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Refletir sobre o mundo e a arte

Do campestre à crise global da migração e dos refugiados. Pedro Botelho em Loures, Jorge Rodrigues em Faro e Pedro Barateiro, Adriana Proganó, Tania Bruguera e Ricardo Nicolau em Almada.

Pedro Barateiro, «Mesa de Trabalho», 2020, Ferro, espelho, objetos, lápis de grafite em carvalho pintados a dourado. Exposição «O meu corpo, este papel, este fogo» de Pedro Barateiro, Casa da Cerca em Almada, até 31 de janeiro de 2021
Pedro Barateiro, «Mesa de Trabalho», 2020, Ferro, espelho, objetos, lápis de grafite em carvalho pintados a dourado. Exposição «O meu corpo, este papel, este fogo» de Pedro Barateiro, Casa da Cerca em Almada, até 31 de janeiro de 2021 CréditosFrancisco Palma

Das temáticas campestres e marinhas de Pedro Botelho, passando pelas «buscas de ritmo» nos desenhos de Jorge Rodrigues e pela «autonomia do desenho» na coletiva «O Lápis Mágico» e por «pensar o corpo, enquanto um repositório político» em Pedro Barateiro, ou interrogar o que é «ser artista hoje» nos trabalhos de Adriana Proganó, refletir sobre o «estado do mundo e da arte» com Ricardo Nicolau e ainda sobre um dos temas mais atuais como as crises globais da migração e dos refugiados em Tania Bruguera, são ótimas razões para iniciarmos este novo ano de 2021 com uma melhor compreensão sobre a situação da arte e ajuda a fortalecer-nos para os desafios que aí vêm.

A Galeria Municipal do Castelo de Pirescouxe1, em Santa Iria de Azóia (Loures) recebe, na sala dois, a exposição «Mar até Cá» de Pedro Botelho, até 9 de janeiro de 2021. Uma exposição de escultura e pintura com obras de Pedro Botelho, abordando temáticas campestres e marinhas, as esculturas são realizadas em diversos materiais como a madeira, a pedra e o ferro.

A Artadentro - Arte Contemporânea é uma associação com associados e colaboradores algarvios mas também de outras regiões de Portugal, está em atividade desde Agosto 2003 e constituiu-se a 14 de Agosto de 2007, em Faro, como associação cultural sem fins lucrativos. Esta associação tem como objetivos estimular a criação, dando particular atenção a artistas em fase de afirmação, à dinamização cultural na promoção e divulgação da Arte Contemporânea, e à ampliação e desenvolvimento de públicos no Algarve.

Pedro Botelho, Galinha Dourada, escultura em madeira. Exposição «Mar até Cá» de Pedro Botelho, Galeria Municipal do Castelo de Pirescouxe, Santa Iria de Azóia/Loures, até 9 de janeiro de 2021 CréditosPedro Botelho /

No Museu Municipal de Faro2 inauguram, em simultâneo, duas exposições integradas no ciclo de arte contemporânea Eklektikós3, «Entre Espaços», de Jorge Rodrigues4, e «O Lápis Mágico», com António Olaio, Tiago Batista e Xana, até 17 de janeiro de 2021.

No texto da exposição informa-se que «os desenhos que Jorge Rodrigues agora nos apresenta, a um tempo, dão continuidade e contrariam um corpo de trabalho anterior. Surgem “pela vontade de trabalhar entre espaços”, agora delimitados no interior da área a trabalhar, introduzindo um elemento dramático, perturbador, que vem ritmar a serenidade luminosa das suas habituais superfícies. Nestes desenhos, Jorge Rodrigues, utilizando um vocabulário frugal, prossegue a sua demanda artística olhando a vastidão do espaço-tempo, na busca do “belo” utópico. Mas, desta vez, preservando um retorno seguro guiado pelo seu “novelo de Ariadne”». Acerca da exposição coletiva «O Lápis Mágico», afirma-se a autonomia do desenho, enquanto «género artístico», em que o desenho se apresenta como representação, mas também, como «Puro Pensamento Visual das “coisas” do Mundo»5.

A Casa da Cerca6 é um Centro de Arte Contemporânea e um equipamento cultural da Câmara Municipal de Almada, existente desde 1993. A Casa da Cerca inaugurou em setembro quatro novas exposições, que podem ser visitadas até 31 de janeiro de 2021: «O meu corpo, este papel, este fogo», de Pedro Barateiro, na Galeria Principal; «Somos todos patos a querer ser cavalos», de Adriana Proganó, na Galeria do Pátio; na Sala de Leitura do Centro de Documentação e Investigação Mestre Rogério Ribeiro podemos visitar «Duvida Press», de Ricardo Nicolau e ainda «Narciso», de Tania Bruguera, apresentada na Capela.

Jorge Rodrigues, «Entre Espaços #1», 70x90 cm. Exposição «Entre Espaços» de Jorge Rodrigues, Museu Municipal de Faro, até 17 de janeiro de 2021 CréditosJorge Rodrigues /

Pedro Barateiro7 desenvolve «uma investigação continuada sobre modos de produção e de significação da linguagem, da imagem e do corpo». Nesta exposição podemos ver o vídeo «My body, this paper, this fire» (O meu corpo, este papel, este fogo)8 que dá nome à exposição, mas também são apresentados desenhos, esculturas, instalações e texto «num percurso que pensa o corpo enquanto um repositório político». A exposição tem cocuradoria de Elfi Turpin e Filipa Oliveira. No texto da exposição é referido que o trabalho de Pedro Barateiro «tem como ponto de partida o exercício do desenho e da escrita, e aquilo que acontece no embate de ambos. (…) É a partir desse confronto que o artista questiona e tenta desconstruir o pensamento binário ocidental, que a ciência e o desenvolvimento científico tentaram impor em todo o mundo através de um sistema financeiro desigual, no qual a produção de capital é o fator de destruição das condições de vida e permanência no nosso ecossistema». Salientamos que o referido vídeo, «My body, this paper, this fire», se inicia com uma descrição e imagens da manifestação contra o aumento das propinas de 24 de novembro 1994, mais conhecida como manifestação da «geração à rasca», referindo-se ainda, que o vídeo parte deste acontecimento para «pensar em formas de entretenimento que se estabeleceram nos anos 1990 como os festivais de Verão; mas também formas de controlo, como drogas legais que tratam ansiedade e depressão, sintomas de uma crescente abstração de uma população exposta ao neoliberalismo mais selvagem.»

Os desenhos apresentados por Adriana Proganó9 situam-se maioritariamente no campo da pintura figurativa. «Nesta exposição, a Casa da Cerca quis mostrar o seu trabalho de desenho, marcado por gestos simples, rápidos (…) intuições, pensamentos aleatórios e sonhos juntam-se a uma figuração onde predomina o humor e a sátira. Proganó constrói um universo pleno de referências, críticas que se prendem com questões de género, feminismo, mas também de interrogações sobre como ser artista hoje.»

A artista cubana Tania Bruguera10 descreve toda a sua obra como uma experiência social. « “Narciso” evoca a crise global da migração e dos refugiados, bem como a falta de empatia do público (europeu, mas não só) para com esta situação. Se muita da arte contemporânea desafia o público a refletir sobre o mundo, nesta escultura o reflexo literal de cada visitante no poço é trocado pela imagem de um migrante. Olham-se nos olhos uns dos outros, numa obra sobre intimidade, proximidade e alteridade».

Apresentada por Ricardo Nicolau, «Duvida Press» é «um projeto artístico anónimo que se apresenta como uma editora que inventa, e desenha, capas para livros que nunca foram escritos. A conjugação das imagens das capas, dos títulos e dos autores instigam à reflexão e meditação sobre o estado do mundo e da arte.»

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Todos os espaços dos eventos, aqui divulgados, cumprem as regras e procedimentos de segurança e proteção sanitária. Informamos que os horários aqui informados poderão ser alterados de acordo com o nível de risco em que os concelhos se encontrem, aconselhamos que os confirmem antes da visita.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

  • 1. Galeria Municipal do Castelo de Pirescouxe. Urbanização do Castelo de Pirescouxe, 2695 Santa Iria de Azóia (Loures); Tel: 211150663/219 590 339. Horário: terça-feira a sexta-feira, das 10h às 13h e das 14h às 18h; sábado, das 10h às 12h30. Encerra aos domingo, segunda-feira e feriados.
  • 2. Museu Municipal de Faro. Praça Dom Afonso III n.º 14, 8000-149 Faro. Horário: terça-feira a sexta-feira, das 10h às 18h; sábado e domingo, das 10h30 às 17h. Encerra à segunda-feira e feriados.
  • 3. O projeto artístico Eklektikós é organizado pela associação Artadentro e pelo Museu Municipal de Faro e decorre até julho de 2021.
  • 4. Jorge Rodrigues (Lagos, 1973), vive e trabalha em Lisboa. Fez a sua formação artística no Ar.Co., em Lisboa, e expõe regularmente desde 1992. A sua obra integra importantes coleções públicas e privadas.
  • 5. Como nos refere Pedro Cabral Santo, o curador da exposição, no texto de apresentação «O Lápis Mágico».
  • 6. Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea. Rua da Cerca, Almada, Tel: 212724950/51. Horário: terça-feira a domingo, das 10h às 18h. Encerra à segunda-feira e nos feriados. Dadas as limitações impostas pelo atual Estado de Emergência, a Casa da Cerca encerrará aos fins de semana às 12:30h, por esse motivo, todas as atividades irão decorrer durante o período da manhã. Ver Catálogos das exposições de Pedro Barateiro; Adriana Proganó; Ricardo Nicolau e Tania Bruguera.
  • 7. Pedro Barateiro (Almada, 1979) vive e trabalha em Lisboa. Teve exposições individuais em diversas instituições nacionais e internacionais, como Kunsthalle Basel, Museu de Serralves, Kunsthalle Lissabon, REDCAT, Museu Coleção Berardo. Participou em exposições coletivas como a 13.ª Sharjah Biennial, 29.ª Bienal de São Paulo, 16.ª Bienal de Sidney, e 5.ª Bienal de Berlim, entre muitas outras.
  • 8. Neste link pode ver o vídeo de Pedro Barateiro: «My body, this paper, this fire» (O meu corpo, este papel, este fogo), 2020 (16,59´).
  • 9. Adriana Proganó (Luzerna, Suíça, 1992). Vive e trabalha em Lisboa. Graduou-se e faz um mestrado em artes visuais na esad.cr.
  • 10. Tania Bruguera (Havana, 1968), vive e trabalha em Havana, Nova Iorque e Cambridge. Participou em inúmeras exposições internacionais como a Documenta 11, Bienal de Veneza 2015, na Tate Modern, em Londres, no Guggenheim e no MoMA, em Nova Iorque, entre outros. Premiada com um Honoris Causa pela Escola do Instituto de Arte de Chicago, pré-selecionada para o Prémio de Liberdade de Expressão #lndex100 e uma vencedora do prémio Herb Alpert.

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