Uma hipercultura comunicacional e comercial que vê as clássicas oposições da célebre "sociedade do espetáculo": o capitalismo criativo transestético que não funciona com a separação, com a divisão, mas com o cruzamento, com a trama dos domínios dos géneros. O antigo reino do espectáculo desapareceu; foi substituído pelo do hiperespectáculo que consagra a cultura democrática e comercial do divertimento», Gilles Lipovetsky, O Capitalismo Estético na Era da Globalização, Edições 70, 2014.
  • 3. Delfim Sardo, professor, curador e atual administrador do Centro Cultural de Belém, artigo «As artes plásticas não querem ser canceladas» no Ípsilon, Jornal Público, 3 de abril de 2020
  • 4. Nota da entidade organizadora: «Na impossibilidade de abrir as galerias ao público, a Direcção decidiu manter os eventos programados, optando por uma mostra online».
  • 5. LAC – Laboratório de Actividades Criativas, Largo Convento Sra. da Glória (antiga Cadeia de Lagos) 8600-660 Lagos | +351 282 084 959 | lac.associacaocultural@gmail.com | Horário: 3ª e 4ª feira, das 10h30 às 18h00 e 5.ª e 6.ª feira, das 10h30 às 13h00.
  • 6. Casa-Museu Teixeira Lopes/Galerias Diogo de Macedo, Rua Teixeira Lopes, 32, 4400-320 Mafamude. Telefone: 223742904; Email: casamuseuteixeiralopes@cm-gaia.pt; gaiacultura@cm-gaia.pt; http://www.cm-gaia.pt/pt/eventos/vieira-da-silva-um-olhar-singular/. Horário: Segunda a domingo 09h00-12h30/14h00-17h30.

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